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20/06/2009

O impressionante Egito atrai a atenção do futebol mundial

The New York Times
Jere Longman
Em Johannesburgo (África do Sul)
O goleiro ajoelhou-se e orou. Os seus companheiros de time rolaram no campo, sem camisa e extremamente felizes. O técnico abraçou os seus auxiliares e começou a chorar.

  • AP
O Egito acabara de conquistar a sua maior vitória no futebol, derrotando a Itália, a atual campeã mundial, por 1 a 0, na noite da última quinta-feira, na Copa das Confederações. Enquanto aqui os jogadores entravam no campo, milhares de pessoas saíam às ruas do Cairo, agitando bandeiras e buzinando os carros em um delírio súbito.

Ninguém esperava nada do Egito neste ensaio para a Copa do Mundo do ano que vem. O time ganhou o campeonato africano de futebol seis vezes, e é forte nos contra-ataques, mas o Egito não era considerado um concorrente maior no palco mundial. Sem dúvida o time ficaria vulnerável diante do Brasil ou da Itália, que juntos ganharam nove copas do mundo.

"Nenhuma esperança para os faraós", dizia uma manchete do jornal "The Star", aqui em Johannesburgo, uma semana atrás, ao fazer uma previsão sobre a Copa das Confederações.

Mas ninguém esperava que o Egito fosse um camaleão futebolístico tão brilhante, adaptando-se ao estilo dos seus oponentes internacionalmente conhecidos, fazendo uma ataque "em ritmo de samba" em uma derrota apertada de 4 a 3 para o Brasil e praticando uma defesa cerrada para tornar-se a primeira seleção africana a derrotar a Itália.

E agora o Egito é o assunto das conversas sobre a Copa das Confederações. Ele poderá avançar até as semifinais deste torneio de oito equipes caso no domingo obtenha uma vitória contra os Estados Unidos e a Itália empate ou perca para o Brasil.

O técnico Hassan Shehata começou com problemas. A sua equipe chegou aqui após perder para a Argélia e empatar com Zâmbia na fase final de qualificação para a Copa do Mundo. Não há nenhuma garantia de que o Egito esteja aqui no ano que vem para participar daquele que é considerado o evento mundial mais importante do esporte.

Mas tudo isso foi esquecido na noite de quinta-feira. O placar dizia, Egito 1, Itália 0, os jogadores rolavam na grama e Shehata abraçava os assistentes técnicos enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto.

"Ele está sob uma pressão enorme", diz Zak Abdel, um egípcio que treina goleiros para a seleção dos Estados Unidos e que é amigo de Shehata. "A mídia egípcia é muito difícil. Após o jogo com o Brasil, a imprensa disse que ele teve sorte. Não importa. Ele voltou e derrotou a Itália. E isso não foi sorte".

Shehata, 60, um ex-jogador de bigodes que tem cabelos grisalhos, é técnico da seleção nacional do Egito desde 2004. Ele é conhecido como justo, honesto e um disciplinador rigoroso. Na Copa das Nações Africanas de 2006, Shehata tirou da equipe o astro e artilheiro da seleção, Mido, depois que este discutiu com ele no campo após ter sido substituído durante as semifinais.

A seguir o jogador escolhido por Shehata marcou o gol da vitória, lavando a alma do técnico. Shehata manteve Mido fora da final, mas permitiu que ele recebesse a medalha da vitória. Duro, mas justo.

"Ele é muito organizado", diz Abdel sobre Shehata. "Alguns jogadores não gostam disso. Se o treino for às 4h, alguns jogadores acordam a uma da madrugada. Shehata quer que eles sejam profissionais, apresentando-se às sete para o café-da-manhã. Após quatro ou cinco anos, os jogadores perceberam que vão ao campo para trabalhar. Antes era férias. Eles faziam o que queriam. Agora é trabalho".

Na quinta-feira Shehata fez uma outra modificação, inserindo o meio-campista Mohamed Homos na equipe. Quando faltavam cinco minutos para o final do primeiro tempo, Homos deu uma cabeçada em direção às redes, marcando o único gol da partida. Depois disso, o goleiro Essam el Hadary, alerta, agressivo e inspirado, defendeu várias bolas seguidas para frustrar a Itália, mergulhando, deslizando pela grama, agachando-se e fazendo tudo o que podia para impedir que a bola cruzasse a linha do gol.

Esse tipo de coisa sempre acontece, diz Bob Bradley, o técnico norte-americano. É por isso que o futebol é tão bonito e cruel.

As seleções chegam aos torneios internacionais após as longas temporadas de campeonatos de clubes. Alguns jogadores estão entusiasmados e outros cansados. A motivação deles pode ser estimulada ou reduzida, a concentração aguçada ou exaurida. Uma grade equipe pode fracassar, e um azarão pode ter sucesso.

Bradley cita a abertura da Copa do Mundo de 2002, quando a França, campeã da copa anterior, perdeu para o Senegal. E na abertura da Copa do Mundo de 1990, a Argentina, a campeã de 1986, perdeu para a seleção de Camarões. E a África está em destaque novamente na Copa das Confederações, com o Egito ameaçando o Brasil e derrotando a Itália. É como se as sardinhas do futebol estivessem nadando com as baleias do esporte.

"Jogadores de várias seleções acabaram de terminar as suas temporadas em clubes", diz Bradley. "Eles podem apresentar os estados de espírito mais variados. Mas agora eles se reúnem e no primeiro ou no segundo jogo pode ocorrer algo que estimule a todos e funcione como uma centelha. Ou pode ser que as coisas não deem certo. Há um pouco de pressão extra. Os jogadores começam a ficar nervosos".

O Egito não tem se mostrado nervoso. O atacante Mohamed Zidan, que joga para o Borussia Dortmund na Liga Alemã, marcou dois gols na segunda-feira, e um empate de 3 a 3 contra o Brasil parecia garantido até os minutos finais, quando um jogador egípcio recebeu um cartão vermelho por colocar a mão na bola. Kaká bateu o pênalti e o Brasil venceu por 4 a 3. Mas se o Egito perdeu o jogo, ele ganhou auto-confiança.

"O nosso primeiro jogo mostrou que nós não estamos aqui apenas para participar", disse após a partida o capitão do time, Ahmed Hassan. "Nós provamos que temos espírito guerreiro".

Zidan sofreu um estiramento muscular no jogo contra a Itália e não pôde terminar o jogo. Não se sabe se ele jogará contra os Estados Unidos. Se Zidan não jogar, Shehata fará uma outra modificação. Ele tem talento para fazer esse tipo de aposta, e está jogando com dinheiro da casa.

"Eles estão exigindo uma dedicação total. Todos os jogadores correm para ajudar os companheiros e fazem um esforço físico tremendo em todo jogo", diz Bradley, mencionando os fatores que tornam o Egito uma seleção notável. "Agora nós precisamos ter o mesmo compromisso e a mesma disposição para disputarmos um jogo que para eles significa tudo".

Abdel, o técnico dos goleiros norte-americanos e amigo de Shehata, enxerga uma cadeia familiar de acontecimentos. O Egito está lutando para se classificar para a Copa do Mundo. Está em jogo o orgulho nacional. A complacência não é uma opção aceitável quando existe uma chance do time avançar na Copa das Confederações.

"Isso é algo tipicamente egípcio", afirma Abdel. "Quando você os coloca em uma situação difícil, eles lutam. Eles batalharam pela classificação para a Copa do Mundo contra a Argélia, e a mentalidade era a de que tudo estava bem. Mas basta colocá-los em uma arena e eles lutam. Os jogadores egípcios tiram vantagem das deficiências do adversário".

Tradução: UOL

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