UOL Notícias Internacional
 

22/06/2009

Quase 3 milhões de refugiados paquistaneses buscam abrigo longe dos combates

The New York Times
Por Sabrina Tavernise
Mardan (Paquistão)
A família Khan conseguiu passar pela vigilância Taleban, uma ofensiva militar e uma viagem de três dias até essa cidade populosa.

Mas depois de mais de um mês vivendo juntos - 75 pessoas, três cômodos, um banheiro - pode ser que eles não sobrevivam a si mesmos.

"Isso é um teste para nós", disse Akhtar Jan, mãe de quatro que faz parte da família. "Se não sorrirmos, vamos morrer de tanto chorar."

O Paquistão está passando por sua pior crise de refugiados desde a separação da Índia em 1947, e apesar de o mundo parecer familiar com os acampamentos que se estenderam como tapetes desde o início da operação contra o Taleban em abril, a grande maioria das quase 3 milhões de pessoas que fugiram vivem ocultas em casas e escolas, de acordo com as agências de ajuda humanitária.

  • Akhtar Soomro/Reuters

    Centenas de refugiados paquistaneses, que deixaram região de conflito entre taleban e exército, fazem fila para receber suprimentos em campo da ONU, no começo do mês de junho

Eles são os refugiados invisíveis, e seus números inflaram as populações de cidades como esta capital no nordeste do país, Islamabad, multiplicando a carga sobre as ruas já precárias, escolas, sistemas de esgoto, fornecimento de água, e, também, sobre as famílias anfitriãs.

A maioria fugiu de repente, sem dinheiro ou pertences, e muitos têm acesso limitado aos milhões de dólares de ajuda internacional que tem sido enviada ao país.

"As pessoas não percebem que eles existem", diz Michael McGrath, diretor paquistanês da ONG Save the Children [Salve as Crianças], que se concentra em ajudar refugiados fora dos campos. "As necessidades deles não são atendidas."

O infortúnio deles transformou o tempo em algo fundamental. Os refugiados dizem que deixaram suas casas porque acreditavam que o governo estava falando sério em relação a impedir a ação dos militantes dessa vez. Quanto mais o tempo passa, mais se perde a boa vontade, e é mais provável que eles fiquem frustrados com o esforço de guerra.

"É isso", disse o refugiado do vale de Swat Hamid Akbar, 25, na capital regional Peshawar. "Os militares não terão outra chance."

Mas no que diz respeito à crise dos refugiados, a resposta do governo federal e provincial têm sido negligente, ou simplesmente não existente. Refugiados disseram em entrevistas feitas na semana passada que eles não veem provas da assistência do governo.

Os principais esforços para aliviar a situação vêm de organizações de ajuda e da ONU, que registra os refugiados em acampamentos, a maioria longe dos grandes centros urbanos. Muitos dos refugiados não sabiam como se registrar, ou mesmo se podiam fazê-lo.

Tudo isso coloca um peso nas famílias anfitriãs, que, de acordo com uma pesquisa feita pela Save the Children, receberam mais de duas famílias cada. (Uma família média tem cerca de dez pessoas.)

É um ato de caridade gigantesco. A pesquisa descobriu que apenas um terço dos refugiados estavam vivendo com parentes. O resto está com amigos e até com estranhos.

"Teria sido um desastre se essas pessoas não os tivessem recebido em suas casas", diz Azam Khanis, que coordena os esforços de ajuda humanitária do governo provincial.

Mas essa generosidade não é ilimitada. Já faz mais de um mês que o Paquistão começou as operações em Swat, e as famílias anfitriãs estão se cansando de seus hóspedes.

Jan disse que sua família dá números a seus integrantes para organizar o cotidiano, dividindo o tempo de usar o banheiro, de dormir e de cozinhar. As refeições são preparadas em dois cilindros de gás propano no quintal.

À noite, 25 mulheres e crianças dormem juntos num quarto, espalhados pelo chão de pedra como um cobertor. "Pé na boca, mão na cara", são as palavras que Jan usa para descrever a cena.

Eles ocuparam três quartos vazios de hóspedes de um prédio que pertence a um empresário local. Almoçam de graça numa escola próxima, mas o arroz é cheio de pedras. Para o jantar, eles têm que se virar.
Numa noite recente, Jan cozinhou nabo.

"Fomos esquecidos", diz Shah Khan, uma de suas primas.

O vale de Swat, de onde vem a família Khan, é verdejante, de clima ameno e cheio de rios e florestas, e o calor forte de Mardan é estranho para eles. As crianças pareciam desmaiadas, deitadas em esteiras no chão.

Hamza Bakht, 14, passa os dias na rua para fugir do sufocante apartamento de dois cômodos onde seus 40 familiares estão morando.
Quando ele vivia no vale de Swat, seus pais o trancavam em casa, e o proibiam de sair depois da escola, por medo de que ele fosse recrutado à força pelo Taleban, cujos soldados de infantaria são na maioria adolescentes.

"Eu assistia TV a maior parte do tempo", diz ele.

Nenhum dos amigos de Hamza entrou para o Taleban, mas ele conhece rapazes da idade dele que entraram. Eles foram tentados por coisas simples, diz ele, como exercícios de treinamento militar que "fazem você se sentir um homem, como se estivesse defendendo alguma coisa."

Integrantes de sua própria família foram convencidos. Uma de suas tias riu ao contar que a irmã dela havia dado suas joias ao Taleban.

"Eles disseram que estavam construindo um seminário", disse a irmã, aparentemente se desculpando. "Não sabíamos que eles fariam isso conosco."

Para as mulheres, a dinâmica é diferente.

Em muitas famílias tradicionais, elas não podem se misturar com homens que não sejam familiares próximos, uma regra que agora precisa de feitos acrobáticos para ser cumprida e que pode deixar os anfitriões furiosos, tornando-os estranhos em suas próprias casas. Eles são da etnia pashtun, famosa por sua hospitalidade, mas a tradição tem sido estendida ao limite.

"Achei que eles morariam conosco por uma semana, mas já faz um mês", disse Noman Ashraf, professor cuja mãe e irmã mudaram para a casa de um parente para abrir espaço para os 16 refugiados de Swat, principalmente mulheres e crianças.

Todos os detalhes de sua rotina diária mudaram. Ele não pode entrar na cozinha para tomar chá de manhã porque as mulheres estão lá. Ele não coloca seu despertador para a oração da manhã para não acordar os cinco homens que dormem ao seu lado. As crianças - pelo menos seis - fazem bagunça pela casa, escondendo pentes e rolos de fita adesiva, e pedindo para assistir televisão no quarto de Ashraf bem na hora que ele começa a corrigir as provas.

"É um tipo de hospitalidade", diz ele. "Não posso dizer não para eles."

Mas acrescentou: "Não há palavras para explicar o tanto que estou sofrendo."

Tímido para pedir às novas mulheres para lavar suas roupas sujas, ele as envia para sua mãe e irmã no vilarejo onde estão, a cerca de uma hora dali. Na semana passada, a água acabou porque as mulheres esqueceram de ligar a bomba, deixando Ashraf totalmente ensaboado e tremendo de raiva.

"Isso também poderia ter acontecido com a minha família", diz ele. "É um teste. Se eu não for paciente, Deus pode perceber."

Irfan Ashraf contribuiu com reportagem

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host