UOL Notícias Internacional
 

26/06/2009

Premiê considera retirada americana uma vitória do Iraque

The New York Times
Steven Lee Myers e Marc Santora
Em Bagdá
O primeiro-ministro Nouri Kamal Al Maliki passou a chamar a retirada das tropas de combate americanas das cidades iraquianas, na próxima terça-feira, como uma "grande vitória", uma repulsão da ocupação estrangeira semelhante à rebelião contra as tropas britânicas em 1920.

E os norte-americanos estão aceitando esse jogo, de forma simbólica e substantiva.

Os comandantes norte-americanos estão cumprindo o prazo de 30 de junho para retirada das forças de combate das cidades iraquianas mais fielmente do que era esperado há poucas semanas, segundo autoridades americanas e iraquianas.

Eles fecharam postos avançados -até mesmo em Bagdá e na ainda problemática Mosul, no norte- que inicialmente fizeram lobby junto aos iraquianos para manter abertos, após concluírem, segundo funcionários, que essa posição seria contraproducente dada a importância política que Al Maliki tem dado ao prazo.

O dia foi declarado feriado nacional, apesar de ainda não estar claro se o Iraque realizará o "banquete e festivais" que ele prometeu recentemente.

Autoridades americanas e iraquianas reconheceram os riscos - para a posição política de Al Maliki e para a segurança dos iraquianos.

Na quarta-feira, quatro dias depois do fechamento da última base americana em Sadr City, uma bomba escondida em uma motocicleta matou pelo menos 76 pessoas e feriu mais de 150 em um mercado no bairro. Na quinta-feira, pelo menos sete bombas explodiram por todo o país, no que pareceu ser uma mensagem dos extremistas, dias antes do término do prazo.

Grande parte do apoio político a Al Maliki vem da queda da violência desde a carnificina de 2006 e 2007, da reconstrução das forças de segurança, de ter presidido o início do fim da guerra americana. Ele raramente menciona qualquer papel americano na melhoria da segurança no Iraque - apesar de 130 mil soldados americanos permanecerem no país.

"Nós não pediremos uma intervenção em operações de combate relacionadas à manutenção da ordem pública", ele disse em uma entrevista para o "Le Monde", publicada na semana passada. "Está encerrado."

Restando poucos dias para o fim do prazo, uma postura militar americana drasticamente alterada surgiu, em grande parte por insistência de Al Maliki.

Bases construídas ao longo de meses e anos foram desmontadas, frequentemente em semanas. A presença antes ubíqua dos blindados americanos nas ruas de Bagdá em grande parte acabou.

Mais de 150 bases e postos avançados americanos foram fechados nas cidades iraquianas neste ano -85% do total, segundo uma autoridade iraquiana- incluindo alguns que os comandantes consideravam cruciais.

Os americanos pediram para manter aberto o posto avançado em Sadr City, o bairro xiita em Bagdá que já serviu como base das milícias xiitas, apenas para terem seu pedido negado.

"Esta era uma que queríamos", disse o general John M. Murray. "O governo iraquiano disse não, então estamos partindo."

Os americanos até mesmo cederam aos pedidos de suspensão de virtualmente todas as operações americanas - até mesmo em papéis de apoio- nos primeiros dias de julho, para reforçar a percepção que Al Maliki deseja: a de que as forças de segurança iraquianas agora estão plenamente no controle das cidades do Iraque.

"Eles estarão invisíveis para o povo", disse Ali al Adeeb, um líder do Partido Dawa de Al Maliki, sobre os americanos. "Eles se transformarão em gênios."

Longe de comemoração, o prazo tem provocado incerteza e até mesmo temor entre alguns iraquianos, ressaltando os problemas potenciais que Al Maliki poderá enfrentar se o derramamento de sangue se intensificar.

Até mesmo alguns oficiais iraquianos disseram estar preocupados. O general Mahmoud Muhsen, um comandante da 1ª Divisão da Polícia Nacional Iraquiana, previu sombriamente que a violência sectária poderá retornar. Ele alertou que o controle das fronteiras do Iraque permanece ineficaz, permitindo a entrada de mais combatentes estrangeiros.

"Eles estão levando todo o equipamento que os americanos fornecem", ele disse, "e com a agenda dos países vizinhos do Iraque, é uma receita para o desastre".

O ataque em Sadr City pareceu, assim como outros recentes, visar desacreditar o governo de Al Maliki, testar suas forças de segurança e minar a sensação pública de melhoria da segurança. De certa forma, eles conseguiram.

"Quando os americanos saírem dos centros urbanos, uma grande guerra começará", disse uma mulher que se identificou como Um Hussan, em meio aos escombros de um atentado a bomba na segunda-feira, em frente à sua casa no bairro de Ur, em Bagdá. Ela acrescentou que faz meses desde que viu pela última vez as forças americanas ali.

"Nós pedimos a Deus que nos ajude diante do que virá", ela disse.

As autoridades iraquianas e americanas preveem ataques nos dias próximos ao prazo de terça-feira, à medida que os extremistas, sunitas e xiitas, buscarão explorar a retirada americana.

O acordo de segurança entre o Iraque e os Estados Unidos que estabeleceu o prazo de 30 de junho para a retirada das cidades, e do país até 2011, deu aos comandantes americanos ampla liberdade para dar continuidade às operações.

Mas decisões a respeito de onde os americanos ficarão e o que farão agora cabem aos iraquianos.

"Nós faremos aquilo que o governo iraquiano nos pedir", disse o tenente-coronel Timothy M. Karcher, comandante das forças que estão partindo de Sadr City.

Mas está longe de ser uma retirada completa, é claro. Milhares de soldados americanos permancerão em Bagdá e em outras cidades, apenas mudando seu papel de combate para treinamento e consultoria. Até o momento, não há restrições ao uso de helicópteros pelos americanos, um lembrete constante no céu do poder de fogo restante.

Os americanos têm se mostrado notavelmente sensíveis à posição política de Al Maliki, enfatizando a primazia iraquiana em todos os comentários públicos. Eles se recusaram a especificar quantos soldados americanos permanecerão nas cidades, aparentemente temerosos de contradizer as declarações públicas de Al Maliki de uma retirada plena.

O principal porta-voz das forças armadas, o general Stephen R. Lanza, disse que apenas um número "extremamente pequeno" permanecerá a pedido dos iraquianos, realizando treinamento e operações que os iraquianos seriam incapazes de realizar sozinhos, como uma evacuação médica de emergência.

Grande parte do trabalho complicado de desmontar e remover milhões de dólares em equipamento dos postos avançados de combate na cidade é realizado à noite. O general Ray Odierno, o comandante geral americano no Iraque, ordenou que um número cada vez maior de operações básicas -comboios de transporte e envio de suprimentos, por exemplo- transcorram à noite, quando a probabilidade é de que menos iraquianos verão que a retirada americana não é total.

Em suas discussões com os americanos, disseram as autoridades, Al Maliki tem demonstrado muito mais pragmatismo do que seus comentários públicos sobre a repulsão da ocupação estrangeira podem sugerir, pedindo, por exemplo, que as equipes americanas de remoção de explosivos continuem realizando uma varredura pelas ruas de Bagdá.

Ainda assim, sua linguagem forte e o que um conselheiro ocidental descreveu como um senso inflado da capacidade de suas próprias forças, o deixaram com pouco espaço político para voltar atrás, caso a situação da segurança piore significativamente.

"Simbolicamente", disse Lanza sobre a retirada das forças americanas antes de terça-feira, "isto é o que queremos para os iraquianos como uma nação soberana".


Duraid Adnan contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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