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18/06/2009

Enquanto o governo dispara balas, manifestantes revidam com "tweets" no Irã

The New York Times
Nicholas D. Kristof
A convulsão social que ocorre neste momento no Irã é o típico conflito do século 21. De um lado estão os brutamontes do governo disparando balas. Do outro, jovens manifestantes disparando "tweets".

O arsenal dos manifestantes, como os tweets do Twitter.com, depende da Internet e de outros canais de comunicação. Assim, o governo iraniano está bloqueando certos websites e expulsando jornalistas estrangeiros, ou mantendo-os longe dos locais onde se desenrolam os acontecimentos.

Com restrição a jornalistas, blogs e Twitter informam imprensa sobre situação no Irã

A iniciativa de remover testemunhas pode ser o prelúdio para uma Praça da Paz Celestial de Teerã. Mas uma secreta linha de comunicação via internet permanece ativa, e isso é um tributo ao mundo louco e globalizado no qual vivemos. Ela foi elaborada por engenheiros de computação chineses nos Estados Unidos para possibilitar que um grupo espiritual chinês reprimido, o Falun Gong, escapasse da censura do Partido Comunista.

Hoje em dia, esses chineses que apoiam o Falun Gong são a maior esperança para os iranianos que tentam acessar os sites bloqueados.

"Não temos coragem de cortar o acesso dos iranianos", diz Shiyu Zhou, cientista de computação e líder da iniciativa chinesa, denominada Consórcio Internacional de Liberdade na Internet. "Mas se os nossos servidores ficarem muito sobrecarregados, poderemos ter que cortar o tráfego".

Zhou diz que a utilização do software do consórcio triplicou na semana passada. Na quarta-feira (17/06) ele estabeleceu um recorde, tendo sido acessado mais de 200 milhões de vezes a partir do Irã, o que representa mais de 400 mil pessoas.

Se o presidente Barack Obama desejar apoiar movimentos democráticos de forma barata, ele deve apoiar uma "iniciativa de liberdade na Internet" no congresso, no valor de US$ 50 milhões, no sentido de instaurar uma legislação de apoio a essas tecnologias para evasão de censura. O equivalente do Muro de Berlim no século 21 é uma ciber-barreira, e nós podemos ajudar a furar esse bloqueio.

Zhou, que é filho de um general do exército chinês, diz que ele e os seus colegas começaram a desenvolver o software após a operação repressiva do governo chinês, em 1999, contra o Falun Gong (que as autoridades denunciam como sendo um culto religioso). Um dos resultados foi um software gratuito chamado Freegate, suficientemente pequeno para ser levado em um flash drive. Ele dirige os navegadores da Internet para um servidor no exterior que modifica os endereços de I.P. cerca de uma vez por segundo, o que é muito veloz para possibilitar o bloqueio por parte do governo. Desse servidor o navegador é dirigido para um site banido.

O Freegate é um autêntico ciberkit do dissidente. Os e-mails enviados por ele podem ser criptografados. E após o término de uma sessão, basta pressionar um botão para eliminar qualquer sinal de que o programa foi usado no computador.

O consórcio também faz variações do software, como o Ultrasurf, e outros programas para burlar os censores estão disponíveis no Projeto Tor e na Universidade de Toronto.

Originalmente, o Freegate estava disponível apenas em chinês e inglês, mas um número crescente de indivíduos tem usado o programa em outros países, com Myanmar. Respondendo ao uso cada vez maior do Freegate no Irã, o consórcio lançou a versão em língua farsi em julho do ano passado - e desde então o uso disparou.

Logo havia quase tantos iranianos quanto chineses usando o programa, o que fez com que a capacidade do servidor chegasse ao limite (muitos chineses desconfiam do Freegate devido aos seus vínculos com o Falun Gong, no qual nem mesmo os cidadãos comuns confiam). Os engenheiros do consórcio, temendo que o tráfego iraniano causasse uma pane nos seus servidores, cortaram o acesso no Irã em janeiro, mas o restauraram antes da eleição iraniana.

"Conhecemos o sofrimento dos indivíduos que vivem em sociedades fechadas, e desejamos acomodá-los", diz Zhou.

A China está contra-atacando os "hacktivistas". O governo anunciou que os novos computadores vendidos a partir do mês que vem terão que contar com um software de filtragem da Internet, chamado Grande Barragem (o consórcio já desenvolveu um software chamado Tsunami Verde para neutralizá-lo). O mais alarmante é que, em 2006, um engenheiro do consórcio que morava perto de Atlanta foi atacado na sua casa. Ele foi espancado e teve os seus computadores roubados. Agora os engenheiros que trabalham com o Freegate tomam cuidado para não revelar as suas localizações.

É verdade que essas tecnologias não se constituem em nenhuma panaceia. Um jornalista chinês calcula que apenas 5% dos usuários da Internet do país usem os chamados proxy softwares, e os próprios iranianos tiveram sucesso ao fazerem uma revolução de massas em 1979 sem nenhum auxílio da alta tecnologia. E, no fim das contas, as balas geralmente esmagam os tweets.

Mesmo assim, o fato de as pessoas que vivem em regimes fechados terem acesso à informação faz uma diferença - e é por isso que as ditaduras se esforçam tanto em bloquear o acesso geral à internet.

"Para mim o Freegate é uma espécie de ponte para o mundo externo", diz um jornalistas chinês com tendências dissidentes, que pediu que o seu nome não fosse revelado. "Antes de acessar a Internet através do Freegate, eu era de fato um cara que apoiava o governo".
Ativistas dos direitos humanos em Cuba, Coreia do Norte, Síria e outros países pediram ao congresso dos Estados Unidos que aprovasse a iniciativa de liberdade na Internet, no valor de US$ 50 milhões, e Tom Malinowski, da organização Human Rights Watch diz que também apoia a medida.

O governo Obama tem se mantido silencioso em relação à proposta. Para Obama, esta seria uma forma barata e efetiva de apoiar os iranianos e, ao mesmo tempo, rachar os muros das ditaduras do século 21.

Tradução: UOL

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