UOL Notícias Internacional
 

25/06/2009

Em busca de energia limpa, empresa vai perfurar terreno repleto de falhas geológicas

The New York Times
Em Basel (Suíça)
Há três anos, Markus O. Haering, um ex-homem do petróleo, era um herói nesta cidade de catedrais medievais e intensa paixão ambiental, tudo porque tinha perfurado um buraco com cinco quilômetros de profundidade perto da esquina da Rua Neuhaus e da Travessa Shafer. Ele estava sondando uma vasta fonte de energia limpa e renovável que parecia saída diretamente de um romance de Júlio Verne: o calor no interior do leito rochoso da Terra.

Tudo parecia ir bem - até 8 de dezembro de 2006, quando o projeto provocou um terremoto, sacudindo e danificando prédios, assustando muitos na cidade que, como toda criança em idade escolar daqui sabe, foi devastada exatamente 650 anos antes por um terremoto, que derrubou duas torres da Catedral Muenster, no Rio Reno.

Encerrado às pressas, o projeto de Haering logo foi esquecido por quase todos fora da Suíça. No início desta semana, entretanto, uma nova empresa americana, a AltaRock Energy, começará a usar praticamente o mesmo método para perfurar um terreno repleto de falhas geológicas, em uma área a duas horas de carro ao norte de San Francisco.

Os moradores da região, que abrange os condados de Lake e Sonoma, já protestam contra os muitos terremotos menores provocados por projetos de energia muito menos invasivos geologicamente. Representantes da AltaRock disseram que escolheram aquele ponto em parte devido ao histórico de terremotos pequenos os tranquilizarem de que os riscos eram limitados.

Como o esforço em Basel, o novo projeto explorará a energia geotérmica ao partir rocha sólida a mais de três quilômetros de profundidade para extrair seu calor. A AltaRock, fundada por Susan Petty, uma pesquisadora geotérmica veterana, obteve mais de US$ 36 milhões do Departamento de Energia, várias empresas de capital de risco, incluindo a Kleiner Perkins Caufield & Byers, e do Google. A AltaRock diz que manterá distância de grandes falhas e que pode operar em segurança.

Mas em um relatório sobre o impacto sísmico que a AltaRock foi obrigada a apresentar, a empresa não mencionou que o programa de Basel foi fechado devido ao terremoto que causou. A AltaRock alega não se saber ao certo se o projeto causou o terremoto, apesar dos sismólogos do governo suíço e representantes do projeto de Basel concordarem que foi a causa. A AltaRock também não menciona os milhares de sismos menores induzidos pelo projeto de Basel, que prosseguiram por meses após seu encerramento.

O projeto da Califórnia é o primeiro de dezenas que poderão estar em funcionamento nos Estados Unidos nos próximos anos, movidos pelo esforço para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa e pelo apoio do governo Obama à energia renovável.

O potencial da energia geotérmica como fonte de energia limpa fomentou grandes esperanças, e seus defensores acreditam que ela pode reduzir significativamente a dependência americana de combustíveis fósseis -potencialmente fornecendo cerca de 15% da eletricidade do país até 2030, segundo uma estimativa do Google. O calor da Terra está sempre lá, aguardando para ser explorado, diferente das energias eólica e solar, que são intermitentes e, portanto, mais inconstantes. Segundo um relatório geotérmico de 2007, financiado pelo Departamento de Energia, uma energia geotérmica avançada poderia, na teoria, produzir até 60 mil vezes o uso anual de energia do país. O presidente Barack Obama, em uma coletiva de imprensa na terça-feira, citou a energia geotérmica como parte da "transformação de energia limpa" que o projeto de lei climático, que está tramitando no Congresso, poderá promover.

Dan W. Reicher, um secretário-assistente de Energia do governo Clinton e que atualmente é diretor de mudança climática e energia da divisão de investimento e filantropia do Google, disse que a energia geotérmica tem "o potencial de fornecer grandes quantidades de energia para quase todas as partes do mundo, 24 horas, 7 dias por semana".

As empresas de energia há muito produzem quantidades limitadas de energia geotérmica, ao explorar leitos rasos de vapor, frequentemente sob gêiseres ou fumarolas. Mesmo estes projetos podem induzir terremotos, apesar da maioria ser pequeno.

Mas para a energia geotérmica ser usada mais amplamente, os engenheiros precisam encontrar uma forma de explorar o calor em níveis mais profundos que permeiam o centro da Terra.

Alguns defensores da energia geotérmica acreditam que o método usado em Basel, e que será experimentado na Califórnia, pode ser esse avanço. Mas como grandes terremotos tendem a se originar em maiores profundidades, rachar rocha tão profundamente traz um risco mais sério, dizem os sismólogos. Os sismólogos há muito sabem que atividades humanas podem provocar terremotos, mas eles dizem que a ciência não é desenvolvida o suficiente para dizer com certeza o que provocará ou não um grande tremor.

Mesmo assim, não há escassez de dinheiro para testar a idéia. Reicher supervisionou um investimento de US$ 6,25 milhões do Google na AltaRock, e com mais de US$ 200 milhões em novo dinheiro federal para a energia geotérmica, o Departamento de Energia já aprovou o financiamento para projetos em Idaho, pela Universidade de Utah; em Nevada, pela Ormat Technologies; e na Califórnia, pela Calpine, a apenas poucos quilômetros do projeto da AltaRock.

Steven E. Koonin, o subsecretário de ciência do Departamento de Energia, disse que a questão dos terremotos era nova para ele, mas acrescentou: "Nós estamos comprometidos em fazer as coisas de forma factual e rigorosa, e se houver um problema, nós cuidaremos dele".

O tom é mais urgente na Europa. "Esta foi minha principal pergunta aos especialistas: vocês podem excluir que um grande terremoto possa ser provocado por esta atividade humana?" disse Rudolf Braun, presidente da equipe de projeto que a cidade de Basel criou para estudar os riscos da retomada do projeto.

"Eu fiquei bastante surpreso por todos dizerem: 'Não, não podemos. Nós não podemos excluir isso'", disse Braun, cujo estudo será apresentado neste ano.

"Seria desafortunado se, nos Estados Unidos, as pessoas se apressassem e não levassem em consideração o que aconteceu aqui", ele disse.

O grande choque de Basel
Quando as pessoas estavam deixando o trabalho em meio à chuva com rajadas de vento em Basel, em 8 de dezembro de 2006, os problemas de Haering já tinham começado. Sua incisão no solo estava provocando pequenos tremores que as pessoas estavam sentindo por toda a cidade.

Haering sabia que por sua própria natureza, a técnica criava terremotos, porque exige a injeção de água sob grande pressão nos buracos perfurados para rachar o leito rochoso profundo. A abertura de cada fissura é, literalmente, um minúsculo terremoto no qual as tensões subterrâneas partem veios fracos, rachaduras ou falhas na rocha. A água sob grande pressão pode ser imaginada como um lubrificante que facilita para que estas forças deslizem a terra ao longo dos pontos fracos, criando uma rede de fissuras.

O plano de Haering era usar essa rede como o bule de chá supremo, circulando água pelas fissuras e esperando sua saída como vapor. Mas o que o surpreendeu naquela tarde foi a intensidade dos tremores, porque os defensores do método acreditam que são capazes de realizar um delicado equilibrismo, partindo a rocha sem criar terremotos maiores.

Alarmado, Haering e outros representantes da empresa decidiram liberar toda a pressão no poço para tentar deter o processo de rachadura. Mas enquanto estavam a poucos quilômetros do ponto de perfuração, dando ordens por um aparelho de viva-voz para os trabalhadores na boca do buraco, um tremor muito maior sacudiu a sala.

"Eu acho que fomos nós", disse um funcionário atônito.

Análises dos dados sísmicos provaram que ele estava correto. O tremor foi de 3,4 - modesto em algumas partes do mundo. Mas os tremores provocados tendem a ser mais rasos do que os naturais, e os moradores geralmente os descrevem como uma única sacudida explosiva -frequentemente fora de proporção com a magnitude- do que apenas um tremor.

Os tremores provocados também costumam ser acompanhados por um "choque de ar", um forte barulho estrondoso.

O barulho "me fez achar que tinha sido algum tipo de avião supersônico passando no alto", disse Heinrich Schwendener, que como presidente da Geopower Basel, o consórcio que inclui a Geothermal Explorers e empresas de energia elétrica, estava ao lado do buraco.

"Eu levei cerca de meio minuto para perceber que não se tratava de um avião supersônico, mas do meu poço", disse Schwendener.

Àquela altura, grande parte da cidade estava em confusão. Na redação do principal jornal da cidade, o "Basler Zeitung", repórteres mergulhavam para baixo das mesas, alguns se recusando a se mover até que um editor veterano berrou para que saíssem atrás da história, disse Philipp Loser, 28 anos, um repórter de lá.

Aysel Mermer, 25 anos, uma garçonete do restaurante Schiff, perto do Rio Reno, disse que achou que tinha explodido uma bomba.

Eveline Meyer, 44 anos, uma recepcionista em uma exposição marítima, estava ao telefone com uma amiga e pensou que sua máquina de lavar tinha começado a fazer barulho, por causa de roupa mal distribuída em seu interior. "Eu disse à minha amiga: 'Será que fiquei maluca?'" lembrou Meyer. Então, ela disse, a ligação caiu.

Haering foi levado rapidamente à central de polícia em uma viatura para explicar o que tinha acontecido. Assim que vazou a notícia de que o projeto tinha provocado o terremoto, disse Loser, o ultraje tomou conta da cidade. Os terremotos, incluindo outros três com magnitude superior a 3, prosseguiram por cerca de um ano -mais de 3.500 ao todo, segundo os sensores da empresa.

Apesar de nenhum ferimento sério ter sido informado, a seguradora da Geothermal Explorers no final teve que pagar mais de US$ 8 milhões em indenização por danos menores aos proprietários de milhares de imóveis na Suíça, assim como nas vizinhas Alemanha e França.

Otimismo e oportunidade

Nos Estados Unidos, onde os terremotos de Basel receberam pouca cobertura da imprensa, a sorte da energia geotérmica ainda estava em alta. As conclusões otimistas do relatório sobre energia geotérmica do Departamento de Energia começaram a atrair o interesse de investidores, à medida que se espalhava a notícia antes de sua divulgação oficial.

No final de 2006, após alguns resultados terem sido apresentados em um encontro do setor, Trae Vassallo, uma sócia da firma Kleiner Perkins, telefonou para Petty, uma pesquisadora geotérmica que fez parte dos 18 autores do relatório, segundo mensagens de e-mail de ambas as mulheres. Aquele telefonema levou Petty a fundar a AltaRock e trazer, segundo Petty, outros seis autores para trabalharem como consultores da empresa ou exercerem outras funções.

J. David Rogers, um professor e engenheiro geológico da Universidade de Ciência e Tecnologia do Missouri que não esteve envolvido no relatório, disse que essa sobreposição de pesquisa e interesses comerciais é comum na ciência e engenharia, mas acrescentou que pode ser visto como um conflito de interesses. "É muito gratificante ver alguém passar da teoria à aplicação e, ao final, de fato ganhar dinheiro e ser aceito pela sociedade", disse Rogers. "É o sonho de todo o cientista."

Petty disse que suas primeiras "discussões sérias" com Vassallo sobre a formação de uma empresa só ocorreram após a divulgação oficial do estudo, no final de janeiro de 2007. Em junho daquele ano, Petty fundou a AltaRock com US$ 4 milhões da Kleiner Perkins and Khosla Ventures, uma firma de investimento com sede na Califórnia.

O terremoto em Basel ocorreu mais de um mês antes da divulgação do relatório do Departamento de Energia, mas nenhuma referência a ele foi incluída nas poucas e tranquilizadoras referências do relatório aos riscos de terremotos. Petty disse que o documento já estava na gráfica no final do ano, "de forma que não tinha como incluirmos o evento de Basel no relatório".

Os representantes da AltaRock, com escritórios em Sausalito, Califórnia, e Seattle, insistem que a empresa aprendeu as lições de Basel e que seus próprios estudos indicam que o projeto pode ser executado em segurança. James T. Turner, o vice-presidente sênior de operações da AltaRock, disse que a empresa já deu entrada a cerca de 20 pedidos de patente para formas de melhorar o método.

Turner também afirmou em uma visita ao local do projeto, no mês passado, que os sistemas de monitoramento e salva-guarda da AltaRock eram superiores aos usados em Basel.

"Nós achamos que será excelente", disse Turner, ao lado de um equipamento onde a empresa pretende perfurar um buraco de quase quatro quilômetros de profundidade. "E quando for bem-sucedido, nós teremos uma boa manchete que dirá que podemos expandir a energia geotérmica."

A AltaRock, em seu relatório de atividade sísmica, incluiu o terremoto de Basel em uma lista de sismos próximos a projetos geotérmicos, mas a empresa negou que tenha deixado de fora detalhes cruciais sobre o terremoto visando a aprovação do projeto na Califórnia. Até o momento, a empresa recebeu sua autorização do Birô de Gestão de Terras (BLM, na sigla em inglês) federal para perfurar seu primeiro buraco em terras arrendadas junto à Agência de Energia do Norte da Califórnia, mas ainda aguarda por uma segunda licença para rachar a rocha.

"Nós discutimos Basel, em particular o evento de 3,4 graus, com o BLM no início do projeto", disse Turner em uma resposta por e-mail às perguntas após a visita.

Mas Richard Estabrook, um engenheiro de petróleo no escritório de campo do BLM em Ukiah, Califórnia, que teve um importante papel na concessão das permissões federais necessárias, apresentou um relato diferente quando foi perguntado sobre se sabia que o projeto em Basel foi encerrado devido aos terremotos e pelo fato de ter induzido mais de 3.500.

"Eu serie honesto. Eu não sabia disso", ele disse.

Estabrook disse que ainda estava inclinado a conceder a aprovação se a empresa concordasse em controles que poderiam interromper o trabalho caso provocasse sismos acima de certa intensidade. Mas, ele disse, falando a respeito do encerramento do projeto de Basel, "eu gostaria que isso tivesse sido informado".

Preparando-se para os tremores
Houve um tempo em que Anderson Springs, a cerca de três quilômetros do local do projeto, tinha poucos tremores -igual a outros lugares nas montanhas do Norte da Califórnia. Tomando chá e biscoitos no bangalô de propriedade de sua família desde 1958, Tom Grant e sua irmã Cynthia Lora lembraram juntamente com seus cônjuges sobre as visitas à cidade, antes famosa por seus banhos minerais, nos anos 40 e 50. "Eu nunca senti um terremoto aqui", disse Grant.

Então veio o frenesi de perfuração em busca do vapor subterrâneo a oeste dos Gêiseres, um trecho de cerca de 77 quilômetros quadrados de montanhas cobertas de mata repleta de enormes tubos curvos e usinas elétricas. Os Gêiseres é a maior produtora do país de energia geotérmica tradicional. Os sismólogos do governo confirmam que sismos eram bem menos frequentes no passado e que o projeto geotérmico produz até 1.000 pequenos tremores por ano, à medida que o solo expande e contrai como uma enorme esponja com a extração do vapor e a injeção de água em seu lugar.

Atualmente, Anderson Springs é uma comunidade de moradores de classe trabalhadora, aposentados, profissionais liberais ricos e um punhado de artistas. Todos têm uma história sobre terremotos. Há gatos que repentinamente saltam em terror, convidados que precisam ser alertados sobre os sismos, milhares de dólares em reparos a paredes e armários que não conseguem permanecer montados.

Os moradores lutam há anos com as companhias elétricas da Califórnia a respeito dos tremores, ocasionalmente obtendo modestas compensações financeiras. Mas a natureza obscura dos terremotos sempre dá às empresas uma saída, disse Douglas Bartlett, que trabalha no departamento de marketing do Bay Area Rapid Transit (uma linha de trem) em San Francisco, e que juntamente com sua esposa, Susan, é dono de um bangalô na cidade.

"Se provocassem tornados, elas seriam fechadas imediatamente", disse Bartlett. "Mas como é algo no subsolo, onde não é possível ver, e algo um tanto conjectural, eles continuam fazendo."

Agora, os moradores estão se preparando para mais. Como explicou David Oppenheimer, um sismólogo do Levantamento Geológico dos Estados Unidos, em Menlo Park, Califórnia, os Gêiseres são aquecidos por magma oriundo das profundezas da Terra. Acima do magma fica uma camada de rocha parecida com granito chamada felsito, que transmite calor a uma camada espessa de material semelhante a arenito chamado grauvaca, repleto de rachaduras e cheio de vapor.

O vapor é o que atraiu originalmente as companhias elétricas para cá. Mas o projeto da AltaRock perfurará, pela primeira vez, mais profundamente no felsito. Turner disse que a AltaRock calculou que o número de sismos sentidos pelos moradores de Anderson Springs e comunidades locais não aumentaria de forma notável.

Mas muitos moradores estão céticos.

"É assustador", disse Susan Bartlett, que trabalha como nova coordenadora de pacientes do Centro de Fertilidade do Pacífico, em San Francisco. "O que acontecerá com todas essas rochas que eles farão em milhões de pedaços?"


Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host