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19/06/2009

Vínculos de casal com Washington ocultou operação de espionagem para Cuba

The New York Times
Ginger Thompson
Em Washington
Ela havia se divorciado duas vezes e tinha acabado de sair do Estado de Dakota do Sul quando sentiu-se atraída pela sofisticação mundana daquele homem. E ele era oriundo de uma das famílias mais privilegiadas da cidade, e admirava a forma como ela trabalhava no sentido de ajudar as pessoas comuns.

Juntos, Gwendolyn e Kendall Myers resolveram dar um novo significado à segunda metade das suas vidas. No início, desiludidos com o ritmo de mudança em Washington, o bisneto de Alexander Graham Bell, que à época era um funcionário contratado pelo Departamento de Estado, e a dona de casa que virou ativista política mudaram-se para Dakota do Sul, onde adotaram um estilo de vida de contracultura, chegando a plantar maconha no porão da casa em que moravam. Eles participaram de passeatas pela legalização do aborto, defenderam o uso da energia solar e retomaram as relações com os seis filhos de casamentos anteriores.

Quando os vastos espaços abertos do oeste tornaram-se rapidamente pequenos, os dois retornaram para Washington um ano depois, renovando os vínculos com o establishment que haviam rejeitado.

Mas o governo afirma que o verdadeiro motivo pelo qual os Myers retornaram em 1980 foi a espionagem para Cuba. Em uma denúncia que em determinados trechos parece um romance, promotores federais alegam que Kendall Myers, 72, usou a sua credencial de segurança de nível "top-secret" como analista do Departamento de Estado para roubar informações sigilosas dos arquivos do governo durante quase três décadas, e que Gwendolyn Myers, 71, que trabalhava como bancária, ajudou a passar as informações para agentes cubanos. Eles foram presos no início deste mês e estão detidos sem direito à fiança.

O argumento mais forte em apoio às alegações do governo pode ter sido feito pelos próprios Myers. Na denúncia de 40 páginas, afirma-se que eles teriam dito a um agente disfarçado do FBI o quanto admiravam Fidel Castro, como enviaram informações secretas para Havana por um rádio de ondas curtas, deixaram pacotes para agentes em carrinhos de compras em supermercados locais, viajaram pela América Latina para encontrarem-se com agentes cubanos e usaram documentos falsos para viajar a Havana para uma noite com Castro.

Autoridades dos Estados Unidos dizem que ainda estão tentando determinar que segredos foram roubados e as consequências disso para a segurança do país.

Ao que parece os Myers não foram motivados por dinheiro. As autoridades dizem que o casal não foi pago, e que só foi reembolsado pela compra de equipamentos. Ao contrário, segundo as declarações citadas na denúncia, que um magistrado federal diz que torna o processo contra o casal "insuperável", os dois desprezavam a política externa dos Estados Unidos - o diário de Kendall Myers descreve que ver o noticiário de televisão era uma "experiência radicalizadora" - e tinham uma visão romântica do governo comunista de Cuba.

E, apenas meses após a aposentadoria de Kendall Myers ter supostamente encerrado o esquema, eles indicaram que a espionagem proporcionou aventura para aquilo que caso contrário parecia ser uma vida relativamente mundana.

"Nós realmente sentimos saudade de vocês", disse Kendall Myers em abril para um agente disfarçado do FBI que fingia ser um oficial de inteligência cubano.

"Vocês foram uma parte de fato importante das nossas vidas, e nós nos sentimos incompletos".

A prisão dos Myers, que estão detidos sem direito a fiança desde o início deste mês, foi manchete de jornais em todo o mundo e gerou uma troca frenética de mensagens entre Miami e Havana. Os promotores recusam-se a falar a respeito da investigação em andamento.

Enquanto isso, amigos e parentes do casal de Washington e Dakota do Sul ainda estão chocados com as acusações.

"Quando o FBI bateu na porta e me disse que a minha mãe tinha sido presa, eu não consegui deixar de pensar que eles vieram à casa errada", diz a filha de Gwendolyn Myers, Jill Liebler, 52.

"A mídia retratou-o como sendo um homem solitário e fanático, que tinha uma agenda", diz Michael Myers, referindo-se ao pai. "Ele não é nada disso".

Mas outros admitiram que havia imagens do casal que eles conheciam no retrato pintado pelo governo.

Jay Davis, um defensor público de Dakota do Sul, lembra-se de um fim de semana passado anos atrás em um resort de águas minerais, onde Cuba era o único assunto sobre o qual Kendall Myers falava. "Ele fez com que a ilha parecesse maravilhosa. Eu comecei a achar que algo de grave estava ocorrendo", conta Davis.

Documentos da justiça dizem que Kendall Myers, um especialista em história europeia, passou a interessar-se por Cuba em 1978. Divorciado, ele mergulhou em questões mundiais como professor adjunto da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e como instrutor contratado do Instituto de Serviços Estrangeiros do Departamento de Estado.
Segundo a denúncia, Myers foi convidado a visitar Havana por uma autoridade cubana não identificada que fez uma apresentação no instituto. Segundo o diário de Myers, a viagem teve um efeito profundo sobre ele.

Visitar o Museu da Revolução Cubana em Havana "foi uma experiência profunda", escreveu Myers sobre a viagem no seu diário. "O fato de acompanhar passo a passo as intervenções históricas dos Estados Unidos nas questões cubanas, incluindo o assassinato sistemático e regular de líderes revolucionários, me deixou com uma sensação de um bolo na garganta. Eles não precisaram se esforçar muito para mostrar que nós fomos exploradores".

Enquanto isso, Gwendolyn Steingraber fazia o seu próprio curso rápido em questões internacionais como assessora do senador James Abourezk, democrata da Carolina do Sul, que era um dos principais defensores do fim do embargo dos Estado Unidos a Cuba.

Dona de casa e mãe de quatro filhos, ela mergulhou no movimento McGovern do Partido Democrata contra a Guerra do Vietnã e passou a atuar como voluntária em campanhas políticas.

No congresso, ela tinha um emprego de baixo escalão - a sua principal tarefa era entrar em contato com eleitores - e ficava à sombra dos astros políticos em ascensão, incluindo o ex-senador Tom Daschle e Peter Rouse, que atualmente é assessor do presidente Barack Obama. Ex-colegas a descrevem como brilhante, um pouco ingênua e destituída da sabedoria e da educação formal - ela não frequentou a faculdade - para ascender na carreira.

"O emprego dela não era o mais importante no departamento", conta Wendy Grieder, uma ex-assessora legislativa. "Mas para Gwen foi excelente".

Peter Stavrianos, um outro ex-colega, acrescenta: "Ela não era muito diferente de dezenas e dezenas de outras pessoas que conhecemos na década de 1970, 'McGovernites' que entraram na política por motivos que não tinham nada a ver com ganhar muito dinheiro".

Amigos dos dois apresentaram Myers a Steingraber, e em breve eles tornaram-se um casal inseparável.

"Nunca conheci nenhum casal mais apaixonado do que esse", diz Amanda Myers Klein, 40, filha de Kendall Myers. "Eles são bonitos juntos".
Em 1979, Myers, que tinha 42 anos, seguiu com Steingraber, 41, para a cidade de Pierre, em Dakota do Sul, onde ela obteve um emprego na Comissão de Serviços Públicos para ajudar fazendeiros a usar energia alternativa. Ele trabalhou em uma biografia de Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico, que Myers admirava pelas suas políticas em relação aos nazistas.

Ele também tentou ao máximo usufruir a vida na pequena cidade de 10 mil habitantes - acampando, praticando jardinagem e indo até o ponto de estacionamento de caminhões para conversar sobre política com fazendeiros locais. Porém, para as pessoas que o conheciam, parecia evidente que Myers jamais se encaixaria naquele estilo de vida.

"Eles eram diferentes do tipo de pessoa que costumamos ver em Dakota do Sul", diz Greg Rislov, que ainda trabalha na comissão de serviços. "Eles vestiam-se de maneira diferente. Viviam de forma diferente. Eu não tinha a menor dúvida de que Kendall, com o seu Ph.D., desejava algo mais do que sentar-se na sua casinha em Pierre pelo resto da vida".

Os vizinhos contam que, menos de um ano após a chegada dos Myers, policiais invadiram a residência do casal e apreenderam pés de maconha no porão. E, em breve, a eleição de um governador republicano custou a Gwendolyn Myers, que fora nomeada por políticos, o seu emprego na comissão.

Os investigadores dizem que um agente de inteligência cubano visitou o casal e sugeriu que os dois retornassem a Washington para atuar como espiões.
Eles voltaram à capital em 1980 e dois anos mais tarde casaram-se.

Segundo os investigadores, Kendall Myers tornou-se secretamente o agente cubano 202. Gwendolyn Myers virou a agente 123. A denúncia contra eles diz que ou Myers retirou documentos do Departamento de Estado ou memorizou informações e passou-as para o papel em casa. Os investigadores afirmam que ele teve acesso a pelo menos 200 relatórios sensíveis ou sigilosos relativos a Cuba entre 2006 e 2007. Enquanto isso a mulher dele passava informações aos contatos cubanos.

Em 2006 o FBI advertiu o Departamento de Estado que suspeitava da existência de um espião infiltrado na instituição. Naquilo que poderá revelar-se uma coincidência notável, naquele mesmo ano Kendall Myers atraiu atenções pelas suas posições políticas.

Em um discurso na universidade em que lecionou, ele denunciou a chamada "relação especial" entre Estados Unidos e o Reino Unido, afirmando que tal relação não passava de um mito, e afirmou que o presidente George W. Bush enganou o primeiro-ministro Tony Blair, fazendo com que este apoiasse a
Guerra do Iraque.

O discurso teve bastante destaque na imprensa britânica, e fez com que o Departamento de Estado divulgasse uma enérgica mensagem de repúdio a ele.

"Não foi aquele tipo de apresentação comedida e equilibrada que seria de se esperar de um funcionário do Departamento de Estado", afirma Robin Niblett, um especialista em questões europeias que falou no mesmo evento.

Quando o FBI descobriu as atividades do casal, Kendall Myers havia se aposentado do Departamento de Estado e trabalhava como professor na Escola de Estudos Internacionais Avançados. Mas, segundo a denúncia, quando um agente disfarçado passando-se por espião cubano ofereceu um charuto a Myers após uma aula, a emoção da espionagem retornou.

Segundo o documento da justiça, mais tarde ele e Gwendolyn Myers encontraram-se com o agente em um quarto de hotel, e disseram que não desejavam voltar a espionar em tempo integral, mas que estariam dispostos a trabalhar como "força de reserva". Ele eles afirmaram ainda que estavam ansiosos para navegar para Cuba, país ao qual se referiram como sua "casa".

"Nós amamos de fato o seu país", disse Kendall Myers ao agente, segundo a denúncia. "O povo e a equipe são simplesmente importantes nas nossas vidas. Não queremos perder o contato novamente".

Tradução: UOL

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