UOL Notícias Internacional
 

24/06/2009

Documentos que associam a realeza saudita aos terroristas enfrentam barreiras no processo do 11 de Setembro

The New York Times
Eric Lichtblau
Em Washington
Documentos reunidos por advogados para as famílias das vítimas do 11 de Setembro fornecem nova evidência de extenso apoio à Al Qaeda e outros grupos extremistas por membros da família real saudita, mas o material poderá nunca chegar ao tribunal devido a obstáculos legais e diplomáticos.

O caso colocou o governo Obama no meio de uma disputa política e legal, com o Departamento de Justiça apoiando os sauditas na Justiça no mês passado, na tentativa de matar quaisquer ações legais. Para aumentar a intriga, documentos confidenciais de inteligência norte-americanos relacionados às finanças sauditas foram vazados anonimamente aos advogados das famílias. O Departamento de Justiça ordenou que as cópias dos advogados fossem destruídas e agora deseja impedir que um juiz até mesmo veja o material.

Os sauditas e seus defensores em Washington há muito negam ligações com os terroristas, montando uma campanha agressiva e, até o momento, bem-sucedida para responder às alegações na Justiça Federal, com base na alegação de imunidade diplomática.

Alegações de elos entre os sauditas e o terrorismo há anos são assunto de investigações e debates furiosos. Os críticos dizem que alguns membros da classe governante saudita financiam os grupos terroristas em parte para impedi-los de serem mais ativos em seu próprio país.

Mas as milhares de páginas de documentos antes não revelados, compiladas por advogados das famílias do 11 de Setembro e suas seguradoras, representaram uma visão incomumente detalhada de parte das evidências.

Documentos internos do Departamento do Tesouro, obtidos pelos advogados com base na Lei de Liberdade de Informação, por exemplo, dizem que uma proeminente caridade saudita, a Organização Internacional de Ajuda Islâmica, apoiada em peso por membros da família real saudita, exibia "apoio a organizações terroristas" pelo menos até 2006.

Um autodescrito agente da Al Qaeda na Bósnia disse, em uma entrevista aos advogados da ação, que outra caridade controlada em grande parte por membros da família real, o Alto Comissariado Saudita para Ajuda à Bósnia, fornecia dinheiro e suprimentos para o grupo terrorista nos anos 90 e contratava agentes militantes como ele.

Outra testemunha, no Afeganistão, disse em uma declaração juramentada que, em 1998, ele testemunhou um emissário de um importante príncipe saudita, Turki al-Faisal, entregar um cheque de 1 bilhão de riais sauditas (atualmente cerca de US$ 267 milhões) para um alto líder do Taleban.

E um relatório confidencial de inteligência alemão apresenta uma descrição minuciosa de 10 milhões de dólares em transferências bancárias, com datas e valores em dólares, feitas no início dos anos 90 pelo príncipe Salman bin Abdul Aziz e outros membros da família real saudita para outra caridade, que supostamente estava financiando atividades militantes no Paquistão e na Bósnia.

Os novos documentos, fornecidos ao "The New York Times" pelos advogados, estão entre as várias centenas de milhares de páginas de material investigativo obtido pelas famílias do 11 de Setembro e suas seguradoras, como parte de um processo civil há muito em andamento que visa responsabilizar a Arábia Saudita e sua família real pelo financiamento da Al Qaeda.

Apenas uma fração dos documentos entrou para os autos do processo e grande parte do novo material é desconhecido até mesmo pelos advogados dos sauditas no caso.

Os documentos não fornecem nenhuma "arma fumegante" associando a família real aos eventos de 11 de setembro de 2001. E os elos mais amplos às vezes se apoiam em uma abordagem circunstancial, do tipo ligue os pontos, para associar os príncipes sauditas, caridades do Oriente Médio, transações suspeitas e grupos terroristas.

Os advogados e defensores dos sauditas dizem que os elos são frágeis e exploram estereótipos sobre o terrorismo, e que o país está sendo processado por ser rico e lar de 15 dos 19 sequestradores.

"Ao olhar para toda a evidência que as famílias reuniram, eu não vejo nenhuma evidência de que a Arábia Saudita teve algo a ver com os ataques do 11 de Setembro", disse Michael Kellogg, um advogado de Washington que representa o príncipe Muhammad al-Faisal al-Saud no processo, em uma entrevista.

Ele e outros advogados de defesa disseram que em vez de apoiarem a Al Qaeda, os sauditas eram inimigos juramentados de seu líder, Osama Bin Laden, que foi exilado de seu país em 1996. "É uma grande tragédia o que aconteceu a elas e entendo sua raiva", disse Kellogg sobre as famílias das vítimas. "Elas querem encontrar os responsáveis, mas acho que estão sendo mal servidas por seus advogados ao apresentar alegações sem qualquer mérito contra as pessoas erradas."

A embaixada saudita em Washington se recusou a comentar.

Dois juízes federais e o Tribunal Federal de Apelações do 2º Circuito já decidiram contra as 7.630 pessoas representadas no processo, compostas de sobreviventes dos ataques do 11 de Setembro e parentes daqueles que morreram, indeferindo a ação em virtude de que as famílias não podem processar uma nação soberana e seus líderes nos Estados Unidos.

A Suprema Corte deverá decidir nesta semana se acolherá uma apelação, mas as perspectivas das famílias diminuíram no mês passado, quando o Departamento de Justiça ficou ao lado dos sauditas em sua alegação de imunidade e pediu ao tribunal que não acolhesse a apelação.

O Departamento de Justiça disse que uma lei de 1976 sobre imunidade diplomática protege os sauditas de responsabilidade e notou que "consequências potencialmente significativas de relações exteriores" poderiam ocorrer caso fosse autorizado o prosseguimento das ações.

"Casos como este colocam o governo americano em uma posição extremamente difícil, quando precisa apresentar argumentos legais, mesmo quando apoiados na melhor interpretação da lei, contra as vítimas de terrorismo", disse John Bellinger, um ex-advogado do Departamento de Estado que esteve envolvido na ação contra os sauditas.

Altos funcionários do governo Obama realizaram uma reunião fechada na segunda-feira contra os parentes das vítimas do 11 de Setembro, para falar sobre o progresso na repressão ao financiamento dos terroristas. Os funcionários do governo na reunião evitaram as perguntas sobre o processo, segundo os participantes. Mas o funcionário que ajudou a conduzir a reunião, Stuart A. Levey, o subsecretário para inteligência financeira e de terrorismo, tem sido franco em suas críticas aos ricos sauditas, dizendo que ajudaram a financiar o terrorismo.

Mesmo que as famílias do 11 de Setembro conseguissem um julgamento da ação, elas teriam dificuldade em transformar seu novo material em evidência. Alguns provavelmente seriam contestados em virtude de serem boatos irrelevantes ou não corroborados, ou relacionados a sauditas que estavam claramente cobertos pela imunidade da soberania.

E se as famílias conseguissem superar esses obstáculos, duas peças intrigantes de evidência no quebra-cabeça saudita ainda permaneceriam fora dos limites.

Uma é um trecho confidencial de 28 páginas da investigação conjunta do Congresso de 2003 sobre os ataques do 11 de setembro. Acredita-se que o trecho secreto discuta inteligência sobre os elos financeiros sauditas com dois sequestradores, e os próprios sauditas pediram na época que se tornasse público. O presidente George W. Bush se recusou a fazê-lo.

Kristen Breitweiser, uma advogada das famílias do 11 de Setembro cujo marido foi morto no World Trade Center, disse em uma entrevista que durante uma reunião na Casa Branca entre Obama e as famílias das vítimas, em fevereiro, o presidente lhe disse que estava disposto a tornar as páginas públicas.

Mas ela disse que não teve mais notícias da Casa Branca desde então.

A outra evidência que pode não ser admissível é composta de documentos confidenciais, vazados para um dos escritórios de advocacia que representam as famílias, o Motley Rice da Carolina do Sul, que é comandado por Ronald Motley, um renomado advogado que venceu ações lucrativas envolvendo asbesto e tabaco.

Os advogados do escritório disseram que alguém lhes enviou anonimamente 55 documentos contendo material confidencial do governo relacionado ao processo contra os sauditas.

Apesar de ter se recusado a descrever os documentos, Jodi Flowers, uma advogada do Motley Rice, disse estar lutando para que constem nos autos.

"Nós não estaríamos lutando tão arduamente e não teríamos entregado o material ao juiz, se não o considerássemos realmente importante para o caso", ela disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host