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24/06/2009

Ataques em Fallujah ameaçam plano americano de retirada do Iraque

The New York Times
Rod Nordland
Em Fallujah (Iraque)
Era de se esperar que Fallujah fosse uma história de sucesso, em vez de um caso que recomenda cautela.

Afinal, no ano passado, esta cidade, um ex-reduto da insurgência, era considerada um dos locais mais seguros do país. Xeques locais sunitas expulsaram o grupo insurgente Al Qaeda na Mesopotâmia e organizaram eleições de sucesso, e engenheiros norte-americanos empenharam-se em implementar um projeto de reconstrução: uma estação de tratamento de esgoto que seria um modelo para os avanços feitos no Iraque na área civil.

Mas uma série de ataques preocupantes começou a irromper neste ano. Um deles em especial, no final de maio, fez com que surgissem preocupações quanto à possibilidade de que as coisas estejam mudando para pior. Em uma estrada militar altamente patrulhada entre um campo de fuzileiros navais e a estação de tratamento de esgoto, uma enorme bomba enterrada explodiu no meio de um comboio de veículos norte-americanos blindados, matando três autoridades proeminentes da área de construção e reduzindo as esperanças de que o caminho para os projetos de paz fique desimpedido.

Com a aproximação do prazo de 30 de junho para a retirada das tropas de combate norte-americanas das cidades e vilas norte-americanas, esse ataque e outros semelhantes são um motivo particular de pessimismo para autoridades que veem em Fallujah um teste para o resto do país. A segurança aqui está tornando-se uma operação exclusivamente iraquiana e, embora as forças armadas dos Estados Unidos digam que o número de ataques continue encorajadoramente baixo, há sinais de que Fallujah poderia mergulhar novamente na violência.

Fallujah tem um significado simbólico enorme tanto para os insurgentes quanto para os norte-americanos. Este foi o local em que foram travadas as únicas batalhas reais da guerra, em 2004, e provavelmente onde ocorreram os mais intensos combates urbanos desde a batalha de Hue, em 1968, no Vietnã.

No verão do ano passado, a Equipe de Reconstrução Provincial da Embaixada dos Estados Unidos jantava ao ar livre em casas de xeques às margens do Rio Eufrates. "Agora, os norte-americanos evitam usar até mesmo a rua principal de Fallujah porque esse lugar tem sido meio problemático recentemente, com a ocorrência de ataques com lança rojões e armas leves", afirma o líder da equipe, Phil French.

Os fuzileiros têm se retirado de cena sistematicamente neste ano na província de Anbar, que inclui Fallujah, e eles sairão definitivamente da área de Fallujah até o mês que vem. Eles só contam com um remanescente das suas forças no Campo Baharia, próximo à cidade, e não fazem mais patrulhas de combate na região.

"Em 2008 o local estava quase que completamente estabilizado", afirma o general Sadoun Taleb, membro da milícia anti-insurgência Awakening, que atualmente atua como polícia na vila de Shihabi, um local próximo de Fallujah que costumava ser problemático. "Em oito meses, nada aconteceu. Mas, nos últimos sete meses, a situação só está ficando pior".

Os comandantes norte-americanos na região contestam essa percepção. "Os fatos e as estatísticas provam que esta cidade está agora muito mais segura do que um ano atrás", diz o coronel Matthew Lopez, comandante dos fuzileiros navais na província oriental de Anbar. Segundo ele, os episódios de violência caíram 20% nos últimos seis meses no leste de Anbar.

Os novos ataques são dirigidos contra as Forças de Segurança do Iraque, e não contra os fuzileiros. "A liderança das Forças de Segurança do Iraque, e especialmente a polícia iraquiana, são muito mais sensíveis a ataques".

"As coisas chamam muito mais atenção quando são raras", acrescenta Lopez.

Mesmo assim, os ataques tem sido desencorajantes - especialmente o assassinato dos três norte-americanos, cujo comboio de 11 veículos esportivos utilitários blindados seguia para o Campo Baharia quando a bomba destruiu um deles.

Cerca de uma semana mais tarde, em 3 de junho, a equipe de reconstrução de Fallujah seguia para uma reunião com autoridades locais na vizinha cidade de Karma, que já foi um reduto da Al Qaeda na Mesopotâmia, o grupo nativo insurgente que autoridades de inteligência norte-americanas afirmam ser liderado por estrangeiros. Um franco-atirador atirou em um dos membros da escolta de fuzileiros, ferindo-o, mas não fatalmente.

E no sábado uma bomba escondida em um carro estacionado perto de Karma explodiu e matou três integrantes de uma patrulha policial iraquiana que passava pelo local.

Na semana passada, o general Tariq al-Youssef, comandante da polícia da província de Anbar, organizou para um repórter do "New York Times" uma visita às ruas de Karma. Mas a caminhada foi cancelada no terceiro quarteirão, e só recomeçou depois que o general ordenou que dezenas de tropas da Força de Segurança Provincial vasculhassem primeiro as ruas e os telhados.

Durante a visita, uma mulher idosa usando uma túnica grande e disforme aproximou-se subitamente do general. "Achei que ela fosse uma suicida com uma bomba", disse ele mais tarde, rindo. A mulher só queria mostrar às tropas as suas mãos cheias de doces, um costume iraquiano.

Grande parte da nova onda de violência não é atribuída à Al Qaeda na Mesopotâmia, e sim a grupos de insurgência de cunho mais local. Entre eles está o Exército Mujahedeen, que assumiu a responsabilidade pela morte das três autoridades norte-americanas, e o Exército Islâmico do Iraque. Ambos os grupos alegam fazer parte da "resistência patriótica", composta apenas por iraquianos.

Em 15 de junho, unidades da polícia iraquiana em Fallujah deram início a uma operação de combate à insurgência sem o apoio dos fuzileiros norte-americanos. Os seus próprios assessores que integram o corpo de fuzileiros não sabiam da operação. Com uma lista de 13 indivíduos suspeitos de serem terroristas para prender, eles revistaram casas no distrito de Jolan, onde a insurgência já foi forte. Eles encontraram dois dos indivíduos procurados nas primeiras horas daquela que, segundo os policiais, seria uma operação de dez dias de duração. Eles também realizaram buscas aleatórias em casas de Jolan.

"Os norte-americanos costumavam fazer batidas em nossas casas e arrebentar as portas; as pessoas tinham medo deles", diz um morador, Hajji Ali, enquanto a polícia vasculha a sua casa. "Já esses caras são meus irmãos".

O Exército Islâmico passou a distribuir folhetos um mês atrás na área de Fallujah, jurando atacar apenas os "ocupantes", e poupar os civis e as autoridades iraquianas, segundo o coronel Daoud Suleiman Hamad, vice-chefe da força policial em Fallujah. "Eles dizem que se os norte-americanos partirem, não atacarão mais ninguém", afirma Hamad. "Já passamos por isso; a Al Qaeda disse a mesma coisa".

As autoridades policiais iraquianas acreditam que esta situação não é provocada por uma falta de fuzileiros, mas sim pela libertação acelerada de detentos da prisão de Bucca pelos norte-americanos. A prisão será em breve entregue às autoridades iraquianas.

O general David E. Quantock, comandante da Força Tarefa 134 do Exército dos Estados Unidos, que administra unidades de detenção no Iraque, diz que a libertação de prisioneiros não provocou um aumento da violência. "Isso é apenas uma impressão, porque todas as nossas análises demonstraram que a violência não tem nada a ver com esses ex-prisioneiros", diz Quantock.

French, o líder da equipe de reconstrução, afirma: "Neste momento todo mundo está nervoso porque nós estamos em uma fase de transição. A impressão é de que a libertação dos detentos de Bucca e a retirada dos fuzileiros fariam com que a situação piorasse".

"Sinto-me inclinado a dizer que a segurança está pior", diz ele. "Mas será que há realmente mais incidentes? Acho que não. Embora a equipe norte-americana não tenha reduzido as suas atividades na área de Fallujah, estamos atuando discretamente".


Campbell Robertson, em Bagdá, e um funcionário iraquiano do "New York Times", em Fallujah, contribuíram para esta matéria.

Tradução: UOL

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