UOL Notícias Internacional
 

21/06/2009

Líder supremo perde sua aura enquanto os iranianos vão às ruas mais uma vez

The New York Times
Roger Cohen
Em Teerá (Irã)
O comandante da polícia iraniana, de uniforme verde, subiu a alameda do Hospital Komak a pé, de braços erguidos, ao lado de sua pequena unidade militar. "Juro por Deus", gritou para os manifestantes à sua frente, "tenho filhos, mulher, não quero bater em ninguém. Por favor, vão para casa."

Quem é o líder supremo?

  • AP

    Ali Hosseini Khamenei

    O líder supremo não é só o chefe de Estado, acima do presidente eleito, como deve ratificar qualquer decisão política, incluindo a posse do chefe de governo. Além de ter a última palavra em assuntos de segurança nacional e política externa, é o comandante-em-chefe das Forças Armadas do Irã, incluindo a Guarda Revolucionária, um exército ideológico que depende diretamente de seu gabinete e que também controla a milícia de voluntários conhecidos como "basijis"

Um homem ao meu lado jogou uma pedra nele. O comandante, sem se intimidar, continuou seu apelo. Havia gritos de "Junte-se a nós! Junte-se a nós". A unidade recuou em direção à rua da Revolução, onde grandes multidões avançavam e recuavam confrontadas pela milícia Basij, de cassetete em mãos, e policiais de choque vestidos de preto em motocicletas.

Uma fumaça preta se erguia dessa grande cidade no final da tarde.
Motos foram queimadas, lançando chamas brilhantes em direção ao céu. O Ayatollah Ali Khamenei, líder supremo, usou seu sermão de sexta-feira para declarar ao meio dia em Teerã que haveria "derramamento de sangue e caos" se os protestos contra a eleição persistissem.

Ele viu ambas as coisas acontecerem no sábado - e viu a sacrossanta autoridade de seu poder ser desafiada como nunca desde a revolução de 1979, que deu origem à República Islâmica e concebeu para ela um posto de liderança ao lado do próprio Profeta. Uma multidão de iranianos levou a luta para o âmbito do sagrado no sábado, de onde é pouco provável que ela retorne.

Khamenei assumiu um risco radical. Ele escolheu uma facção, afrouxando seu traje pomposo de árbitro e se alinhando com o presidente Mahmoud Ahmadinejad contra Mir Hussein Moussavi, líder da oposição, e Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, um dos patriarcas da revolução.

Ele provocou milhões de iranianos elogiando sua participação sem precedentes numa eleição que muitos veem agora como um golpe nas urnas. Ele ridicularizou a ideia de que uma investigação oficial sobre os votos possa ter um resultado diferente. Ele tentou apelar para os sentimentos, batendo em sua tribuna. Resumindo, ele perdeu a aura.

A resposta que quebrou o tabu foi inequívoca. É engraçado como as obsessões das pessoas voltam para atacá-las. Tenho ouvido sobre o medo de Khamenei de uma "revolução de veludo" há meses. Não houve nada de veludo em relação aos conflitos no sábado. De fato, o pedido inicial para que os votos de Moussavi fossem contados apropriadamente e Ahmadinejad fosse deposto se transformou num confronto mais amplo contra o próprio regime.

O lixo queimava. Multidões vaiavam. Fumaça de gás lacrimogênio pairava no ar. Tijolos arremessados fizeram as falanges da polícia, algumas com rifles automáticos, recuarem para acompanhar os gritos. No começo da tarde, rumores de que o comício por Moussavi havia sido cancelado levaram ao confronto violento.

Não sei qual é a direção que essa rebelião irá tomar. Sei que algumas unidades de polícia estão indecisas. Aquele comandante falando sobre sua família não estava sozinho. Há outros policiais reclamando da milícia Basij rebelde. Algumas forças de segurança apenas ficaram paradas e assistiram. "Todos juntos, todos juntos, não tenham medo", gritava a multidão.

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Também sei que as mulheres do Irã estão na vanguarda. Há dias, tenho as visto incentivando homens menos corajosos que elas. Tenho visto elas apanharem por causa de seu espírito de combate. "Por que vocês estão sentados aí?", gritou uma delas para alguns homens sentados na sarjeta no sábado. "Levantem-se! Levantem-se!"

Outra mulher de olhos verdes, Mahin, de 52 anos, cambaleou para uma alameda cobrindo seu rosto em prantos. Então, contra os pedidos dos que estavam ao redor dela, ela mancou de volta para o meio da multidão que ia na direção da Praça da Liberdade. Gritos de "Morte ao ditador!"
e "Queremos liberdade!" a acompanhavam.

Havia pessoas de todas as idades. Vi um homem idoso com muletas, funcionários de meia idade e grupos de adolescentes. Diferente das revoltas estudantis de 2003 e 1999, esse movimento é amplo.

"As Nações Unidas não podem nos ajudar?", uma mulher me perguntou. Eu disse que duvidava muito. "Então", disse ela, "estamos por nossa conta".

O mundo está observando, a tecnologia conecta, e o Ocidente está enviando os sinais que pode, mas, no final, essa é a verdade. Os iranianos estão nessa luta solitária há muito tempo: para serem livres, para terem uma certa democracia.

O Ayatollah Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica, compreendeu isso, abrindo espaço para um pouco de pluralidade no sistema autoritário. Esse pluralismo teve altos e baixos desde 1979 - principalmente baixos - mas depois da eleição ele foi esmagado com extrema brutalidade. É por isso que toda uma nova geração de iranianos, com sua inteligência insultada, se levantou.

Eu diria que o momentum está com eles agora. Em alguns momentos do sábado, a autoridade de Khamenei, ou seja, da própria República Islâmica, pareceu frágil. As autoridades revolucionárias sempre zombaram do Xá, tomado pelo câncer, que cedeu antes de um levante, e nunca quiseram se curvar da mesma forma. Mas estão enfrentando um teste cada vez maior.

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Saindo da rua da Revolução, caminhei em direção a uma cortina de fumaça de gás lacrimogênio. Eu havia acendido um cigarro alguns minutos antes - não por hábito mas por necessidade - e um jovem chegou cambaleando para mim e gritou: "Sopre fumaça no meu rosto". A fumaça anula os efeitos do gás até certo ponto.

Fiz o que pude e disse: "estamos com vocês" em inglês, e junto com meu colega acabamos entrando numa rua sem saída - Teerã está cheia delas - correndo do gás que queimava e da polícia. Respirei e entrei por uma porta num prédio de apartamentos onde alguém havia acendido um pequeno fogo num prato para aliviar o ardor do gás.

Éramos cerca de 20 pessoas reunidas ali, com os olhos lacrimejando e os corações disparados. Um estudante de 19 anos cuidava de sua perna esquerda, que sofreu um golpe de cassetete de eletrochoque de um integrante da milícia. "Não vamos voltar para trás, de jeito nenhum", disse um amigo dele enquanto ele massageava a perna ferida.

Mais tarde, fizemos uma tentativa de ir para o norte, observando a polícia atacar de tempos em tempos, chegando à praça da Vitória, onde uma batalha violenta acontecia. Jovens quebravam tijolos e pedras do tamanho certo para arremessar. A multidão se movimentava para frente e para trás, confrontada por unidades da polícia não tão convincentes.

Olhei para cima, através da fumaça e vi um poster com o rosto austero de Khomeini com os dizeres: "O Islã é a religião da liberdade".

Mais tarde, enquanto a noite caía na tumultuada capital, de cima dos telhados, por toda a cidade, o som autoritário de "Allah-u-Akbar" - "Deus é Grande" - soou mais uma vez, como aconteceu todas as noites desde a eleição fraudulenta, mas no sábado ele parecia mais forte. O mesmo grito foi ouvido em 1979, apenas para que uma forma de absolutismo abrisse espaço para a próxima. O Irã esperou mais do que o suficiente para ser livre.

  • Arte UOL
Tradução: Eloise De Vylder

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