UOL Notícias Internacional
 

23/06/2009

Havaianos encaram ameaça norte-coreana com indiferença

The New York Times
Randal C. Archibold
Em Honolulu
O Havaí há muito vive com a ameaça de aniquilação seja por tsunami, vulcão ou invasor estrangeiro.

Agora, o governo Obama diz que a Coreia do Norte pode lançar um míssil balístico na direção do Estado -possivelmente perto da celebração do dia 4 de julho, de acordo com a mídia japonesa- levando os militares americanos a reforçarem as defesas no local.

Já estão instalados interceptores de mísseis, segundo o Departamento de Defesa, e os havaianos viram há poucos dias um radar gigantesco, conhecido como bola de golfe, ser levado da base onde normalmente fica ancorado para o mar.

Entretanto, os moradores não parecem alarmados. A maior preocupação de Gerald Aikau, por exemplo, parece ser que seu polvo, pescado com uma lança, está cozido demais. "O que fazer?", disse Aikau, 34, pintor comercial enquanto grelhava orgulhosamente sua presa em um parque na praia. "Alguma hora você vai ter que ir, seja com uma onda, com um míssil ou com seu vizinho fazendo você levar um tombo."

Vulnerabilidade e certo fatalismo fazem parte da vida deste arquipélago, a 4.000 km do continente e, como muitos residentes parecem ter memorizado desde que o governo elevou o nível de alerta na semana passada, a 7.200 da Coreia do Norte.

As pessoas se confortam com a forte presença militar permanente fornecida por várias bases aqui, mas também se perguntam se isso não torna o Estado ainda mais atraente como alvo.

Em uma entrevista na segunda-feira (22/06) ao "Early Show" da CBS, o presidente Barack Obama, que nasceu e passou grande parte de sua juventude aqui, disse: "Nosso exército está plenamente preparado para qualquer contingência", em relação à Coreia do Norte.

O secretário de defesa Robert M. Gates anunciou na quinta-feira que os militares tinham enviado interceptores de mísseis de terra e um radar com base no mar para ajudar a defletir qualquer míssil de longo alcance da Coreia do Norte. Ligações para a governadora Linda Lingle, republicana, foram transferidas para o general Robert G. F. Lee, diretor do Departamento de Defesa do Havaí, que sugeriu que a ameaça era sobretudo um teatro da Coreia do Norte. Ele questionou se seus mísseis tinham a capacidade tecnológica de ir muito longe, mas ainda assim disse que o Estado estava pronto para qualquer ação hostil.

"Nossos trunfos militares devem nos proteger", disse Lee, cujas obrigações incluem a defesa dos civis. "Como todos os outros Estados, estamos preparados para situações que vão desde desastres naturais até terrorismo". Ele disse que as sirenes para desastres naturais estavam funcionando e que os habitantes eram aconselhados a manter um estoque de três dias de alimentos, água, remédios e outros itens essenciais.

"Aqui, estamos sozinhos; temos que estar um pouco mais preparados, caso a ajuda não chegue rapidamente do continente", disse ele.

É claro que o fantasma de Pearl Harbor ainda é forte aqui, assim como as manobras da Guerra Fria que ocorreram pela costa, inclusive a perda misteriosa de um míssil balístico submarino soviético 1.200 km a nordeste de Oahu em 1968.

"Somos os primeiros atingidos a partir da Ásia", disse o deputado estadual democrata Joseph M. Souki, que ainda se lembra da ansiedade que dominou seu bairro em Maui quando Pearl Harbor foi bombardeado. "Não é como estar em Iowa". Ainda assim, disse ele, "provavelmente nada vai acontecer".

"O Havaí é como um peão em um jogo de xadrez", acrescentou.

O Estado não está em boa situação para lidar com algo que se aproxima de uma calamidade.

A recessão tem sido culpada por uma queda de quase 11% no número de turistas no ano passado comparado com o ano anterior. O índice de desemprego no mês de maio com ajuste sazonal alcançou 7,4%, subindo de 6, 9% em abril, o mais alto em três décadas.

Os turistas continuam com a vida normal, fazendo aulas de surfe, passeando pela praia e refletindo no memorial do Arizona USS, cujo parque inclui uma mostra de mísseis submarinos antigos Polaris.

"Vamos enviar um desses para o céu", sugeriu Clifton Wannaker, 45, contador de Dakota do Sul quando soube da ameaça norte-coreana. Ele bateu no míssil para ver sua solidez.

Na praia, Steve Brecheen, 54, farmacêutico da cidade de Oklahoma, pareceu um pouco mais ansioso.

"A Coreia do Norte parece ser o governo mais instável até agora a ameaçar os EUA", disse ele.

Ele o apontou para o memorial que fica ao lado dos restos do navio afundado pelos japoneses no ataque de Pearl Harbor.

"Em 1941, algumas pessoas não achavam que os japoneses fossem uma extrema ameaça e tiveram que mudar de ideia rapidinho", disse ele.

Entre os havaianos, contudo, o ceticismo é misturado com uma irritação e até raiva que seu Estado, hipoteticamente ao menos, poderia se território de testes.

"Acho que seria estúpido de fazer esse teste. Os EUA devem ir lá chacoalhar eles", disse o motorista de caminhão Misioki Tauiliili, 39, absorvendo a cena plácida em uma praia perto de Waikiki.

Mark N. Brown, 49, artista que pintava ali perto, foi menos belicoso. Ele disse que se confortava com as medidas tomadas pelos militares, mas se preocupava que um ato de agressão da Coreia do Norte pudesse levar a uma guerra.

Entretanto, com um sorriso irônico, acrescentou que uma ilha vizinha muito menos populosa, mas um pouco mais próxima da Coreia do Norte, provavelmente levaria o tiro. "Atingiria Kauai", disse ele. "Estamos em Oahu."

Mele Connor, havaiana que fazia compras com turistas do continente em uma loja de roupas em Waikiki, riu da ameaça. "Depois da Coreia do Norte será outro", disse ela. Eles sabem que Obama é daqui, então querem alguma coisa. Todo mundo quer alguma coisa de nossas belas ilhotas."

Tradução: Deborah Weinberg

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