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23/06/2009

Avanços tecnológicos desafiam esforços de censura no Irã

The New York Times
Brian Stelter e Brad Stone
Logo após Neda Agha-Soltan ter sangrado até a morte no pavimento em Teerã, o homem cujo vídeo de 40 segundos da morte dela, que circulou por todo o mundo, fez um cálculo sério em meio ao que se transformou em um jogo de gato e rato para driblar os censores do Irã. Ele sabia que o governo estava bloqueando sites como o YouTube e o Facebook. Tentar enviar o vídeo por ali poderia expô-lo e à sua família.

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Em vez disso, ele enviou por e-mail o vídeo de 2 megabytes para um amigo próximo, que rapidamente o encaminhou para a "Voz da América", para o jornal "The Guardian" em Londres e cinco amigos online na Europa, com uma mensagem que dizia: "Por favor, permitam que o mundo saiba". Foi um desses amigos, um iraniano que vive na Holanda, que o postou no Facebook, chorando enquanto o fazia, como ele lembrou.

Cópias do vídeo, assim como um mais breve de outra testemunha, se espalharam quase que instantaneamente no YouTube e foram exibidos em questão de horas pela rede de TV "CNN". Apesar do esforço prolongado por parte do governo iraniano para manter fora da mídia os eventos violentos que estão transcorrendo nas ruas de lá, Agha-Soltan foi transformada na Internet de uma vítima sem nome a um ícone do movimento de protesto iraniano.

Houve um tempo em que os regimes autoritários podiam encobrir os eventos em seus países simplesmente interrompendo as linhas telefônicas de longa distância e restringindo alguns poucos estrangeiros. Mas esta é a nova era da censura do século 21, um mundo onde câmeras de celulares, contas do Twitter e todos os recursos da Internet mudaram o antigo cálculo de quanto poder os governos realmente detêm para remover suas nações dos olhos do mundo e dificultar para que seu próprio povo se reuna, discorde e rebele.

As tentativas às vezes fracassadas do Irã de lidar com esta nova realidade estão fornecendo um laboratório para o que pode e não pode ser feito nesta nova era de mídia - e fornecendo lições para outros governos, que observam com interesse calculado de longe, a respeito do que podem escapar impunes ou não caso seus cidadãos tomem as ruas.

Uma primeira lição é que é mais fácil para as autoridades iranianas limitar imagens e informação dentro de seu próprio país do que impedi-las de se espalharem rapidamente no exterior. Apesar do Irã ter restringido severamente o acesso à Internet, uma rede mundial livre de simpatizantes se ergueu para ajudar a manter os ativistas e cineastas espontâneos conectados.

O caráter difuso da Internet torna a censura "uma tarefa muito mais complicada", disse John Palfrey, um co-diretor do Centro Berkman para Internet e Sociedade de Harvard.

O Centro Berkman estima que cerca de três dúzias de governos -tão díspares quanto China, Cuba e Uzbequistão- controlam amplamente o acesso de seus cidadãos à Internet. Dentre esses, o Irã é um dos mais agressivos. Palfrey disse que a tendência durante esta década tem sido de mais, e não menos, censura. "É quase impossível para o censor vencer em um mundo de Internet, mas eles estão endurecendo a luta", ele disse.

Desde o advento da era digital, governos e rebeldes têm duelado em torno das tentativas de censurar as comunicações. Mensagens de texto foram usadas para mobilizar as pessoas na revolta popular política na Ucrânia, em 2004, e para ameaçar ativistas em Belarus, em 2006. Quando Mianmar buscou silenciar os manifestantes em 2007, ele desligou o país da rede de Internet por seis semanas. No início deste mês, a China bloqueou sites como o YouTube no 20º aniversário do massacre da Praça Tiananmen.

No Irã, a censura tem sido mais sofisticada, promovendo um ciberduelo extraordinário. Às vezes parece que as comunicações dentro do país estão passando por uma peneira, enquanto o governo desacelera o acesso à Internet e usa a mais recente tecnologia de espionagem para localizar os oponentes. Mas pelo menos de modo limitado, os usuários ainda são capazes de tweetar e transmitir vídeos uns aos outros e aos espectadores de todo o mundo.

Devido à determinação desses usuários, centenas de vídeos amadores de Teerã e outras cidades estão sendo postados no YouTube nos últimos dias, fornecendo às emissoras de televisão horas de vídeos dos protestos -apesar de não verificados.

A Internet "certamente quebrou 30 anos de controle do Estado sobre o que é visto ou não, o que visível e o que é invisível", disse Navtej Dhillon, um analista da Instituição Brookings.

Mas tirar fotos é um ato cada vez mais perigoso no Irã. A polícia em Teerã investiu contra cidadãos que tentavam filmar perto de um memorial a Agha-Soltan na segunda-feira.

Ameaçar pessoas que possuem câmeras é apenas o mais recente de uma série de passos adotados pelas autoridades. Em 12 de junho, o dia da eleição presidencial contestada que provocou os protestos, o governo interrompeu sumariamente todos os serviços de mensagem de texto no país - uma importante ferramenta que os adversários do governo usavam para manter contato - tornando novas ferramentas como o Twitter e técnicas antigas como o boca a boca mais importantes para a organização.

Nos dias que se seguiram, o Irã fechou um pouco mais a torneira, apesar de não totalmente. Mesmo antes da eleição, o país era conhecido por dispor de um dos sistemas de filtragem de Internet mais sofisticados do mundo, com amplos bloqueios a sites específicos. Segundo a imprensa em abril, parte da tecnologia de monitoramento foi fornecida pela Nokia Siemens Networks, um joint venture entre a Nokia, a fabricante finlandesa de celulares, e a Siemens, a gigante alemã de tecnologia.

No dia seguinte ao da eleição, a provedora estatal de telecomunicações do Irã desativou completamente a Internet por mais de uma hora, segundo a Renesys, uma empresa de monitoramento da Internet. O acesso foi parcialmente restaurado na segunda-feira, após a eleição. O YouTube informou que o tráfego no site oriundo do Irã tinha caído cerca de 90% na semana passada, indicando que a maioria das conexões -mas não todas- foi impedida ou desacelerada. O Facebook disse que o tráfego do Irã caiu em mais da metade desde a eleição.

Seja por motivos políticos, sociais ou financeiros, o Irã tem hesitado em interromper totalmente seu acesso esterilizado à Internet. Alguns argumentam que uma interrupção completa prejudicaria os negócios.

Ainda assim, as conexões instáveis de Internet e as ameaças do governo impuseram uma espécie de autocensura a parte da população, uma que também é evidente em outros países com regimes autoritários, disse Palfrey. Alguns iranianos encontraram formas de driblar o sistema, contando em parte com o apoio de pessoas de outras partes do mundo, que estão oferecendo seus computadores como chamados servidores proxy, que são refúgios digitais que podem ser usados para tornar anônimas as conexões de Internet, para que possam ver sites bloqueados. Tor, uma ferramenta dirigida por voluntários para mascarar o tráfego de Internet ao alternar conexões de três computadores diferentes, disse que o tráfego oriundo do Irã ao longo da semana aumentou dez vezes.

Apesar da repressão, os vídeos e tweets indicam para muitos que ferramentas de Internet amplamente distribuídas -e o espírito de pessoas jovens, com interesse por tecnologia- não podem ser totalmente reprimidas por um governo autoritário.

"Não dá para pegar a Internet e tentar trancá-la em uma caixinha em seu país, como a China continuamente tenta fazer", disse Richard Stiennon, fundador da IT-Harvest, uma empresa de pesquisa de segurança na Internet. "Atualmente há formas demais de encontrar caminhos para contornar os bloqueios. Eles teriam que suspender toda a Internet ou construir sua própria rede."

Isso pode não fantasioso demais. Especialistas dizem que a China está em uma categoria própria em filtragem. Ethan Zuckerman, um colega de Palfrey no Centro Berkman, disse que a China tem "endurecido na censura" aos seus cidadãos ao construir seus próprios sites de Internet e ferramentas. Recentemente, ela passou a exigir que o software de filtragem chamado Green Dam viesse instalado em todos os computadores vendidos no país, provocando uma queixa por parte do governo americano e provavelmente dando início a mais outra rodada de gato e rato.


Reportagem de Brian Stelter, em Nova York, e Brad Stone, em San Francisco. Reportagem adicional de Michael Slackman, no Cairo, Steven Lee Myers, em Bagdá, Noam Cohen, em Nova York, e um funcionário do "The New York Times" em Teerã.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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