UOL Notícias Internacional
 

18/06/2009

Obama sob pressão para adotar um tom mais firme contra o Irã

The New York Times
Helene Cooper e Mark Landler
Em Washington
Enquanto dezenas de milhares de manifestantes iranianos tomam as ruas em protesto e desafio ao governo em Teerã, as autoridades em Washington estão debatendo se a resposta do presidente Barack Obama à eleição contestada do Irã tem sido muito calada.

Obama está sob pressão dos republicanos e outros conservadores que dizem que ele deveria adotar uma posição mais visível em apoio aos manifestantes.

Apesar de apoiarem a abordagem do presidente, importantes membros do governo, incluindo o vice-presidente Joe Biden e a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, gostariam de adotar um tom mais forte em apoio aos manifestantes, disseram funcionários do governo.

Outras autoridades da Casa Branca aconselharam uma abordagem mais cautelosa, dizendo que críticas ao governo ou apoio aos protestos poderia ter o efeito paradoxal de desacreditar os manifestantes e fazê-los parecer estarem sendo guiados pelos americanos. Até o momento, Obama tem seguido esse roteiro, criticando a violência contra os manifestantes, mas dizendo que não deseja ser visto como interferindo na política doméstica iraniana.

Mesmo assim, o governo iraniano acusou na quarta-feira as autoridades americanas de declarações "intervencionistas".

Mas vários funcionários do governo reconheceram que Obama pode correr o risco de entrar para o lado errado da história em um momento potencialmente transformador no Irã.

A preocupação do governo em como calibrar a resposta aos protestos no Irã reflete as metas concorrentes que Obama está tentando equilibrar: manter a fé dos defensores da democracia no Irã e ao mesmo tempo não adotar uma posição tão firme que mate qualquer chance de diálogo com o governo iraniano sobre interesses de segurança nacional americanos, incluindo o programa nuclear iraniano e seu apoio a organizações islâmicas militantes como o Hamas e o Hizbollah.

Algumas das críticas à postura cautelosa do governo Obama podem ser politicamente oportunistas, vindo de rivais ávidos em traçar distinções entre os republicanos e democratas, retratando o governo como fraco quando se trata de confronto internacional.

Mas Obama também atraiu críticas de observadores politicamente neutros, quando disse em uma entrevista ao "The New York Times" e "CNBC", na terça-feira, que do ponto de vista da segurança nacional americana, não havia muita diferença entre o presidente Mahmoud Ahmadinejad e Mir Hussein Moussavi, seu adversário mais próximo na eleição.

"De qualquer forma", disse Obama, os Estados Unidos "lidarão com um regime iraniano que historicamente é hostil aos Estados Unidos, que causou alguns problemas na vizinhança e está buscando armas nucleares".

Os críticos consideraram o comentário despropositado e desdenhoso de Moussavi, que se tornou um símbolo da liberdade e democracia no Irã. "A postura de Obama é muito equivocada, sem uma mensagem clara", disse o deputado Eric Cantor, republicano da Virgínia, o articulador da minoria da Câmara. "Agora é hora de mostrarmos nosso apoio ao povo iraniano. Eu gostaria de ver uma declaração forte por parte dele, que tenha clareza moral."

Vários funcionários do governo, apesar de reconhecerem certo desconforto com a política comedida de Obama, reagiram às críticas. "Ele é o presidente dos Estados Unidos", disse um alto funcionário. "Nós não estamos dizendo que são apenas 100 mil pessoas nas ruas e nada mais. É isso, mas quando há uma série de questões com as quais temos que lidar, incluindo a nuclear, você não tem o luxo de se concentrar em apenas uma coisa."

Outro alto funcionário do governo disse temer que se Estados Unidos fossem vistos como tentando influenciar o resultado da eleição, seria difícil, talvez impossível, para a Casa Branca negociar posteriormente com o regime iraniano a respeito de seu programa nuclear.

"Se eles pensarem que estamos preocupados com a mudança de regime e não com a mudança de comportamento do regime, eles certamente se recolherão", disse o funcionário, que falou sob a condição de anonimato por causa da delicadeza do assunto.

Mas alguns especialistas em política externa questionaram se após os eventos recentes, os Estados Unidos deveriam ou mesmo poderiam se sentar a uma mesa de negociação com um altamente desacreditado Ahmadinejad.

Os Estados Unidos estão em uma posição mais delicada do que outros países, por causa de seu enorme simbolismo no Irã, onde "Morte aos Estados Unidos" ainda é entoado na oração de sexta-feira.

Assim, Hillary Clinton, em uma visita às Cataratas de Niágara, Ontário, no último fim de semana, ofereceu um comentário sem comprometimento sobre a eleição, dizendo: "Nós obviamente esperamos que o resultado reflita a vontade genuína do povo iraniano".

Então o ministro das relações exteriores do Canadá, Lawrence Cannon, expressou aos mesmos microfones a "profunda preocupação" do Canadá com as irregularidades na votação, e exigiu uma "contagem justa e transparente dos votos".

Muitos especialistas em Irã aplaudiram a posição comedida de Obama após a eleição. Mas alguns deles desapareceram na terça-feira, quando ele disse que não havia muita diferença entre Ahmadinejad e Moussavi.

"Para Barack Obama, aquilo foi um erro sério", disse Steven Clemons, diretor do programa de estratégia americana da Fundação Nova América. "É certo para o governo ser cauteloso, mas é extremamente ruim para ele estreitar o buraco pelo qual estamos olhando o que está acontecendo apenas para o foco do programa nuclear."

Os comentário de Obama diminuíram Moussavi, que está rapidamente se tornando um ícone político no Irã, disseram até mesmo defensores da política de Obama para o Irã.

"Até agora, o presidente tinha calibrado cuidadosamente seus comentários sobre o Irã, mas esse foi erro enorme e pouco característico", disse Karim Sadjadpour, uma especialista em Irã do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. "As pessoas estão arriscando suas vidas e sendo mortas nas ruas porque querem uma mudança fundamental na forma como o Irã é governado. Nossa mensagem para elas não deve ser que isso não faz muita diferença para os Estados Unidos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host