UOL Notícias Internacional
 

27/06/2009

Mais um atentado a bomba no Iraque gera temores quanto à retirada americana

The New York Times
Sam Dagher e Alissa J. Rubin
Em Bagdá (Iraque)
Uma bomba instalada em uma motocicleta explodiu em um mercado ao ar livre em Bagdá na sexta-feira (26), matando quase doze pessoas e ferindo muitas outras no terceiro dia seguido de violência na capital perto do prazo da próxima terça-feira para a retirada das tropas de combate norte-americanas das cidades iraquianas.

Após um outro atentado a bomba executado com uma motocicleta na sexta-feira, que matou uma pessoa, as autoridade em Bagdá ordenaram que todos os veículos deixassem de circular pelas ruas por tempo indefinido.

  • Ali Al-Saadi/AFP

    Soldado norte-americano patrulha cidade de Mosul, no norte do Iraque. Autoridades demonstram insegurança sobre as condições de estabilidade do local, próximo ao fim do prazo de retirada das tropas da região

Quase 200 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas em ataques nos últimos sete dias em Bagdá e em outras partes do país. Os ataques mais mortíferos tiveram como alvo a população xiita. A violência gerou temores de que haja uma onda de combates sectaristas do tipo que esfacelou o Iraque em 2005, e que poderia fazer com que os iraquianos procurassem novamente a proteção de milícias e grupos armados, em vez de confiarem nas forças governamentais.

A reação dos líderes xiistas ecoa essas preocupações.

O atentado de sexta-feira ocorreu em um mercado de motocicletas novas e usadas, que ocorre semanalmente sob uma ponte, no bairro operário de Nahdha, na zona central de Bagdá.

Segundo oficiais do exército iraquiano que estavam no local, a bomba foi instalada em uma motocicleta. A explosão matou dez pessoas e feriu outras 12. Os militares falaram sob condição de anonimato, porque são proibidos de dar declarações a repórteres. Uma autoridade do Ministério do Interior afirmou que os atentados vitimaram pelo menos 13 pessoas, e feriram outras 45. Relatórios com números conflitantes de mortos são comuns após atentados a bomba no Iraque.

"Os corpos foram despedaçados, e nem mesmo os parentes próximos puderam reconhecê-los", disse um soldado iraquiano, enfurecido. "Isso é sangue iraquiano, mas é um sangue que está barato", acrescentou ele, apontando para uma poça de sangue próxima.

Os destroços das motocicletas foram colocados na carroceria de uma caminhonete da polícia.

Muitos civis furiosos que estavam no local diziam que a culpa foi das forças armadas iraquianas, que não teriam adotado uma abordagem rígida em relação ao problema e estariam infiltradas pelos insurgentes.

A mesma unidade do exército iraquiano, a 11ª Divisão, é responsável por Nahdha e pelo distrito xiita vizinho de Cidade Sadr, onde uma bomba matou 76 pessoas em um mercado cheio de gente na noite da última quarta-feira.

Em Cidade Sadr, centenas de pessoas lotaram a rua em frente ao escritório local do clérigo anti-americano Muqtada al-Sadr, a fim de participarem das orações da sexta-feira e ouvirem um sermão proferido por um dos assessores de al-Sadr.

Lendo uma declaração emitida por al-Sadr, o pregador Harith Adthari responsabilizou os norte-americanos pelas explosões, afirmando que os atentados trazem "as impressões digitais da ocupação". Ele pediu à população que ajude as forças de segurança iraquianas leais. Adthari também observou que alguns infiltradores penetraram as forças armadas iraquianas, e que estas pessoas precisam ser neutralizadas.

A pregação, que foi assistida por multidões maiores do que as presenciadas em várias semanas anteriores, terminou com uma manifestação espontânea, durante a qual os participantes marcharam por uma das principais ruas de Cidade Sadr gritando: "Não, não aos Estados Unidos. Não, não à ocupação. Não, não ao terrorismo".

Esses gritos foram acompanhados do refrão: "Sim à independência. Sim à paz".

Os seguidores de Al-Sadr também fizeram manifestações similares nas cidades de Najaf e Basra, no sul do país.

Embora algumas pessoas tenham queimado uma bandeira norte-americana em Bagdá, o clima geral, embora tenso, estava menos inflamado do que em ocasiões anteriores. Adthari recomendou paciência e "resistência pacífica", embora a sua mensagem ao governo iraquiano tenha se concentrado em "expulsar os seguidores da ocupação e os baathistas", ou membros do antigo partido dominante de Saddam Hussein.

Depois disso, as pessoas que ouviram o sermão pareciam estar certas de que os norte-americanos foram os responsáveis pela bomba de quarta-feira. Eles também concordaram que Cidade Sadr era um local mais seguro quando a milícia Exército Mahdi cuidava da segurança.

"Todos os problemas aqui são causados pelos norte-americanos; todo este plano de retirada é um jogo", acusou Laith al-Saadi, um médico pediatra. "Não há retirada nenhuma. Eles ainda mantém os seus agentes aqui, tanto iraquianos quanto de outros países".

Hamid Jassim, 24, afirmou: "Antigamente, nós protegíamos o nosso próprio bairro e outros bairros no Iraque. Temos muitos jovens desempregados que poderiam começar a dar conta dessa tarefa". Mas ele acrescentou que por ora esses jovens não farão tal coisa, já que as forças de segurança iraquianas estão realizando esse trabalho.

Em uma declaração, al-Sadr pediu aos seus seguidores que tenham paciência e que adotem uma resistência "pacífica e civilizada", "para que não deem a outros um pretexto para atacá-los".

Porém, não se sabe quanto tempo esse comedimento persistirá, nem o que será necessário para reduzir a determinação dos líderes sadristas de manter a característica não violenta do movimento.

"Presenciamos um ataque contra pessoas inocentes, feito para estimular a violência étnica e sectária que foi de fato um grande problema neste país nos últimos dois anos", afirmou a repórteres, nesta semana, o principal porta-voz militar norte-americano, o general Stephen R. Lanza. "O importante é entender que a população não respondeu a essa provocação".

Ele, assim como outros comandantes e oficiais iraquianos, alertou para um aumento dos ataques perto do prazo para a retirada, mas afirmou que o ritmo da violência continua diminuindo.

Mas o xeque Hamid al-Mualla, um clérigo xiita e membro do parlamento iraquiano, disse que existem extremistas sunitas apoiados pelas forças armadas de alguns países vizinhos no Golfo Pérsico que estão se empenhando em reativar a violência sectarista no Iraque.

"Eu critico o silêncio árabe em relação aos massacres que estão ocorrendo no nosso país", disse ele em um sermão na Mesquita Buratha, em Bagdá.

Em uma declaração na última quinta-feira, o primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki afirmou que os Estados árabes precisam "adotar uma postura clara e definitiva em relação a esses crimes terríveis porque o silêncio não é mais aceitável".

Abeer Mohammed e Steven Lee Myers, em Bagdá, e funcionários do "New York Times" em Basra e em Najaf, contribuíram para esta matéria

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h38

    -0,60
    3,126
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h45

    0,15
    75.720,53
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host