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26/06/2009

Presidente do Irã se beneficia por ter colocado aliados em cargos-chave

The New York Times
Neil MacFarquhar
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tem se mantido discreto desde que a contestada eleição presidencial levou a protestos de rua sangrentos.

Mas analistas disseram que a repressão nacional em andamento sugere que Ahmadinejad teve sucesso em criar uma ampla rede de autoridades importantes nas forças armadas, agências de segurança e veículos-chave de mídia, uma nova elite que se tornou especialmente formidável devido ao apoio de um eleitor-chave, o próprio líder supremo do Irã.

Ahmadinejad tem preenchido ministérios cruciais e outros altos cargos com amigos próximos e aliados, que têm promovido o apoio ideológico e operacional a ele por todo o país. Esses analistas estimam que ele substituiu 10 mil funcionários do governo para consolidar a lealdade a ele na burocracia, de modo que seus aliados comandam as organizações responsáveis tanto pelos resultados eleitorais quanto os órgãos oficiais que os homologam.

"Há um establishment político inteiro que surgiu com Ahmadinejad, que agora está determinado a se manter no poder de forma não democrática", disse um analista do Irã baseado nos Estados Unidos, falando sob a condição de anonimato devido ao seu trabalho no Irã. "A capacidade deles de resistir ao resultado da eleição significa que possuem uma ampla base no establishment político."

Há um padrão na forma como o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, seleciona os aliados ao longo de sua carreira, disse Said A. Arjomand, um professor de sociologia da Universidade Estadual de Nova York, em Stony Brook, que acabou de concluir um livro que analisa o governo do líder supremo. O aiatolá repetidamente se cerca de homens que aparentemente carecem de uma base social ou política própria, homens que seriam dependentes dele, disse Arjomand.

Durante a campanha presidencial de 2005, o líder supremo apoiou Ahmadinejad porque o humilde filho de ferreiro parecia ser um desses candidatos obscuros. Mas ele ingressou na presidência com um círculo de veteranos e ideólogos moldados pela guerra Irã-Iraque, que eram conservadores, religiosos, altamente populistas e desdenhosos da velha guarda da revolução de 1978-1979.

Hoje, esses aliados, muitos deles ex-oficiais de médio escalão da Guarda Revolucionária na faixa dos 50 anos, comandam os ministérios do Interior, Inteligência e Justiça. Entre eles também está o comandante da milícia popular Basij, o chefe do Conselho de Segurança Nacional e o chefe da radiodifusão estatal. Eles estão alinhados com outro membro de sua geração, que despontou como a figura mais importante no campo de Khamenei, o filho do líder espiritual, Mojtaba Khamenei.

Ahmadinejad também mudou todos os 30 governadores do país, todos os prefeitos e até mesmo funcionários públicos de terceiro e quarto escalões em ministérios importantes, como o do Interior. Foi o Ministério do Interior que anunciou que Ahmadinejad tinha vencido a eleição de 12 de junho com apenas 5% dos votos contados, apontaram os analistas, e é o Ministério da Inteligência que tem detido os partidários do candidato reformista, Mir Hussein Mousavi, e outros dissidentes.

Ao mesmo tempo, o aiatolá Muhammad Taqi Mesbah-Yazdi, o mentor espiritual de Ahmadinejad, comanda três instituições educacionais poderosas na cidade sagrada de Qum, todas saídas do seminário de Haqqani, que leciona que o Islã e a democracia são incompatíveis. Os aiatolás defendem um sistema que preservaria o posto de líder supremo e eliminaria as eleições. O governo Ahmadinejad tem fornecido subsídios públicos generosos ao seminário, e aqueles que se formam nele ocupam postos de governo significativos por todo o país.

Talvez o órgão de imprensa mais importante para disseminação da mensagem do governo seja o jornal linha-dura "Kayhan". Seu diretor geral, Hossein Shariatmaderi, ressuscitou nos últimos dias uma acusação padrão: a de que governos estrangeiros estavam manipulando as manifestações nas ruas do Irã.

Há também um grande número de blogs e autores alinhados com Ahmadinejad. Entre eles está Fatemeh Rajabi, a autora de "Ahmadinejad: O Milagre do Terceiro Milênio", uma hagiografia de Ahmadinejad como o salvador da revolução. Às vezes descrita como a "velha rabugenta da direita radical", Rajabi, a esposa do ministro da Justiça, publica regularmente ataques cáusticos contra os reformistas. Ele pediu que o ex-presidente Mohammad Khatami, um clérigo, perdesse seu posto religioso por ter apertado a mão de uma mulher na Itália, e sugeriu que Mousavi deve ser condenado à pena de morte por promover as manifestações antigoverno.

Apesar dos campos de Khamenei e Ahmadinejad terem suas diferenças, eles compartilham a visão messiânica xiita de que o líder supremo é o representante do messias escondido, que retornará para promover uma era dourada de domínio islâmico. De forma mais prática, ambos os campos gostariam de eliminar o ex-presidente, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, como candidato sério ao posto de líder supremo quando Khamenei morrer. Finalmente, ambos acreditam em uma política externa confrontativa.

Os analistas dizem que estas metas compartilhadas são o motivo para Khamenei destacar quase diariamente, como fez novamente na quarta-feira, que o governo não recuará dos resultados eleitorais anunciados. "A única coisa que poderiam perder é a presidência e eles conseguiram impedir esse resultado, devido ao laço estreito com o líder supremo", disse o analista baseado nos Estados Unidos.

Ainda assim, o campo conservador está longe de ser unido. Mohammad Baqer Qalibaf, o prefeito de Teerã, disse à TV estatal iraniana na terça-feira que "temos que responder às paixões demonstradas pelas pessoas a respeito da eleição, mas isso não pode ser feito recorrendo à força". Outro conservador, Ali Larijani, o presidente do Parlamento, questionou a neutralidade do Conselho Guardião para julgar o resultado eleitoral, mas posteriormente recuou.

"Nenhum deles gosta de Ahmadinejad, mas não querem entrar em choque com o líder", disse Ali Ansari, um professor do Instituto de Estudos Iranianos da Universidade de Saint Andrews, na Escócia.

O candidato reformista que tem atacado mais abertamente o governo Ahmadinejad com argumentos legais e religiosos tem sido Mehdi Karoubi. Em uma carta atacando os resultados da eleição, ele disse que os vitoriosos foram "os defensores de um Islã reacionário e semelhante ao Taleban", o que significa que nenhuma dissidência seria tolerada.

  • Arte UOL
Tradução: George El Khouri Andolfato

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