UOL Notícias Internacional
 

15/06/2009

Com nudez sendo proibida no YouTube, vídeos de mulheres dando à luz geram dúvidas

The New York Times
Malia Wollan
Em seu oitavo mês de gravidez, Rebecca Sloan, uma bióloga de 35 anos que mora em Mountain View, Califórnia, já tinha lido os livros sobre o que esperar, feito os cursos de parto e participado das salas de bate-papo de mamães, mas ainda não tinha idéia do que a aguardava. Assim, como inúmeras mulheres grávidas antes dela, Sloan digitou "childbirth" (parto) na ferramenta de busca do YouTube. O resultado foi milhares de vídeos, mostrando de tudo, de mulheres dando à luz sob hipnose e por cesariana até partos em banheiras.

"Eu apenas queria ver a coisa toda", disse Sloan. E ela viu, graças a mulheres como Sarah Griffith, 32 anos e moradora da área de Atlanta que, quando deu à luz ao seu filho Bastian, convidou suas melhores amigas para se juntarem a ela. Uma empunhava uma câmera, registrando as contrações de Griffith, a cabeça do bebê saindo e seu primeiro choro. Depois, Griffith postou uma hora de vídeo no YouTube em nove partes, que desde então já foram assistidos mais de 3 milhões de vezes. "O parto é algo lindo e não sou uma pessoa privada", disse Griffith.

Mamães e papais diretores como Griffith pensam em seus vídeos caseiros como uma forma de desmistificar o parto, ao mostrar para outras mulheres -e seus maridos fracos- imagens que poderiam não ver até o início das contrações. Se o YouTube pode ilustrar como solucionar um Cubo Mágico, arrombar uma fechadura e preparar um ovo pochê, talvez ele possa também demonstrar como dar à luz. Recentemente, um casal britânico virou assunto de tabloide após sua mulher dar à luz, auxiliada apenas por seu marido usando um vídeo de parto no YouTube como guia.

Inevitavelmente, a maioria dos vídeos de parto é explícitos, desafiando não apenas as regras do YouTube mas também as convenções da sociedade sobre o que é apropriado.

"Nudez geralmente é proibida no YouTube", disse Victoria Grand, a chefe de políticas do site. "Mas abrimos exceções para vídeos que são educativos, documentários ou científicos." Os funcionários do YouTube analisam regularmente os vídeos explícitos e, dependendo do conteúdo, podem decidir deixar o vídeo, restringir o acesso a maiores de 18 anos ou remover o vídeo. Os vídeos médicos explícitos estão entre as exceções, permitindo aos ciberpacientes e outros espectadores com mais de 18 anos assistirem vídeos de colonoscopias, apendectomias e cirurgias de coração aberto. A maioria dos vídeos de parto possui restrições de idade.

Inicialmente Sloan disse que se sentiu tímida assistindo. Ela lembrou de um vídeo exibindo um casal falando holandês ou alemão, no qual o homem abraçou gentilmente a mulher por trás enquanto ela ficava de cócoras e se inclinava. Logo, Sloan estava em lágrimas. "Foi realmente tocante", ela disse. "Os vídeos não são sensacionalistas, praticamente não são editados e as pessoas não ganham dinheiro com eles. Logo, o propósito parece bastante genuíno."

Mulheres entrando no YouTube para assistir partos é uma inclinação natural, disse Eugene Declercq, um professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston. "Há 150 anos as mulheres viam partos regularmente -elas viam suas irmãs ou vizinhas darem à luz", ele disse, acrescentando que só a partir do final do século 19 é que o parto saiu das salas de estar e quartos para os hospitais. "Mas agora, com o YouTube, as mulheres voltaram a ter esta oportunidade de assistir partos."

Todo dia Griffith entra no YouTube para responder comentários e perguntas postadas pelos espectadores em resposta aos seus vídeos do nascimento de Bastian. Ela disse que sua seção de comentários se divide desta forma: futuras mães empolgadas e apreensivas; alguns poucos comentários tão obscenos que ela se recusa a postá-los; e, finalmente, comentários daqueles que Griffith chama de "sujeitos repetitivos". "Eles sempre dizem coisas como: 'Uau, ainda bem que não sou mulher'", ela disse.

Os vídeos de Griffith são difíceis de assistir. Bastian pesava quase cinco quilos ao nascer, e ela não removeu os closes, os gritos, os gemidos e os palavrões. "Minha meta não é assustar ninguém", ela disse. "Mas se alguém estiver grávida e não aceitar o fato de que há dor envolvida, então é melhor começar."

A natureza explícita dos vídeos públicos de parto os torna controversos. Em um fórum online da "Parenting Magazine", uma usuária recentemente postou a pergunta: "Debate de Mamãe: Vídeos de Parto no YouTube? O que você acha -ótimos ou nojentos?" As respostas se dividem entre nojentos ("Minha pergunta é por que estas pessoas sentem necessidade de postar isso na Internet?") e ótimos ("Eu acho ótimo para que as mamães vejam todas as formas diferentes e reais com que as mulheres dão à luz").

Vídeos de parto são exibidos em cursos de parto desde os anos 70. Mas esses vídeos tendem a ser altamente editados e parecem datados, disse Jeanette Schwartz, presidente da Associação Internacional de Ensino de Parto, que certifica instrutores de cursos de parto. Os vídeos no YouTube podem mudar a forma como as aulas são ensinadas, disse Schwartz: "Isso cria uma oportunidade maravilhosa para mostrar vídeos gratuitos, verdadeiros, em um ambiente de sala de aula".

A maioria dos vídeos de parto no YouTube é de partos em casa, gravados dentro de salas de estar, quartos e banheiras. Nos Estados Unidos, muitos hospitais e médicos proíbem os pacientes de gravar os partos por temor de processos, de forma que poucos vídeos de parto em hospitais americanos aparecem no YouTube.

Os milhares de vídeos de parto online, as salas de bate-papo de mamães e infinitos blogs de gravidez estão mudando a dinâmica entre as mulheres grávidas e os profissionais médicos que as atendem.

"Quanto mais informação alguém tem, quanto mais fontes alguém tem, quanto mais informadas são, melhores são as perguntas que fazem", disse Eileen Ehudin Beard, uma conselheira da Universidade Americana de Enfermeiras Obstetras, que conta com 6.500 membros. Mas os vídeos de partos complicados ou difíceis podem ser prejudiciais, disse Beard, especialmente se deixarem as mulheres mais temerosas de ter um bebê.

Providence Hogan insistiu que não é "uma pessoa do YouTube". Ainda assim, Hogan, 42 anos, que é dona de um spa no Brooklyn, tem assistido muitas horas de vídeos de parto como preparativo para a chegada em agosto de seu segundo filho. Se o parto de Hogan ocorrer como planejado (em casa em uma banheira de parto), ela pretende que sua filha de 7 anos, Sophia, esteja presente. Após escolher vídeos no YouTube e em outro site, o birthvideos.tk, Hogan começou a mostrar para Sophia os menos explícitos.

"No início ela dizia: 'Isso é estranho, é horrível'", disse Hogan sobre a resposta de sua filha. "Agora ela diz: 'Ah, que bebê bonito!'"

Há onze meses em Mountain View, Sloan gravou o nascimento de seu filho, Urban. Ela disse que se sente sem graça de colocá-lo no YouTube, além de não saber o que seu marido diria. Ainda assim, ela disse que algum dia seu vídeo se tornará um testemunho mais público da agonia e beleza do nascimento.

"Eu descobri que é de muita ajuda assistir esses vídeos", disse Sloan, "e sou tão grata às famílias que os compartilharam que sinto que preciso retornar o favor".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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