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14/06/2009

Governo Obama avança para dialogar com o Irã

The New York Times
Por Mark Landler e David E. Sanger
Em Washington (EUA)
Autoridades do governo Obama disseram no sábado que estão determinadas a prosseguir com os esforços de dialogar com o governo iraniano, enquanto reagiam à aparente vitória eleitoral do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

O presidente Barack Obama falou esperançosamente sobre mudanças no Irã na sexta-feira, enquanto os iranianos iam às urnas. Mas à medida que as esperanças deram lugar às notícias de que Ahmadinejad estava sendo declarado vencedor absoluto - e de que policiais estavam reprimindo militantes da oposição em Teerã - o governo se debatia com a questão de como avançar em uma iniciativa diplomática que, na verdade, fará com que ele busque diálogo com um inimigo familiar e implacável que agora também tem um problema de legitimidade.

  • AFP

    Apoiadores de Ahmadinejad celebram sua vitória nas eleições nas ruas de Teerã, capital do Irã



Tentando ver o aspecto positivo dos acontecimentos, um oficial sênior do governo mantém as esperanças de que a intensidade do debate político, e o comparecimento massivo às urnas, possa até mesmo fazer com que Ahmadinejad fique mais receptivo aos Estados Unidos, mesmo que apenas para desarmar a repercussões de uma eleição duvidosa.

"Por causa da pressão pública, pode ser que Ahmadinejad queira reduzir o isolamento do Irã", disse o oficial, que falou sob condição de anonimato por se tratar de um tema delicado. "Isso também pode fazer com que o engajamento aconteça mais rapidamente".

Mas muitos analistas não foram tão otimistas, insistindo que a eleição agora representa um desafio severo e imediato para o governo.

"Este é o pior resultado", disse Thomas R. Pickering, ex-subsecretário de Estado. "Os EUA terão que se preocupar em não serem vistos como um país que satisfaz um presidente cuja legitimidade está em questão. Isso claramente faz com que a ideia de fornecer incentivos seja pouco apetitosa."

Pickering, que teve contatos informais com iranianos, disse que a Casa Branca teria pouca escolha a não ser aceitar os resultados. Mas ele disse que o resultado será um obstáculo para os esforços de atrair Teerã e um incentivo para os conservadores que argumentam que esses esforços são fúteis.

Muitos analistas e autoridades do Oriente Média afirmaram que o resultado reforça a realidade de que o poder final não pertence ao presidente, mas sim ao líder religioso supremo do Irã, o Ayatollah Ali Khamenei.

"Deveríamos ser claros em relação à situação com a qual estamos lidando", disse Karim Sadjadpour, especialista em Irã no Carnegie Endowment for International Peace. "Assim como lidamos com a Síria de Assad e o Egito de Mubarak, agora temos de lidar com o Irã de Khamenei", disse ele, referindo-se a dois outros líderes autoritários do Oriente Médio, Bashar Assad e Hosni Mubarak.

Em Israel, cuja política em relação ao Irã considera a opção de um golpe militar para desmontar o poder nuclear do país, autoridades dizem que a vitória de Ahmadinejad torna mais dramática a ameaça de Teerã e a necessidade de uma resposta mais dura.

O vice-primeiro-ministro Silvan Shalom disse ao público em Tel Aviv no sábado que a vitória de Ahmadinejad "envia uma mensagem clara ao mundo" de que as políticas atuais do Irã têm amplo apoio interno e irão continuar. O resultado também "é um desastre para os que pensavam que o Irã tinha condições para um diálogo genuíno com o mundo livre sobre interromper seu programa nuclear."

Não houve comemoração em Jerusalém. "Não estávamos exatamente torcendo para Ahmadinejad" disse um oficial israelense que falou sob condição de anonimato porque não havia sido autorizado ainda a comentar publicamente os resultados.

No mundo árabe, a reação ficou em grande parte dividida entre os que se alinharam com o Irã e passaram a confiar na postura agressiva de Ahmadinejad em relação ao Ocidente - como o grupo militante Hezbollah - e os aliados americanos, que se sentiram ameaçados e oprimidos desde que ele assumiu o poder.

Diplomatas árabes e analistas políticos disseram que não acreditavam que o Irã fosse mudar sua política nuclear, independentemente de quem fosse o presidente. E para os países cuja única preocupação era o programa nuclear, pode ser melhor que Ahmadinejad permaneça no poder.

  • Arte UOL


"É mais fácil insultar, confrontar e ter o Irã como inimigo quando Ahmadinejad é o presidente", disse um diplomata egípcio, falando sob condição de anonimato para manter o protocolo diplomático. "Seria inconveniente para muitos se outra pessoa tivesse se tornado presidente."

Em Washington, autoridades do governo disseram que receberam mensagens pessoais de líderes iranianos, alertando os Estados Unidos para esperarem até que a eleição estivesse concluída para receber uma resposta à abertura de Obama.

Mas esses oficiais preocupam-se com a fato de que, caso haja uma luta prolongada entre as forças de Mir Hussein Mousavi, o principal rival na eleição, e Ahmadinejad, o governo iraniano estará tão distraído nos próximos meses que não será capaz de responder com seriedade antes do prazo dado por Obama para que as negociações progridam até o fim do ano.

Além disso, isso poderia fortalecer o poder de Khameini, dos militares e das forças do governo de Ahmadinejad que transformaram o confronto com os EUA quanto ao programa nuclear numa questão de patriotismo.

Antes de fazer qualquer coisa, o governo tem que abordar as alegações conflitantes de vitória de Teerã. Se não forem resolvidas, elas podem levantar questões duradouras sobre a legitimidade do presidente.

Para as autoridades americanas, o maior problema é que, enquanto a eleição congelou o diálogo, o programa nuclear do Irã continua a pleno vapor. No começo desse mês, a Agência Internacional de Energia Atômica relatou que, até o final de maio, o Irã havia construído e instalado 7.200 centrífugas - mecanismos para enriquecimento de urânio - e estava aumentando seu estoque de combustível nuclear mais rápido do que nunca.

Agora, o governo enfrenta uma escolha incômoda. Ele pode continuar pedindo que o Irã desista de enriquecer urânio - o que ainda é a posição oficial dos Estados Unidos, mas considerada um objetivo quase impossível. Ou ele pode aceitar tacitamente que o Irã não vai parar o enriquecimento.

"No fim das contas, existe uma necessidade de estabelecer o diálogo", disse um oficial sênior dos EUA. "Com certeza daríamos tempo a eles, desde que eles não se apropriassem desse tempo dando continuidade a seu programa nuclear."

Isabel Kershner contribuiu com a reportagem em Jerusalém, e Michael Slackman no Cairo, Egito.

Tradução: Eloise De Vylder

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