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17/06/2009

Iranianos levaram canetas às urnas por medo que a tinta do governo pudesse ser apagada

The New York Times
Bill Kelller
Em Teerã (Irã)
Antes da eleição e do pandemônio que a ela se seguiu, alguns jornalistas pararam para almoçar e tomar um café na zona centro-norte de Teerã, um local com retratos de Shakespeare e Samuel Beckett onde seria mais comum encontrar a imagem austera do aiatolá Khomeini, e onde a música de fundo é jazz norte-americano.

"Que disco é esse?", perguntou um indivíduo recém-chegado na cidade. Ele levantou uma capa de CD do grande intérprete de blues John Lee Hooker. Realmente? O cantor conhecido como Boogie Man tocava jazz? "Hooooker!", insistiu ele.

Bom, nunca se sabe. Vale a pena checar. Mas, voltando ao hotel, uma busca no Google resultou em um triângulo amarelo com um ponto de exclamação e a advertência: acesso a esse site negado.

O que? Ah. É claro. "Hooker" (a palavra inglesa "hooker" quer dizer prostituta).

Bem-vindo à república islâmica, onde nós protegemos o indivíduo dele mesmo. Há muito o que aprender.


ESCOLHA UMA TEORIA

Os iranianos são geralmente unânimes em considerar um milagre a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad para outro mandato de quatro anos.
Alguns acreditam de forma literal que o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, tinha razão ao afirmar que "a mão milagrosa de Deus" agiu. Outros creem nisso no sentido de que não enxergam uma explicação natural para o fato de um político que presidiu o país em um período de crescente inflação, desemprego e isolamento ter sido capaz de obter quase oito milhões a mais de votos do que na sua primeira vitória.

Os iranianos cosmopolitas apresentam várias teorias para explicar como tantos dos seus compatriotas aguentaram - na verdade, receberam de braços abertos - o paternalismo da sua quase teocracia.

Disse um engenheiro elétrico: "Os iranianos são quase monarquistas". A Revolução Islâmica de 1979 não acabou com a figura do xá, argumenta o homem. Ela o substituiu por um líder supremo - um aiatolá cuja palavra é literalmente a lei e que raramente é questionado em público. Até mesmo os manifestantes na rua que gritam "Morte ao ditador!" não emitem nenhum brado de protesto contra Khamenei, o homem que é clérigo supremo há mais de 20 anos.

Disse uma escritora: "Somos como crianças vítimas de abuso sexual". Ao serem violadas por aqueles dos quais esperavam proteção, acham que a culpa é delas, que foram vítimas de abuso porque mereceram. Elas não falam sobre o problema, porque sentem vergonha.

Um forasteiro poderia sentir-se atraído por uma teoria mais mundana. A de que, durante a sua história, os iranianos gastaram a necessidade de liberdade.

Os iranianos dirigem rapidamente, mantendo os veículos próximos uns dos outros. Eles furam sinais vermelhos, fazem pegas, correm com motocicletas sobre as calçadas, utilizam a marcha-ré de forma extraordinária.

Dois amigos que moraram nos Estados Unidos conversavam recentemente. "Sinto saudade da liberdade", dizia um. "Sim", retrucou o amigo. "Mas nos Estados Unidos você pode dar marcha-ré em uma auto-estrada?".

Seria então relevante o fato de Ahmadinejad - "Doutor Ahmadinejad", conforme ele é chamado pelos seus apoiadores - possuir um PhD em engenharia de trânsito?


CULPANDO OS MENSAGEIROS

As teorias conspiratórias parecem florescer em governos autoritários e adeptos do secretismo, talvez porque tais sistemas sejam essencialmente conspirações em si mesmos. No Irã, isso vale para o povo em geral; basta ver o número de pessoas que levou as suas próprias canetas para a urna de votação na sexta-feira, por temor de que as canetas fornecidas pelo governo pudessem conter uma tinta que desaparecesse após o voto.

E isto é algo que ocorre especialmente com os governantes. A lista de Ahmadinejad daqueles que desejam prejudicar o Irã inclui a maior parte da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Mas no momento ela se concentra na mídia ocidental. Segundo ele, sem a interferência da mídia externa, o povo iraniano estaria feliz, unido e obediente.

Nada a temer. No último domingo, o vice-comandante de polícia do Irã, Ahmadreza Radan, informou ao serviço estatal de imprensa as novidades sobre a prisão de manifestantes, e garantiu à população: "Durante o interrogatório dos rebeldes, pretendemos descobrir a ligação entre os conspiradores e a mídia estrangeira".

Mensagens de texto, websites, telefones celulares, serviços de redes sociais e outros possíveis canais para a agitação externa já foram esporadicamente alvo de interferência do governo.

Na terça-feira (16/06), o apropriadamente denominado Ministério de Guia e Orientação Islâmica anunciou que as credenciais de trabalho de jornalistas estrangeiros foram canceladas, e que as autoridades "não seriam responsáveis" por qualquer problema enfrentado pelos jornalistas que continuassem cobrindo a resistência diária. Os vistos estão vencendo rapidamente e não têm sido renovados.


RESPOSTA AINDA MAIS DURA EM OUTROS LOCAIS

Para se ter uma ideia do que pode aguardar os descontentes do Irã quando não houver ninguém em volta para noticiar os fatos, vejamos a situação na noite da última segunda-feira em Isfahan, a terceira maior cidade do Irã, que fica a cinco horas de carro da mais próxima câmera de televisão estrangeira.

Assim como em Teerã, grandes partes da cidade - praças e avenidas - foram cenários de fumaça e chamas, gás lacrimogêneo, pedradas em janelas e cabeças ensanguentadas.

A rebelião parecia mais orgânica do que organizada - aglomerados de algumas dezenas de indivíduos fundindo-se em grupos de algumas centenas, convergindo contra fileiras de tropas de choque, e gritando "Morte ao ditador!".

Mas em Isfahan a resposta policial parecia bem mais dura.

Em determinado momento, um veículo utilitário esportivo branco com uma luz vermelha como a de uma ambulância surgiu em alta velocidade por trás de um grupo de manifestantes e chocou-se contra eles, passando por cima de uma pessoa antes de acelerar até uns quarteirões adiante, e colocar-se sob a proteção da tropa de choque.

Grupos de basijis, os vigilantes à paisana que têm autorização para agir, pilotando motocicletas e portando longos cassetetes, foram lançados às centenas contra os manifestantes a fim de semear o medo bem longe da verdadeira rebelião. Muitos usavam nas cabeças as faixas verdes da oposição - possivelmente como camuflagem, ou para confundir os manifestantes.

Em determinado momento um grupo de pessoas que observavam os acontecimentos (incluindo um jornalista que tem o dom de estar sempre no local errado) viu-se encurralado na antiga ponte Si-o-Seh, e deparou-se com o dilema de ter as cabeças arrebentadas ou dar um salto de sete metros de altura até o leito seco do Rio Zayandeh. No último minuto, os brutamontes foram distraídos por uma outra vítima.

Às 22h, assim como em Teerã, uma forma mais lírica de protesto irrompeu: manifestantes gritando em ondas do telhado das suas casas: "Deus é grande! Morte ao ditador!". Segundo os moradores, em algumas partes de Isfahan, policiais à paisana foram de porta em porta, quebrando janelas e às vezes lançando bombas de gás lacrimogêneos dentro das residências.


Tradução: UOL

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