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25/06/2009

Países árabes alinhados com os EUA saboreiam a turbulência no Irã

The New York Times
Michael Slackman
No Cairo
A rancorosa disputa em torno da eleição presidencial no Irã pode se transformar em uma vitória para os líderes árabes alinhados com Washington, que no passado se queixavam amargamente do fato do presidente Mahmoud Ahmadinejad estar desestabilizando a região e interferindo nos assuntos árabes, disseram analistas políticos e ex-autoridades de toda a região.

O pensamento positivo seria este: com a permanência de Ahmadinejad no poder, há menos chance de uma melhoria substancial das relações entre Teerã e Washington, algo que os aliados árabes dos Estados Unidos temiam que pudesse minar seus interesses. Ao mesmo tempo, o conflito eleitoral pode ter enfraquecido a liderança do Irã em casa e no exterior, forçando o país a se concentrar mais em sua estabilidade doméstica, disseram os analistas políticos e ex-autoridades.

"Eles não gostam quando o Irã está forte e desafiador e não gostam quando o Irã está mais próximo do Ocidente", disse Adnan Abu Odeh, um ex-conselheiro do rei Hussein da Jordânia.

É claro, esse resultado poderia provar ser apenas um desejo fantasioso, alertaram os analistas políticos. Outros centros de poder no Irã, do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, às forças armadas, podem ter mais influência sobre a política regional do que o presidente. Também é possível que uma liderança profundamente dividida possa desejar uma exacerbação das tensões regionais para distrair a atenção de seus problemas domésticos.

O impasse iraniano também pode servir como um alerta para os líderes árabes que tem observando enquanto a tecnologia moderna, como a internet, sites de redes sociais e celulares, novamente mina a capacidade dos Estados autoritários de controlar o acesso e distribuição da informação.

Mas as diferenças culturais e sociais entre o Irã e os países árabes são tão grandes que os líderes não temem que seus cidadãos possam ser inspirados a se rebelarem. O Irã é um país importante e influente no Oriente Médio, mas também é distante das ruas árabes sunitas, já que se trata de um país de maioria persa com uma população de maioria xiita.

"Muitos jovens no mundo árabe adorariam ver algo assim acontecer, mas o tipo de sociedade civil que possuem torna mais natural que isso aconteça no Irã no que um lugar como o Egito ou a Arábia Saudita", disse Ahmed al-Omran, um estudante universitário da Arábia Saudita e autor do popular blog saudijeans.org.

Além disso, os vídeos dramáticos de iranianos sendo espancados ou baleados pela milícia Basij causaram danos incalculáveis à imagem do Irã de país mais populista e religiosamente puro da região. Os aliados do Irã na região, incluindo a Síria, assim como o Hizbollah no Líbano e o movimento Hamas nos territórios palestinos, provavelmente também sofrerão um abalo em sua credibilidade, talvez até mesmo em seu financiamento, caso a crise eleitoral seja resolvida como uma pesada repressão ou ocorra um impasse prolongado com a oposição, disseram os analistas.

Uma medida de como os líderes árabes estão reagindo à crise no Irã é seu silêncio. As autoridades parecem ansiosas em evitar até mesmo a aparência de que estão tentando influenciar o resultado, disseram analistas políticos. A mídia estatal por toda a região tem se mantido relativamente discreta em sua cobertura. (Canais de notícias por satélite como a "Al Jazeera" tem fornecido cobertura extensa.)

"Quando se espera por tanto tempo por algo que lhe deixa feliz, você prende a respiração, você faz menos barulho visando não afetar o resultado", disse Randa Habib, uma analista política e colunista em Amã, Jordânia.

Os aliados do Irã, por outro lado, estão tensos. Emad Gad, um especialista egípcio em assuntos internacionais, disse que já viu evidência de aliados do Irã, especialmente na Síria, tentando garantir suas apostas em Teerã. Ele disse que a Síria, por exemplo, tem se mostrado nos últimos dias mais disposta a ajudar o Egito a pressionar uma reconciliação entre as facções palestinas.

"Eu acho que Ahmadinejad se concentrará mais no campo econômico para melhorar as condições de vida de sua população após a crise", disse Gad. "Isso significa dar menos dinheiro, menor interferência, menor penetração no mundo árabe, menor envolvimento."

Quando o governo iraniano anunciou que Ahmadinejad tinha obtido uma vitória por grande margem, houve um suspiro de pesar coletivo entre os líderes árabes alinhados com Washington. Eles esperavam pela vitória do candidato reformista, Mir Hussein Moussavi, mas em vez disse acabaram -ao que parecia- com um presidente em exercício fortalecido. Então foi com um pouco de surpresa, na verdade descrença e não pouca alegria, que os eventos acabaram se revelando ainda melhores do que se Moussavi tivesse vencido, disseram os analistas políticos.

"Os líderes árabes estão assistindo e estão muito satisfeitos", disse Gad. "O Ahmadinejad após esta eleição será muito diferente do Ahmadinejad antes da eleição. Ele será bem mais fraco."

Os analistas reconheceram que há uma sequência de eventos potencialmente mais sombria que poderia surgir - uma em que Ahmadinejad saia desta crise ainda menos preocupado com a opinião doméstica do que antes e mais agressivo. Mas os analistas disseram que isso poderia ser difícil para ele, por causa das profundas divisões que o conflito já causou entre a elite política.

Os governos árabes alinhados com Washington fazem parte de um campo que tem promovido uma iniciativa de paz árabe com Israel. O Irã, eles acusam, tem trabalhado para minar o processo de paz, ao financiar o Hamas e o Hizbollah e atacar aqueles que integram o campo da paz. Antes das eleições, o Irã vinha exibindo cada vez mais sua força geopolítica, frequentemente em disputas com vizinhos árabes menores na região do Golfo Pérsico. Um ex-presidente do Parlamento iraniano, por exemplo, disse que o Bahrein era historicamente parte do Irã.

Agora, os líderes árabes estão buscando recuperar o impulso e reduzir a influência e disseminação de poder do Irã, disseram analistas. Eles também estão buscando usar a crise no Irã para minar o Islã político em geral. O mundo árabe é governado por líderes autoritários, reis e emires -e seu maior desafio à legitimidade e controle vem de movimentos políticos islâmicos como a Irmandade Muçulmana no Egito e na Jordânia.

"Os oponentes do movimento islâmico vão longe em prever o colapso da revolução islâmica e o fim dos movimentos islâmicos e seu projeto político", disse Mohammad Abu Rumman, editor de pesquisa do jornal "Al Ghad" em Amã. "A previsão do fracasso da revolução é uma previsão do fracasso do Islã político em geral."

Mona el-Naggar contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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