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12/06/2009

Irã: uma eleição disputada e perspectivas de mudanças

The New York Times
Em Teerã
Há menos de dois meses, a maioria das pessoas aqui e no Ocidente acreditava que Mahmoud Ahmadinejad, o presidente de linha dura do Irã, rumava para mais uma vitória certa nas eleições desta sexta-feira (12). Muitos dos reformistas que se recusaram a participar da eleição em 2005 tinham uma aparência deprimida e não parecia provável que pudessem representar um grande desafio.
  • Vahid Salemi/AP

    Mulheres apóiam o líder reformista Hossein Mousavi, candidato presidencial que enfrenta Mahmoud Ahmadinejad. O verde é a cor oficial da campanha de Mousavi


Mas esse quadro mudou. Um amplo movimento de oposição cresceu, inundando as ruas das maiores cidades do Irã com eleitores de Mir Hussein Moussavi, o principal adversário do atual presidente, festivos e vestidos de verde.

Ahmadinejad, parecendo estar na defensiva, fez acusações extraordinárias contra algumas das figuras fundadoras da república islâmica, mas a tática serviu para unificar um universo heterogêneo e aguerrido de oponentes das políticas econômicas populistas do presidente e da sua postura de confronto em relação ao Ocidente.

Alguns iranianos acreditam que as energias democráticas incontroláveis liberadas nas últimas semanas poderão afetar a política deste país, independentemente de quem vença. Segundo esses indivíduos, as políticas radicais e os ataques pessoais de Ahmadinejad estimularam poderosos adversários que usarão as acusações de corrupção e ingerência feitas pelo presidente contra ele próprio. O aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do Irã, que é quem dá a palavra final nas questões de Estado e que prefere evitar o conflito aberto, poderá obrigar Ahmadinejad a adotar uma linha mais moderada caso se reeleja.

"A elite não largará o pescoço de Ahmadinejad caso ele vença", afirma Muhammad Atrianfar, jornalista e ex-autoridade governamental, que apoia Moussavi. "As instituições oficiais entrarão em conflito com ele, incluindo o Parlamento".

Mas no Irã a esperança mostrou diversas vezes estar além da realidade, e no passado movimentos democráticos similares foram neutralizados pela liderança religiosa do país. Em 1997, uma onda de manifestações estudantis foi seguida de detenções maciças, e um movimento repressivo mais amplo passou a vigorar depois que Ahmadinejad sucedeu o seu antecessor reformista, o presidente Mohammad Khatami, em 2005.

  • AFP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Ahmadinejad foi prefeito da capital Teerã. Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil. Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos (em parte devido a sanções internacionais), que agora são denunciados pelos outros candidatos presidenciais. Ahmadinejad ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas. Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos

  • Reuters

    Mir Hussein Mousavi foi premiê do Irã de 1981 a 1989, quando o cargo foi eliminado. Visto como candidato reformista, é questionado por alguns críticos por ter sido parte da estrutura de poder após a Revolução Islâmica, que esmagou oposicionistas e impôs regras ultraconservadoras no país. Mousavi também teve papel central nos avanços políticos que começaram com o presidente Mohammad Khatami em 1997. Mousavi, que estudou arquitetura, atualmente é presidente da Academia de Artes do Irã. Sua mulher defende maior presença de mulheres no governo


E, apesar de todas as esperanças nele depositadas, Moussavi não é nenhum liberal. Um outro candidato, Mehdi Karroubi, está mais vinculado às causas centrais do movimento reformista iraniano, incluindo a libertação de prisioneiros políticos e os direitos das mulheres.
Além do mais, há limites para aquilo que qualquer presidente iraniano pode fazer. Embora Ahmadinejad tenha tentado ampliar os poderes da presidência, é Khamenei, o líder supremo, que controla os rumos da política externa.

Mesmo assim, não há dúvida de que Moussavi procuraria uma postura menos desafiadora em relação ao Ocidente. Ele criticou implicitamente o apoio do Irã a grupos militantes como o Hezbollah e o Hamas, afirmando que o governo deveria se concentrar nos problemas internos.

Mas talvez o mais importante para os iranianos seja a possibilidade de que, se eleito, Moussavi modifique a política econômica. Ahmadinejad vem sendo criticado pela estagnação econômica, incluindo a alta da inflação e do desemprego. Ex-primeiro-ministro na década de oitenta, Moussavi é elogiado por ter gerenciado de forma eficiente a economia do Irã durante a guerra com o Iraque.

Grande parte da popularidade de Moussavi deve-se ao apoio de Khatami, o carismático clérigo reformista que foi presidente de 1997 a 2005. Mas os analistas dizem que, sob certos aspectos, ele poderia ser mais efetivo como presidente. Moussavi é mais pragmático do que Khatami, e por ser visto com menos desagrado pela elite clerical de linha dura, ele poderia ter mais sucesso do que Khatami ao promover a sua agenda.

Além do mais, os líderes oposicionistas dizem que Moussavi, caso eleito, contaria com a vantagem de ter atrás de si um poderoso movimento popular, e isso não apenas pelo fato de as manifestações de rua das últimas semanas terem sido maiores do que aquelas de eleições anteriores. As mulheres transformaram-se em uma grande força nesta campanha pela primeira vez na história de 30 anos da república islâmica, e todos os três principais candidatos esforçam-se para conquistar o voto delas.

Moussavi rompeu com a tradição ao fazer campanha acompanhado da mulher, Zahra Rahnavard, uma professora e artista proeminente que já era famosa antes do marido. Outros candidatos também prometeram ampliar os direitos das mulheres. Os comícios de Moussavi muitas vezes parecem incluir mais mulheres - que representam a metade do eleitorado iraniano - do que homens.

Alguns dizem que este é um outro aspecto da campanha que poderá continuar sendo importante independentemente de quem vença. Em abril último, vários grupos seculares e conservadores de mulheres juntaram forças e apresentaram uma lista de exigências de maiores direitos aos candidatos a próximo presidente do Irã.

Fatores políticos e econômicos poderão também desempenhar um papel nesta eleição. As receitas iranianas derivadas do petróleo caíram drasticamente nos últimos 12 meses. O país está enfrentando desafios políticos no Iraque e no Afeganistão, e os seus aliados no Líbano perderam uma importante eleição naquele país no último domingo. De acordo com os analistas, todos esses fatores poderiam moderar o estilo agressivo e perdulário de Ahmadinejad, caso ele fosse reeleito.

Os eleitores de Moussavi dizem estar confiantes em que haverá mudanças. Ahmadinejad pareceu estar na defensiva durante a sua última propaganda televisiva na noite da quarta-feira, tendo repetido várias vezes que não é mentiroso, conforme alegaram os seus adversários. Um dos seus últimos comícios de campanha foi cancelado na tarde da quarta-feira depois que a universidade na qual ocorreria o evento recusou-se a adiar as provas para acomodar a agenda do presidente. Uma grande multidão de estudantes cantando slogans anti-Ahmadinejad o obrigou a modificar novamente os seus planos, e ele acabou falando para um grupo bem menor de eleitores.

Líderes oposicionistas afirmam acreditar que haverá um grande comparecimento às urnas na sexta-feira, e muitos reformistas que se abstiveram de participar da eleição de 2005 disseram que desta vez participarão, a fim de ajudar a retirar Ahmadinejad do cargo.

Os apoiadores de Moussavi dizem que continuam preocupados com a possibilidade de fraude, mas uma campanha determinada -liderada em parte por Akbar Hashemi Rafsanjani, um ex-presidente de muita influência- tem mantido esta questão sob vigilância pública. Rafsanjani pediu ao líder supremo do Irã, Khamenei, que previna qualquer fraude, em uma extraordinária carta pública na terça-feira. Na quinta-feira, Rafsanjani reuniu-se como aiatolá por três horas.

Apesar de toda a confiança da oposição, seria um erro acreditar que a derrota de Ahmadinejad é certa. Ele conta com o forte apoio da maioria do eleitorado rural pobre do Irã, e as suas políticas econômicas populistas lhe garantiram a lealdade da maior parte dos aposentados e funcionários públicos, bem como dos pobres.

Caso ele conquiste um segundo mandato, muitos aqui se perguntam o que será da "onda verde" - o nome dado às grandes multidões de eleitores que lotam as ruas nas últimas semanas, vestidos com a cor da campanha de Moussavi e exigindo mudanças.

"Isso depende de nós", afirmou Karroubi, o clérigo reformista que disputa a presidência como adversário de Ahmadinejad, em uma entrevista no seu escritório de campanha. "Que tipo de ação adotaremos? Persistiremos no nosso caminho, ou entraremos em coma?".




Tradução: UOL

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