UOL Notícias Internacional
 

23/06/2009

Morte de mulher iraniana provoca pesar e ultraje

The New York Times
Nazila Fathi
Em Teerã
Estava quente no carro, então a jovem mulher e seu professor de canto saíram para respirar o ar fresco em uma tranquila travessa não distante dos protestos antigoverno aos quais foram participar. Um tiro foi disparado e a mulher, Neda Agha-Soltan, caiu no chão. "Ele me queimou", ela disse antes de morrer.

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O vídeo sangrento de sua morte no sábado - que circulou no Irã e ao redor do mundo - transformou Agha-Soltan, 26 anos, cujos parentes disseram que não era politizada, em um símbolo instantâneo do movimento antigoverno. Sua morte está provocando um grande ultraje em uma sociedade embebida na cultura do martírio - apesar da palavra em si ter caído em descrédito, porque o governo tem apontado para as mortes de soldados iranianos como mártires na guerra Irã-Iraque para justificar as medidas repressivas.

O destino de Agha-Soltan repercute particularmente entre as mulheres, que estão na vanguarda de muitos dos protestos que estão ocorrendo no Irã.

"Eu temo que todos os sacrifícios que fizemos na última semana, todo o sangue que foi derramado, tenha sido em vão", disse uma mulher na segunda-feira, que veio lamentar Agha-Soltan do lado externo da mesquita Niloofar daqui. "Eu choro toda vez que vejo o rosto de Neda na TV."

Vídeo publicado na internet mostra morte da jovem iraniana durante os protestos

  • ATENÇÃO: o vídeo contém cenas fortes.
    O UOL Notícias alerta que não é possível verificar a autenticidade das imagens

Os sites de oposição e canais de televisão, que os iranianos assistem por antenas parabólicas, exibem o vídeo repetidas vezes, mostrando o sangue jorrando do corpo de Agha-Soltan enquanto ela morre. Na noite de segunda-feira, já havia 6.860 resultados de busca por ela no site do Google em persa. Alguns sites sugerem a mudança do nome da Rua Kargar, onde ela foi morta, para Rua Neda.

Mehdi Karroubi, um candidato de oposição à presidência, a chamou de mártir em seu site. "Uma jovem, que não empunhava arma em suas mãos macias, nem granada em seu bolso, se tornou vítima de capangas que são apoiados por um horrível aparato de inteligência."

Apenas fragmentos de informação são conhecidos sobre Agha-Soltan. Seus amigos e parentes estão com medo de falar, e o governo tem reprimido as tentativas públicas de lamentá-la. Ela estudou filosofia e tinha aulas secretas de canto -as mulheres são proibidas de cantar publicamente no Irã. Seu nome significa voz em persa, e muitos agora a chamam de voz do Irã.

Seu noivo, Caspian Makan, contribuiu para um verbete da Wikipedia em persa. Ele disse que ela nunca apoiou algum candidato presidencial em particular. "Ela queria liberdade, liberdade para todos", diz o verbete.

Seu professor de canto, Hamid Panahi, ofereceu um vislumbre dos últimos momentos dela.

Ele disse que ambos decidiram ir para casa após se verem pegos em um confronto entre forças empunhando porretes no centro de Teerã. Eles desceram do carro. "Nós ouvimos um disparo e a bala atingiu Neda bem no peito", ele disse. A bala veio do telhado do topo de uma residência do outro lado da rua, talvez disparada por um atirador, ele disse. Em uma postagem no Facebook acompanhando o vídeo, um médico anônimo disse que tentou salvar a vida dela, mas que fracassou porque a bala atingiu o coração.

"Ela era cheia de vida", disse um parente que falou sob a condição de anonimato. "Ela cantava música pop."

O parente disse que o governo ordenou que a família enterrasse Agha-Soltan imediatamente e proibiu os familiares de realizarem o serviço fúnebre.

As forças paramilitares foram rápidas em impedir memoriais por toda parte. Mais de uma dúzia de homens barbados em motocicletas dispersou quase 10 pessoas reunidas do lado de fora da mesquita de Niloofar, na segunda-feira. As autoridades ordenaram as mesquitas a não realizarem serviços fúnebres para quaisquer vítimas das manifestações dos últimos dias.

"Vamos, sumam", eles gritavam, enquanto a polícia observava.

Mas um policial, observando a milícia, disse uma oração em voz alta juntamente com a multidão em honra dela: "Que a paz esteja com o profeta e com a família dela".

A família de Agha-Soltan realizou uma cerimônia privada na segunda-feira, na qual afastaram os repórteres e se recusaram a falar. "Eles não estão autorizados a pendurar nem mesmo uma faixa preta", disse um parente.

Os funerais há muito servem como motivo de encontro político, devido ao hábito de uma semana de lamentos e de um grande serviço fúnebre 40 dias após a morte. Na revolução de 1979, esse ciclo gerava uma oferta constante de novos protestos e mortes.

Mas a narrativa da morte também é importante na tradição que cerca a existência da república islâmica. O governo se coloca no papel de Hussein, o neto do Profeta Maomé, morto por um exército muito maior durante as lutas internas do Islã no século 7, fato que deu origem à seita xiita que predomina no Irã.

Dias de profetas e santos supostamente mortos a serviço da fé enchem o calendário de feriados, ocupando cerca de 22 dias do ano. Logo, a simples adulação pública a Agha-Soltan pode criar um símbolo religioso para a oposição e minar o apoio ao governo entre os fiéis, que acreditam que o Islã abomina a morte de civis inocentes.

Um poema que está circulando na internet a vincula explicitamente à morte de outros símbolos do movimento de protesto:

Fique, Neda

Olhe para esta cidade

Para as fundações abaladas dos palácios,

Para a altura dos bordos de Teerã,

Eles nos chamam de "pó", e se assim for

Vamos sujar o ar para o opressor

Não vá, Neda

Ela se tornou o rosto público de um número desconhecido de iranianos que morreram nos protestos. Apesar de a TV estatal informar 10 mortes e a rádio estatal 19, acredita-se que o total seja muito maior. Uma testemunha disse que o corpo de um garoto de 19 anos, que foi morto em Teerã no domingo, foi entregue à família apenas após ela pagar US$ 5 mil.

Para muitos iranianos, entretanto, a morte de uma mulher jovem tem um significado especial. "Nós sabemos que muitas pessoas morreram, mas é muito difícil ver uma mulher, tão jovem e inocente, morrer dessa forma", disse um homem de 41 anos na segunda-feira, que disse se chamar Alireza.

Mulheres se transformaram em alvos em particular após o presidente Mahmoud Ahmadinejad ter começado a impor rigidamente restrições antes abrandadas. Milhares de mulheres foram presas ou intimidadas por não aderirem precisamente ao código de vestuário islâmico nas ruas.

Mir Hussein Moussavi, o principal candidato de oposição, fez campanha juntamente com sua esposa, Zahra Rahnavard, e outras mulheres iranianas proeminentes passaram a apoiá-lo, já que ele prometia melhorar a situação das mulheres.

Uma mulher chamada Hana postou um comentário no site de Karroubi: "Eu estou viva, mas minha irmã está morta. Ela queria que o vento soprasse em seus cabelos; ela queria ser livre; ela queria poder erguer sua cabeça e dizer: eu sou iraniana. Minha irmã morreu porque não resta mais vida; minha irmã morreu porque não há um fim à tirania".

Neil MacFarquhar, em Nova York, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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