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16/06/2009

Manifestações no Irã são um desafio ao poder do aiatolá Khamenei

The New York Times
Neil Mac Farquhar
Durante duas décadas, o aiatolá Ali Khamenei foi uma presença discreta no topo da hierarquia de poder no Irã, raramente aparecendo ou fazendo comentários públicos. Mandando nas forças armadas, no judiciário e no sistema de transmissões públicas de rádio e televisão, o líder supremo é capaz de controlar com braço de ferro, embora discretamente, a república islâmica.

Mas em uma rara ruptura com uma longa história de movimentos cautelosos, ele apressou-se a aprovar a vitória eleitoral do presidente Mahmoud Ahmadinejad, pedindo que os iranianos o apoiassem antes mesmo que se passassem os três dias exigidos para a certificação do resultado.

Foi então que multidões enfurecidas cresceram em cidades de todo o Irã, e ele voltou atrás, anunciando na segunda-feira (15) que o Conselho de Guardiães, composto de 12 membros, que avalia as eleições e as novas leis, investigará a eleição.

"Após ter parabenizado a nação por uma vitória sagrada, o fato de dizer agora que existe uma possibilidade de fraude representa um grande retrocesso para ele", afirma Abbas Milani, diretor do programa de estudos iranianos da Universidade Stanford.

Poucos são os que sugerem que o poder de Khamenei corre qualquer risco. Mas os analistas dizem que ele abriu no regime islâmico uma grave fissura que pode ser impossível fechar, especialmente ao se levar em conta a feroz briga em torno das eleições que irrompeu em meio à elite dos veteranos da revolução de 1979. Até mesmo os seus fortes vínculos com a poderosa Guarda Revolucionária - que há muito tempo constitui-se na sua política de segurança - pode não ser um fator decisivo à medida que desdobra-se o enfrentamento no Irã.

Iranianos vão às ruas para protestar

"Khamenei costumava vir sempre e dizer: 'Calem a boca; o que eu digo será feito'", afirma Azar Nafisi, autor de duas memórias sobre o Irã, incluindo "Reading Lolita in Tehran" ("Lendo Lolita em Teerã"). "Todos diriam então, 'Tudo bem, é a palavra do líder'. Mas agora o mito de que existe um líder com poder inquestionável foi quebrado".

Aqueles que sentem que importantes mudanças podem estar surgindo se apressam em advertir que Khamenei, um estudante da revolução que tirou o xá do poder, ainda poderá recorrer à força bruta para esmagar as manifestações.

Os especialistas observam que, ao pedir que o Conselho Guardião investigasse a eleição, Khamenei obteve uma trégua de dez dias para que a raiva dos manifestantes diminua. O resultado da investigação dificilmente será uma surpresa. O aiatolá Ahmed Jannati, chefe do conselho, é um dos poucos aliados condicionais de Khamenei em meio aos poderosos clérigos. Além disso, o aiatolá nomeia a metade dos membros, enquanto que a outra metade é nomeada pelo chefe do judiciário, uma outra figura escolhida pelo líder supremo.

"Trata-se simplesmente de uma falsa investigação para conter os protestos", afirma Karim Sadjadpour, especialista em questões iranianas da instituição Carnegie Endowment for International Peace.

Khamenei não era um provável sucessor do patriarca da revolução, o aiatolá Ruhollah Khomeini, e o fato de ter chegado à posição de líder supremo em 1989 pode ter plantado as sementes da crise política atualmente enfrentada pelo país.

  • Arte UOL
Filho de um clérigo da cidade sagrada de Mashhad, Khamenei era conhecido como um mulá de mente algo aberta, apesar de não ser exatamente um liberal. Ele tinha uma bela voz para canções, tocava o tar, o tradicional instrumento de cordas iraniano, e escrevia poesias. O seu círculo de amigos incluía alguns dos melhores poetas do Irã.

Na violência que se seguiu à derrubada do xá Mohammed Reza Pahlavi, uma bomba oculta em um gravador aleijou permanentemente o seu braço direito, e ele foi nomeado presidente em 1981, depois que uma outra bomba matou o indivíduo que ocupava o cargo. Certa vez ele despertou a ira do próprio Khomeini, ironicamente por ter questionado publicamente certos aspectos do vilayat-e-faqih, o sistema de líderes supremos.

Ele também desentendeu-se várias vezes com Mir Hussein Moussavi, o poderoso primeiro-ministro da época. Após ter sido derrotado por Ahmadinejad, Moussavi, o candidato presidencial reformista, desafiou Khamenei em uma área em que este sempre foi vulnerável: àquela referente às suas credenciais religiosas.

Moussavi escreveu uma carta aberta sobre os resultados da eleição aos clérigos na cidade sagrada de Qom. Ao apelar para o alto clero, ele estava efetivamente afirmando que a palavra de Khamenei como líder supremo carece de peso suficiente.

Khamenei foi elevado da posição clerical intermediária de hojatolislam para a de aiatolá da noite para o dia, naquilo que foi essencialmente uma decisão religiosa, e não política. Ele foi menosprezado por muitos seguidores da tradição xiita, ainda que a máquina de fabricação de mitos do Irã tenha trabalhado a todo vapor. Uma testemunha chegou a afirmar que vira uma luz passando de Khomeini para Khamenei, de forma similar àquela como os imames de séculos atrás eram escolhidos.

Carecendo de uma base política própria, ele dedicou-se a criar uma nas forças armadas. A guerra Irã-Iraque chegava ao fim, e muitos oficiais de alta patente que voltaram da frente de batalha exigiam um papel na política ou na economia como compensação pelos sacrifícios feitos. Para eles Khamenei tornou-se uma espécie de padrinho, dando-lhes cargos importantes no sistema de rádio e televisão, ou tornando-os líderes das várias fundações que confiscaram grande parte do setor privado do país do período pré-revolucionário.

"Ao fortalecer esses oficiais, ele obteve poder", afirma Mehdi Khalaji, do Instituto Washington de Políticas para o Oriente Próximo.

Neste momento de confusão após a eleição, questiona-se quem controla quem. Mas, no decorrer dos anos, Khamenei acabou gradualmente com as expectativas de que seria eclipsado.

"Ele é um líder fraco, mas é extremamente inteligente quando se trata de fazer alianças ou movimentar-se entre os centros de poder", afirma um especialista da Universidade de Nova York, que não quis que o seu nome fosse divulgado porque viaja frequentemente ao Irã. "Devido às divisões dentro do Estado, ele parece ser a pessoa mais poderosa".

Mas muitas analistas dizem que as diferenças entre facções nunca foram tão pronunciadas ou públicas quanto nos últimos dias. O ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, que já foi um aliado próximo de Khamenei, tendo-o ajudado tornar-se líder supremo, enviou uma carta aberta ao aiatolá nos dias que antecederam a eleição, avisando que qualquer fraude seria um tiro pela culatra. Rafsanjani avisou que, caso Khamenei permitisse que as forças armadas ignorassem a vontade popular e destruíssem os revolucionários veteranos, essa decisão iria assombrá-lo no futuro. "Amanhã será você", afirmou Rafsanjani.

Todos os que falam sobre Khamenei tendem a usar a palavra "cauteloso", para designar um homem que nunca faz apostas políticas. Mas ele agora enfrenta um dilema quase impossível. Se deixar as manifestações crescerem, isso poderá modificar o sistema de governo clerical. Se usar a violência para esmagar as manifestações, o mito de um mandato popular para a revolução islâmica morrerá.

"A liderança iraniana ficou presa em um paradoxo", diz Nafisi, o autor das memórias sobre o Irã.

Tradução: UOL

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