UOL Notícias Internacional
 

13/06/2009

Ambos os lados alegam vitória na eleição presidencial iraniana

The New York Times
Robert F. Worth e Nazila Fathi
Em Teerã (Irã)
Em uma mudança surpreendente de posição, a agência estatal de notícias do Irã disse que Mahmoud Ahmadinejad tinha vencido a eleição presidencial do Irã por grande margem, apenas duas horas após o término da votação, na noite de sexta-feira. Mas seu principal adversário, Mir Hussein Mousavi, anunciou desafiadoramente que tinha vencido e acusou a existência de "irregularidades" na votação.

A votação no Irã

Muitos eleitores entrevistados durante a votação na sexta-feira pareciam preocupados com a possibilidade de manipulação dos votos.

"Eu coloco um nome, mas talvez isso mude quando a cédula sair da urna", disse Adel Shoghi, 29 anos, que trabalha como funcionário de escritório em uma fábrica de carros e que votou em uma mesquita no sul de Teerã.

Como outros simpatizantes de Moussavi, Shoghi parecia desconfortável em expor sua posição de forma muito explícita em público. Mas ele disse preferir Mousavi porque o Irã precisa de mais liberdades civis e porque Ahmadinejad piorou o status de pária internacional do Irã, dificultando a vida para os iranianos que viajam.

Seu irmão Mansoor, 27 anos, que estava ao seu lado e sorria timidamente, disse que tinha acabado de votar em Ahmadinejad. "Ele está mais próximo do povo e tem um modo de vida simples", ele disse, repetindo os comentários feitos por muitos de seus simpatizantes.

Meia hora depois, Mousavi chegou à mesquita para votar, cercado por uma grande multidão de assessores e fotógrafos que gritavam. "Esta é uma oportunidade de ouro para nós", ele disse, enquanto os fotógrafos disputavam uma posição e os eleitores se esforçavam para ouvir. "Toda esta unidade e solidariedade é o grande feito da revolução e da república islâmica."

Ele partiu logo depois, com seus admiradores ainda cantando no pátio. "Salve Maomé, o perfume da honestidade e da sinceridade está chegando."

Ahmadinejad votou em outra mesquita, no sudeste de Teerã.

"Eu sou o vencedor absoluto da eleição por grande margem", disse Mousavi durante uma coletiva de imprensa logo após as 23 horas de sexta-feira, acrescentando: "É nosso dever defender os votos do povo. Não há como voltar atrás".

Uma hora depois, a agência de notícias estatal divulgou que Ahmadinejad, o atual presidente linha-dura, tinha vencido a eleição com 69% dos votos contra 28% de Moussavi. Enquanto a comissão eleitoral anunciava novos totais ao longo da noite, os números mudavam um pouco, mas a grande vantagem de Ahmadinejad não.

A comissão eleitoral faz parte do Ministério do Interior, que é controlado por Ahmadinejad. Alguns legisladores já estão parabenizando Ahmadinejad e alguns de seus simpatizantes já estão comemorando nas ruas, disse a agência.

As alegações conflitantes, após uma campanha extraordinária que viu grandes manifestações de rua e debates acrimoniosos televisionados, pareciam minar a legitimidade da votação e ameaçar uma inquietação pública. Nos últimos dias, os simpatizantes de Mousavi previam uma grande vitória, citando as pesquisas de opinião.

Alguns analistas alertaram que os simpatizantes de Mousavi poderiam tomar as ruas no sábado para protestar, apesar do alerta contra qualquer manifestação feito pelo vice-comandante da polícia nacional iraniana, Ahmadreza Radan. Na madrugada de sábado a polícia de Teerã já começava a realizar "manobras" para manter a segurança, disse a agência de notícias.

A campanha emotiva foi amplamente vista como um referendo para as políticas divisoras de Ahmadinejad. Ela colocou Mousavi, um ex-primeiro-ministro que prometeu afastar o Irã de um confronto com o Ocidente, combater a estagnação econômica e expandir os direitos das mulheres, contra o populismo econômico, conservadorismo social e política externa linha-dura de Ahmadinejad.

Muitas mulheres, jovens, intelectuais e muitos clérigos moderados apoiavam Mousavi. Ahmadinejad conta com apoio passional dos iranianos pobres rurais.

Em sua coletiva de imprensa, Moussavi citou irregularidades como a falta de cédulas. Ele acusou o governo de fechar sites, jornais e serviços de mensagem de texto por todo o país, obstruindo a capacidade da oposição de se comunicar durante a votação.

Fraude era uma grande preocupação da campanha de Mousavi, com muitos de seus aliados alertando que Ahmadinejad poderia usar a máquina do Estado - as forças armadas, a Guarda Revolucionária e a milícia Basiji - para influenciar ou intimidar os eleitores, ou mesmo fraudar a votação. Em 2005, Mehdi Karroubi, que também se candidatou nesta eleição, acusou a Basiji de manipular os votos a favor de Ahmadinejad, após ele ter sido eliminado no primeiro turno.

Em sua coletiva de imprensa, Mousavi pediu ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, que ajudasse o país a chegar a uma "conclusão favorável".

Khamenei, que tem a autoridade final sobre assuntos de Estado, parece ser a única figura capaz de atuar como mediador entre os dois campos em caso de um confronto aberto em torno da legitimidade da votação.

Mas não está claro o quanto ele sabe a respeito da crise ou que papel poderia exercer. Khamenei se encontrou na sexta-feira com Akbar Hashemi Rafsanjani, um clérigo e ex-presidente que apoia Moussavi, que alertou o líder supremo em uma carta aberta incomum, na terça-feira, sobre a possibilidade de fraude eleitoral, segundo um analista político que falou sob a condição de anonimato, citando a gravidade da situação.

  • O candidato Mir Hussein Mousavi vota ao lado de sua mulher Zahra Rahnavard nesta quinta-feira (12) nas eleições presidenciais no Irã. Zahra teve participação significativa durante a campanha

Enquanto votava logo no início do dia, na sexta-feira, Khamenei disse que as pessoas estavam usando mensagens de texto para disseminar rumores, mas não se sabe se este foi o motivo para os serviços terem sido desativados.

Em meio à confusão durante a noite, um site reformista chamado Fararu disse que Moussavi estava conversando com dois outros candidatos, Karroubi e Mohsen Rezai, para discutir a situação. Karroubi é um clérigo reformista e Rezai é um conservador e ex-comandante da Guarda Revolucionária do Irã.

Dezenas de milhões de iranianos lotaram os locais de votação ao longo do dia, com longas filas se formando do lado de fora de alguns lugares muito antes de sua abertura, às 8h. As pesquisas normalmente são divulgas no encerramento às 18h, mas a votação foi prolongada em quatro horas.

O forte comparecimento dos eleitores parece ter sido estimulado pelo grande movimento contra Ahmadinejad, que promoveu grandes comícios de oposição nas grandes cidades do Irã nas últimas semanas. Muitos eleitores reformistas não votaram em 2005 e disseram que agora estavam determinados a não repetir o erro.

Segundo as regras eleitorais do Irã, se nenhum dos candidatos atingir mais de 50% dos votos na sexta-feira, os dois mais votados disputam um segundo turno em uma semana. A maioria dos analistas achava que a eleição teria um segundo turno, mas nos últimos dias, o apoio público extraordinário a Mousavi levou a previsões de que ele poderia conquistar a presidência já no primeiro turno, na sexta-feira.

Os quatro candidatos presidenciais foram os únicos que restaram após a elite clerical do Irã ter vetado os demais meses atrás.

O presidente do Irã, apesar de menos poderoso do que Khamenei, exerce grande influência sobre os assuntos domésticos e Ahmadinejad tem usado habilmente o cargo como palanque de intimidação, tanto em casa quanto no exterior.

No início da votação na manhã de sexta-feira, os jornalistas se reuniram para assistir Khamenei votar em uma mesquita perto de sua casa, no sul de Teerã. Pouco depois das 8h, as cortinas marrons se abriram e o líder apareceu, um senhor magro de 69 anos, com óculos grandes e uma longa barba branca, com turbante preto na cabeça e o traje clerical preto. Os jornalistas, a maioria iranianos, respiraram profundamente e então entoaram uma bênção religiosa.

Khamenei apresentou seus documentos para um funcionário próximo, colocou seu voto na urna e então fez um breve discurso, no qual elogiou o vigor da campanha eleitoral.

"Eu estou ouvindo sobre uma grande participação das pessoas, e ouvi que ocorreram até mesmo encontros à noite", disse Khamenei. "Isso mostra a conscientização das pessoas."

A posição de Khamenei nas eleições presidenciais tem sido motivo de intensa especulação. Ele não apoiou ninguém, mas ofereceu uma descrição do candidato ideal, que soava muito como Ahmadinejad.



Tradução: George El Khouri Andolfato

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