UOL Notícias Internacional
 

23/06/2009

Cartéis do narcotráfico recrutam adolescentes americanos para cometerem assassinatos

The New York Times
James C. Mc Kinley Jr.
Em Laredo, Texas (EUA)
Quando finalmente foi preso, Rosalio Reta disse aos detetives que experimentava uma sensação intensa todas às vezes que matava alguém. Segundo ele, era como ser o Super-Homem ou James Bond.

"Eu gosto do que faço", afirmou Reta em uma confissão à polícia que foi registrada em vídeo. "Não nego isso".

Os policiais dizem que Reta tinha 13 anos de idade quando foi recrutado pelos Zetas, os infames assassinos do Cartel do Golfo. Ele era um dos integrantes de um grupo de adolescentes norte-americanos das ruas pobres de Laredo que foram atraídos para a guerra do narcotráfico do outro lado do rio, no México, devido às promessas de bons pagamentos, carros caros e mulheres sexys.

Após um breve aprendizado, os jovens foram morar em uma casa barata no Texas, onde estavam disponíveis para matar sempre que recebessem uma ordem. O Cartel do Golfo entrou em guerra com o Cartel Sinaloa pelo controle do corredor formado pela Interstate 35, a autoestrada no sentido norte-sul que liga Laredo a Dallas e a outros locais, e que, segundo os policiais, é uma das artérias mais importantes para o tráfico de drogas na América.

Os jovens pagaram um preço alto por isso. Jesus Gonzalez III foi espancado e esfaqueado até a morte em uma prisão mexicana aos 23 anos de idade. Reta, atualmente com 19 anos, e o seu amigo de infância Gabriel Cardona, 22, estão cumprindo prisão perpétua em penitenciárias dos Estados Unidos.

Outros jovens norte-americanos que integravam os seus círculos de amizade, e que, segundo a polícia, trabalhavam para os Zetas, foram parar na prisão, estão escondidos ou desapareceram definitivamente, como costuma ocorrer com as pessoas envolvidas com o narcotráfico mexicano.

Muitos norteamericano veem o Rio Grande como a divisa entre o México, uma terra corrupta na qual os cartéis do narcotráfico muitas vezes parecem mandar, e os Estados Unidos, uma nação de lei e ordem, onde as autoridades procuram suprimir as quadrilhas criminosas.

Mas a realidade da fronteira é bem mais complexa. Os cartéis mexicanos de drogas recrutam jovens de ambos os países e operam as suas quadrilhas de tráfico e pistolagem dos dois lados da fronteira, embora os métodos de ação utilizados em cada um dos países seja um pouco diferente.

Essa complexidade refletiu-se nas curtas, mas sangrentas, carreiras de Reta, Gonzalez e Cardona, que estão envolvidos em crimes cometidos em ambos os países, de acordo com transcrições dos julgamentos, documentos do tribunal e entrevistas com detetives e familiares.

Embora tivessem trabalhado como pistoleiros em 2005 e 2006, os três norte-americanos moravam em uma casa alugada pelos seus patrões na Rua Hibiscus, em Laredo, segundo testemunhas do julgamento de Reta. Uma outra equipe de três assassinos, todos do México, também instalou-se lá, aguardando ordens.

O governo mexicano tem tentado reprimir os cartéis de drogas, em um esforço que deixou mais de 10 mil mexicanos mortos nos últimos 18 meses. Algumas mortes são o resultado de tiroteios entre os cartéis e a polícia, nos quais os dois lados atuam fortemente armados. Mas os assassinatos de traficantes de drogas envolvidos em guerras de quadrilhas e de policiais e soldados do exército que atrapalham os criminosos - o tipo de serviço feito por Reta, Gonzalez e Cardona - também resultaram na morte de milhares de pessoas.

As duas equipes de assassinos recebiam ordens de Lucio Quintero, ou El Viejon, um dos chefes dos Zetas do outro lado do rio. Eles receberam US$ 500 por semana de adiantamento e de US$ 10 mil a US$ 50 mil por cada assassinato. Além disso, o indivíduo que efetuava os disparos recebia dois quilogramas de cocaína.

O detetive Roberto A. Garcia Jr., do Departamento de Polícia de Laredo, diz que todos trabalhavam para Miguel Trevino, o líder dos Zetas em Nuevo Laredo, a cidade mexicana vizinha a Laredo, no Texas. O apelido de Trevino é "El Cuarenta" (muitos membros dos Zetas identificam-se por um número).

Além do adiantamento, os assassinos também receberam presentes. Em determinado momento, Reta ganhou um automóvel Mercedes novo no valor de US$ 70 mil por um trabalho bem feito.

Familiares descrevem como os jovens frequentavam festas organizadas pelos chefões do cartel. Para manter o moral alto, os líderes do narcotráfico forneciam automóveis, armas e até mesmo encontros com mulheres atraentes, dizem os familiares, pedindo que os seus nomes não sejam revelados.

A maioria dos jovens norte-americanos foi recrutada na discoteca The Eclipse, na praça principal de Nuevo Laredo, próxima à extremidade de uma das duas pontes que conectam as duas cidades. Trata-se de um estabelecimento escuro no qual os adolescentes bebem, dançam e paqueram tendo ao fundo o ribombar da música de estilo reggaeton. Mas os membros do cartel também estão à espreita na boate, procurando possíveis recrutas.

"Os cartéis seduzem os jovens", diz Garcia, que, com o seu parceiro do Departamento de Polícia de Laredo, Carlons Adan, desbaratou a quadrilha. "Eles usam esse poder, o dinheiro, os carros, o dinheiro fácil. E esses garotos têm uma crença romântica em que viverão para sempre". Garcia descreve Cardona como sendo o líder da célula norte-americana de assassinos. Ele é um homem inteligente e ousado, que orquestrou em Laredo o assassinato de pelo menos cinco indivíduos vinculados ao cartel Sinaloa.

Em uma negociação com a promotoria, Cardona acabou confessando a culpa pelo sequestro de dois adolescentes norte-americanos - um dos quais tinha vínculos com uma gangue de traficantes - em março de 2006 em um clube noturno mexicano. Ele os levou a uma casa pertencente ao cartel e matou-os com facas e uma garrafa quebrada. Os investigadores contam que ele coletou o sangue das vítimas em um copo e fez um brinde a La Santa Muerte, uma personificação da morte que é reverenciada por alguns mexicanos. Em março, um juiz federal condenou Cardona à prisão perpétua.

A mãe dele, Gabriela Maldonado, que trabalha como enfermeira em residências, diz que Cardona cresceu com um pai alcoólatra que maltratava o filho. Porém, ela diz que ele saiu-se bem na escola até a oitava série, quando o pai abandonou a família.

A seguir Cardona passou a matar aulas e a andar com usuários de drogas na Rua Lincoln. Em breve ele foi mandado para uma prisão para menores por agressão qualificada, e depois disso saiu de casa. Segundo a mãe, da noite para o dia ele pareceu ter ganho muito dinheiro e apareceu com vários carros diferentes. No início ele dizia à mãe que era "um soldado", e mais tarde contou que tornara-se "um comandante".

"Meu filho era tão inteligente - não sei o que aconteceu com ele", lamenta a mãe. "Quando era pequeno ele sempre dizia que queria ser advogado".

Se Cardona era o cérebro do grupo, Reta era o elemento ansioso para tornar-se assassino profissional, diz Garcia. Em julho de 2006, Reta disse aos detetives em uma confissão gravada em vídeo que participou de pelo menos 30 assassinatos no México, uma declaração que as autoridades daquele país não são capazes de confirmar.

Reta disse a Garcia que tinha 13 anos de idade quando cometeu o primeiro assassinato. Ele afirmou que lhe pediram para provar a sua lealdade cometendo o assassinato na frente de Trevino. Reta contou ao detetive que usou uma pistola 38 Super para atirar no homem que estava imobilizado em uma cadeira em uma casa da quadrilha no Estado de Tamaulipas.

Reta disse que, depois disse, os assassinatos viraram um vício, e ele comparou a sensação de matar àquela que uma criança pequena sente ao ganhar um doce. "Havia outros para fazer esse tipo de serviço, mas eu me apresentava como voluntário", disse Reta em uma entrevista gravada pela polícia. "Era como um jogo de James Bond".

"Qualquer um é capaz de fazer isso, mas nem todo mundo quer", acrescentou ele. "Alguns têm a mente fraca e não conseguem carregar esse peso na consciência. Mas outros matam e depois dormem tão tranquilamente como peixes".

Reta disse também à polícia que participou por seis meses de um campo de treinamento no México, onde aprendeu a atirar com fuzis de assalto e a travar combates com as mãos desarmadas. Segundo ele, um dos seus instrutores era um mercenário israelense. Reta também se orgulha da sua pontaria.

"Se eu não conseguir acertar a testa de uma pessoa a longa distância, eu me ajoelho na frente dela e encosto a minha testa no cano da arma dela. Depois eu olho nos olhos dela enquanto ela me mata", gabou-se ele na polícia.

Não mais um bom garoto

Os familiares dizem que Reta foi criado com nove irmãos e irmãs. Eles moravam em uma pequena casa de madeira, construída sobre blocos de concreto, em uma área sem grama. O pai dele trabalhava na construção civil. A mãe era cabeleireira. Até os 12 anos de idade ele foi um garoto bem comportado, que respeitava os mais velhos, saía-se relativamente bem na escola e passava a maior parte das tardes jogando bola em um parque próximo.

Mas a puberdade o modificou. Reta fugiu de casa, e morou durante algum tempo na casa de uma namorada. Ele também começou a ter problemas com a lei. Reta foi preso por posse de maconha e passou um ano em uma prisão juvenil por ter disparado uma arma em público. Ele também passou a sentir fascinação por comandos armados e sonhava em entrar para os Seals, uma tropa de elite da marinha dos Estados Unidos.

Nas frequentes viagens ao México, ele acabou envolvendo-se com os Zetas, disse um familiar, que falou sob condição de anonimato, por temer uma retaliação dos traficantes. Nas viagens de volta para casa, Reta descrevia assassinatos que tinha presenciado no México, e dos quais, em alguns casos havia participado. "Ele parecia entusiasmado ao falar sobre todas essas coisas", disse o membro da família.

Atualmente Reta mora em uma cela lotada da Unidade Robert, uma prisão estadual em Abilene, no Texas. Deprimido por ter sido condenado a 70 anos de prisão por dois assassinatos cometidos em Laredo, ele pagou um outro prisioneiro para tatuar formas de chamas e chifres na sua face, o que lhe deu uma aparência demoníaca.

Enquanto fala, a sua expressão modifica-se constantemente, da frieza de um criminoso com olhos sem emoção para a risada estranhamente inocente de um garoto de 19 anos para o qual tudo é fonte de diversão. A voz dele é suave e melódica, mesmo quando as suas palavras são ameaçadoras.

Reta não quis fazer comentários sobre a sua carreira de assassino no México, embora não tenha nem negado nem retirado as declarações anteriores que prestou à polícia de Laredo. Ele disse ser inocente em um dos dois assassinatos pelos quais foi condenado nos Estados Unidos, e previu que será absolvido na apelação. "Nem tudo que dizem sobre mim é verdade", afirma Reta.

Ao falar sobre a forma como foi criado, Reta disse que para ele e os seus amigos, que cresceram em barracos, os traficantes de drogas eram heróis. Os municípios mais pobres dos Estados Unidos ficam ao longo do Rio Grande, e Reta lembra-se de ter roubado balas de goma em uma loja de doces com Cardona quando era criança.

"Sabe, aqui as crianças quando são pequenas dizem que quando crescerem querem ser bombeiros", diz Reta. "Mas lá elas dizem que querem ser Zetas quando forem adultas. É o dinheiro, os carros, as casas e as garotas. Mas isso não dura a vida toda. Um dia acaba".


Um assassinato mal feito

Não se sabe de quantos assassinatos precisamente Reta participou no México. As autoridades mexicanas o prenderam sob a acusação de ser um dos quatro homens, liderados pelo ex-comandante da polícia municipal de Nuevo Laredo, que em maio de 2006 atacaram o Bar El Punto Vivo, em Monterrey, com granadas e fuzis, matando quatro pessoas e ferindo 25.

Temendo que uma quadrilha rival o matasse em uma cadeia mexicana, Reta ligou para Garcia e para o funcionário da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), Chris Diaz, pouco após a sua prisão, e suplicou que fosse extraditado para os Estados Unidos, onde era procurado pelo assassinato de Noe Flores em janeiro de 2006.

Embora alegue não ter atirado em Flores, ele admitiu para a polícia que dirigiu o carro que transportou os assassinos. Ele afirma que foi Cardona que atirou, depois que Gonzalez ficou apreensivo, sentou-se no banco de trás do carro e presenciou o assassinato na área da frente de uma casa.

Essa confissão acabou sendo excluída do conjunto de provas contra ele, o que fez com que houvesse um segundo julgamento, no qual ele foi condenado com base em outras provas, incluindo as impressões digitais encontradas em um maço de cigarros que estava no carro. O advogado dele recorreu da sentença.

Segundo testemunhas no segundo julgamento de Reta, o grupo de pistoleiros não realizou a execução conforme o planejado. Eles pretendiam matar Miguel Flores, mas em vez disso mataram o irmão deste. Uma mulher que trabalhava para o cartel viu os irmãos Flores em um bar de Laredo e ligou para Trevino, que por sua vez telefonou para os assassinos.

Segundo as autoridades, Flores não foi a primeira vítima dos três assassinos em solo norte-americano. De acordo com os promotores, o mesmo grupo matou a tiros Moises Garcia, um famoso traficantes de drogas e membro da gangue de prisão Máfia Mexicana, em frente ao restaurante Torta-Mex, em 8 de dezembro de 2005, em frente à mulher e ao filho dele. Em março, Reta confessou ter sido o pistoleiro nesse assassinato e foi condenado a 30 anos de prisão.

Garcia disse que o telefonema feito por Reta de uma prisão mexicana não foi o primeiro que recebeu. Enquanto investigava o assassinato de Flores, Garcia usou as evidências encontradas no carro usado pelos assassinos para chegar até um tatuador que poderia identificar Reta, Cardona e Garcia. Amedrontado, o tatuador entregou os adolescentes, que fugiram para Nuevo Laredo.

A seguir Reta ligou para o telefone celular de Garcia. Ele obteve o número no cartão pessoal que o detetive deixou com o tatuador.

"Ele me disse: 'É melhor você parar de investigar esses assassinatos'", recorda o detetive Garcia. "Ele ameaçou a mim e a minha família".

Tradução: UOL

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