UOL Notícias Internacional
 

19/06/2009

No leste alemão, um declínio tão marcante quanto um muro

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Hoyerswerda (Alemanha)
Neste 20º ano desde a queda do Muro de Berlim, o governo da chanceler Angela Merkel está preparando uma série de comemorações até o aniversário em novembro.

A história oficial do renascimento do leste foi reforçado pela recente visita do presidente Barack Obama a Dresden, em toda sua glória reconstruída.

Mas fora de grandes cidades como Dresden, Leipzig ou Berlim, em locais como esta ex-cidade de mineração industrial, a história de declínio e êxodo pouco mudou na antiga Alemanha Oriental.

Não distante dos poucos centros urbanos prósperos, o tráfego é sempre pequeno nas estradas recém-pavimentadas, e à noite em partes de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no norte do país, mal se vê uma luz em qualquer direção das autobahns.

Em uma canção popular de poucos anos atrás, Rainald Grebe descrevia a sensação de solidão ao cantar: "Eu me sinto tão vazio hoje, eu me sinto Brandemburgo", se referindo ao ex-Estado alemão oriental que cerca Berlim.

Os jornais acompanham por um lado o retorno das matilhas de lobos à Saxônia, ao longo da fronteira polonesa, e por outro a contínua migração dos jovens e aqueles com boa formação educacional em busca de melhores oportunidades no oeste.

Quando as autoridades do governo alemão apresentaram na semana passada seu relatório anual sobre o estado da unificação e as tentativas da antiga Alemanha Oriental de alcançar o Ocidente, o quadro que pintaram foi altamente positivo, mas não exatamente completo.

O governo relatou de forma precisa que gastou mais de US$ 60 bilhões em apoio aos negócios e construção de infraestrutura apenas de 2006 a 2008. E a atividade econômica por pessoa subiu de 67% para 71% da atividade da antiga Alemanha Ocidental ao longo desta década.

"Graças ao desenvolvimento econômico positivo, o leste está no caminho para se equiparar ao oeste", disse Wolfgang Tiefensee, o ministro responsável pelo desenvolvimento dos antigos Estados da Alemanha Oriental. "A desigualdade está diminuindo."

Ela está diminuindo em parte porque os líderes de exportação mais duramente atingidos na recessão se encontram no oeste, um nivelamento por baixo em vez de por cima.

O desemprego na ex-Alemanha Oriental continua sendo o dobro do desemprego no oeste, e em algumas regiões o número de mulheres com idades entre 20 e 30 anos caiu mais de 30%. Ao todo, cerca de 1,7 milhão de pessoas deixaram a ex-Alemanha Oriental desde a queda do Muro de Berlim, cerca de 12% da população, um processo contínuo mesmo nos poucos anos antes do início da crise econômica.

E o declínio da população está prestes a ficar ainda pior, em consequência da bomba-relógio demográfica conhecida pelo nome de sonoridade inócua "a curva", que ocorreu após o fim do comunismo. A taxa de natalidade despencou tanto na antiga Alemanha Oriental naqueles primeiros anos incertos que a queda só é comparável a tempos de guerra, segundo Reiner Klingholz, diretor do Instituto para População e Desenvolvimento de Berlim. "Por vários anos os alemães-orientais simplesmente deixaram de ter filhos", disse Klingholz.

O jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung" noticiou recentemente que enquanto 14 mil jovens receberão seu diploma do ensino médio neste ano na Saxônia, apenas 7.500 concluirão o colégio no próximo ano. Desde 1989, cerca de 2 mil escolas fecharam por toda a ex-Alemanha Oriental por escassez de crianças.

Assim em Hoyerswerda, antes uma cidade modelo da Alemanha Oriental comunista que contava com a mais alta taxa de natalidade do país, a idade média tem aumentado, como em muitas cidades pequenas, de 35 anos em 1989 para 48 anos atualmente.

Vazio é o sentimento predominante quando se caminha pela cidade, que perdeu mais de 40% de seus moradores desde a queda do Muro, com a população caindo de mais de 70 mil para menos de 40 mil.

Franziska Kalkbrenner, 18 anos, planeja trabalhar na Nova Zelândia no próximo ano e então espera frequentar uma universidade. Ela não sabe exatamente onde, mas não será em Hoyerswerda, que não possui uma. Como muitos moradores, entretanto, ele não se descreve como alegre em partir, mas que vai partir apenas porque precisa. "Eu realmente gostaria de viver aqui. Eu cresci aqui e gosto da cidade", ela disse.

A maioria das pessoas que partem, como Kalkbrenner, o faz à procura de trabalho. Segundo a prefeitura, o complexo industrial de Schwarze Pumpe costumava fornecer 13 mil vagas de trabalho para os moradores de Hoyerswerda nos tempos do comunismo, mas agora fornece apenas 3.500. O emprego nas minas próximas, antes responsáveis por até 5 mil vagas de trabalho, agora caiu para 500 ou menos.

A prefeitura está demolindo prédios para tentar acompanhar a queda na população. Em uma cidade que antes contava com 21 mil apartamentos, 7.500 foram demolidos e outros 2 mil serão em breve.

Em uma recente visita à sua casa vinda de onde mora atualmente, na cidade ocidental de Karlsruhe, Judika Zirzow permaneceu em uma grande terreno vazio, marcado pelos sulcos das esteiras dos tratores. O terreno desolado já foi um prédio de apartamentos, um dos pilares do Wohnkomplex, ou projetos habitacionais, da ex-Alemanha Oriental, sem contar o lar onde ela cresceu.

"Toda vez que visito meus pais e circulo de carro por Hoyerswerda, toda vez há uma nova casa demolida", disse Zirzow, 24 anos, que trabalha em um banco. "A face de Hoyerswerda está diferente."

Ela disse que está ciente de poder desfrutar de oportunidades que nunca teria sob o comunismo, tendo acabado de voltar de uma viagem à Tailândia com seu namorado nascido na Austrália. Mas isso não muda o que sente quando volta.

"É triste pensar que se tiver filhos, nunca vou poder dizer para eles: 'Foi aqui onde eu cresci'", disse Zirzow.

A mãe dela, Andrea Zirzow, tem apenas 46 anos, mas já viu uma vida inteira de mudanças. "Eu vi quando construíram o prédio onde as crianças cresceram", ela disse. "Eu fiquei feliz quando nos mudamos para os prédios mais novos na cidade, foi como se tivéssemos ganhado na loteria." Agora, ela e seu marido moram em uma pequena casa em um vilarejo fora da cidade. Seu filho Felix, 22 anos, seguiu sua irmã até Karlsruhe, onde ele trabalha na Siemens.

"As pessoas do leste se transformaram em nômades", disse Andrea Zirzow.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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