UOL Notícias Internacional
 

25/06/2009

Nos Andes, uma empresa tóxica também fornece o sustento

The New York Times
Simon Romero
Em La Oroya (Peru)
Claudia Albino, uma lavadeira que ganha cerca de US$ 3 por dia e vive em um barraco de um quarto com sua família, nesta cidade desolada no alto dos Andes, pode parecer inicialmente não ter nada a ver com Ira Rennert, o recluso bilionário de Nova York que construiu uma das maiores casas nos Estados Unidos, uma mansão em estilo italiano com mais de 6 mil metros quadrados nos Hamptons.

Mas o império industrial privado de Rennert inclui uma fundição com uma enorme chaminé que é visível da casa de Albino, de forma que a saúde e destino econômico dela e de milhares de outras pessoas daqui dependem das manobras corporativas que ele realiza.

La Oroya é considerada uma das 10 cidades mais poluídas do mundo pelo Instituto Blacksmith, um grupo sem fins lucrativos que estuda locais tóxicos. Mas por vários meses, a fundição peruana do império de Rennert vem dizendo que os baixos preços dos metais a impedem de concluir a tempo um trabalho de limpeza para redução das emissões, que dão a esta cidade sua desagradável distinção.

As tensões aqui em torno das emissões de chumbo e do colapso financeiro da fundição são precisamente o tipo de mistura horrível de investimento estrangeiro e contaminação ambiental temida pelos grupos indígenas de outras partes do Peru, particularmente na bacia amazônica do país, onde protestos em relação a assuntos semelhantes deixaram dezenas de mortos neste mês.

Citando dificuldades financeiras, os operadores peruanos da fundição, que já suspenderam a maioria de suas operações, ameaçaram fechá-la totalmente por vários meses, colocando em risco 3 mil empregos na fundição e outros milhares que dependem dela como Albino, que lava roupa para as esposas dos trabalhadores da empresa.

Nesta semana, alguns trabalhadores e moradores protestaram contra o possível fechamento, parando o trânsito e o comércio ao longo da estrada que desce de La Oroya até a capital, Lima. Então na terça-feira, o governo sinalizou uma possível abertura para uma prorrogação do prazo até outubro para a limpeza. As autoridades envolvidas na negociação na quarta-feira disseram que uma possível solução para o impasse envolveria dar aos trabalhadores parte do controle da fundição.

"Esse homem, Rennert, eu ouvi falar dele na televisão, de sua grande riqueza e casas ao redor do mundo", disse Albino. "Da minha parte, eu não tenho mais como pagar os exames de nível de chumbo no sangue das minhas filhas", ela disse, atribuindo o baixo crescimento de sua filha mais nova, de 7 anos, às emissões da fundição.

Os moradores de La Oroya, com uma população de 35 mil, falam do chumbo em seu sangue da mesma forma que pessoas em outros lugares conversam sobre o tempo. Entre as crianças com menos de 6 anos, 97% apresentam níveis de chumbo que seriam considerados tóxicos pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos, segundo um estudo de 2005, feito por cientistas da Universidade de Saint Louis.

Mas enquanto alguns aqui se queixam de Rennert e da empresa, a Doe Run Peru, outros os defendem por fornecer empregos, tornando esta uma cidade altamente dividida.

"Nós somos gratos à Doe Run", disse Elizabeth Canales, 40 anos, uma costureira e membro de um grupo apoiado pela empresa que ensina higiene às famílias pobres daqui. "Realmente me entristece porque não sei se isto está acontecendo devido a algum mal-entendido."

Em uma cidade onde outdoors com imagens utópicas de famílias felizes promovem as realizações da empresa, alguns elogiam publicamente a Doe Run Peru ao mesmo tempo em que pedem, por temer retaliação, anonimato ao expressar sua raiva contra a empresa. "Esta cidade é de propriedade de uma empresa, e nós vassalos não podemos ser vistos como desleais aos nossos senhores", disse um operário veterano.

O desacordo entre os que apoiam e criticam a empresa toma conta das ruas labirínticas de La Oroya, lotada com bancas que vendem alimentos, como porquinho da Índia temperado, e bares que atendem aos operários da fundição, cuja maioria se mudou para cá vindo de outras partes do Peru e ganha salários muito maiores do que os de outros moradores.

Insultos e ameaças são comuns. Alguns trabalhadores da fábrica desfilaram recentemente com uma imagem do arcebispo Pedro Barreto, um franco crítico do retrospecto ambiental da empresa, a queimando na conclusão de seu protesto.

"Quando insultos não funcionam, a empresa recorre à intimidação, e quando isso falha, à chantagem, como está fazendo agora ao dizer que fechará a fundição a menos que receba uma prorrogação do prazo para limpeza", disse Pedro Cordova, 50 anos, um mecânico de produção na fundição que está processando a empresa por causa de uma doença pulmonar.

Os ativistas ambientais em La Oroya disseram ver paralelos entre as estratégias da Doe Run Peru aqui e as empregadas em outros lugares pela Renco, a holding de Rennert. Eles argumentam que apesar de sua fortuna permanecer intacta, algumas empresas da Renco nos Estados Unidos enfrentaram queixas por contaminação ambiental e foram à falência no início desta década.

Por meio de um porta-voz em Nova York, Rennert se recusou a ser entrevistado, e a Renco disse apenas que está negociando visando "chegar a uma solução viável".

A Doe Run Peru alega ter "reduzido dramaticamente" as emissões tóxicas da fundição desde que a comprou do governo peruano em 1997, levando a uma "melhoria radical das condições ambientais".

Ainda assim, os pesquisadores argumentam que a Doe Run Peru enganou as autoridades ao usar 1997, o ano em que assumiu o controle da fundição, como ponto de comparação para os níveis de poluição, já que a contaminação cresceu muito naquele ano. "A Doe Run Peru é responsável por um aumento absoluto da contaminação em La Oroya", disse Corey Laplante, um pesquisador americano que estudou La Oroya para a Sociedade Peruana de Direito Ambiental, em Lima.

Apesar de pressionadas pelos trabalhadores daqui para encontrar uma solução, as autoridades em Lima disseram nesta semana que temem tomar ou intervir na empresa, apontando para as batalhas legais que poderiam resultar da tomada de certo controle sobre um ativo de propriedade estrangeira.

As notícias de que a Renco tentou neste mês comprar a fabricante sueca de carros Saab levaram alguns moradores furiosos daqui a perguntar por que a Doe Run Peru não pôde concluir sua limpeza ou impedir o fechamento da fundição, em um momento em que os preços dos metais começaram a subir de novo.

Quase todos aqui querem que a fundição permaneça aberta e que a limpeza prossiga. Mas com o Peru cultivando laços mais estreitos com os Estados Unidos na América Latina, por meio de um novo acordo de comércio com Washington, alguns aqui questionam os benefícios desse pacto.

"É como se fôssemos peões em um jogo", disse Rosa Amaro, 52 anos, uma líder de um grupo ambiental daqui. "O que ainda não entendo é por que estamos expostos aos riscos de um investimento americano, mas não às proteções ambientais desfrutadas pelos cidadãos dos Estados Unidos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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