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27/06/2009

Zimbábue confisca campos de diamantes para enriquecer líderes no governo

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Johannesburgo (África do Sul)
As forças armadas do Zimbábue, controladas pelo partido político do presidente Robert Mugabe, confiscaram violentamente os campos de diamantes do país no ano passado, e usaram as rendas ilícitas para comprar a lealdade de soldados insubordinados e enriquecer líderes partidários, segundo um relatório divulgado na sexta-feira (26) pela organização Human Rights Watch.

  • AFP

    Foto tirada em junho de 2008 mostra o presidente Robert Mugabe em sua posse

O partido ZANU-PF usou o dinheiro obtido com os diamantes - contrabandeados para fora do país ou vendidos ilegalmentee pelo Reserve Bank - para reforçar o seu controle sobre as forças de segurança, um controle que parecia estar diminuindo no anopassadoo, quando o valor dos salários dos soldados despencou devido à inflação descontrolada, disseram pesquisadores da Human Rights Watch.

Na sexta-feira, o governo do Zimbábue negou veementemente as acusações contidas no relatório da Human Rights Watch, que citou visitas feitas por pesquisadores da instituição aos campos de diamantes em fevereiro deste ano, bem como entrevistas com soldados, garimpeiros e outras testemunhas.

O ministro da Informação, Webster Shamu, do ZANU-PF, disse em uma entrevista por telefone que o objetivo do relatório é prejudicar a imagem do país, bloquear a venda internacional de diamantes e, "fazendo isso, negar ao Zimbábue as verbas estrangeiras das quais o país muito precisa".

"O relatório inteiro é simplesmente inverídico", disse ele.

A mídia estatal do Zimbábue descreveu a operação militar, denominada "Operação Sem Retorno", no distrito de Marange, no ano passado, como sendo uma iniciativa para restaurar a ordem em meio a uma corrida ilegal aos diamantes naquele distrito.

Mas o relatório da Human Rights Watch acusa as forças armadas de terem assassinado mais de 200 garimpeiros e usado a operação para confiscar os campos de Marange.

Segundo o grupo, algumas pessoas morreram quando os soldados abriram fogo de helicópteros equipados com fuzis automáticos que circularam sobre os campos de diamantes. Muitos dos mortos foram levados para o necrotério do Hospital Geral de Mutare, ou enterrados em sepulturas coletivas.

De acordo com o relatório, brigadas do exército estão se revezando na ocupação dos campos de diamantes do distrito de Marange, descobertos em 2006, de forma que mais soldados possam beneficiar-se do comércio ilegal.

O relatório diz ainda que moradores da área, alguns deles crianças, estão sendo obrigados a trabalhar nas minas controladas por sindicatos militares e têm reclamado de assédios, espancamentos e prisões.

"Trata-se de uma grande máquina de dinheiro para as forças armadas e a polícia, especialmente ao se considerar que o Zimbábue encontra-se praticamente falido", disse em uma entrevista Dewa Mavhinga, o advogado zimbabuano que foi o principal pesquisador envolvido na produção do relatório.

Mugabe, que controla o país há 29 anos, está atualmente governando com o seu rival, o primeiro-ministro Morgan Tsvangirai, líder do Movimento por Mudança Democrática, que passou as últimas três semanas em capitais ocidentais em busca de assistência para a devastada economia do Zimbábue.

O presidente Barack Obama e os chefes de Estado europeus recusaram-se de forma geral a ajudar diretamente o governo do Zimbábue, em parte devido aos temores de que este continue burlando o império da lei.

O relatório da Human Rights Watch é o mais recente sinal da crescente preocupação internacional com as acusações de assassinatos e abusos dos direitos humanos nos campos de diamantes a sudoeste da cidade de Mutare.

"Enquanto o novo governo do Zimbábue, que compartilha o poder, e que foi instalado em fevereiro de 2009, está pedindo ao mundo ajuda para desenvolvimento, milhões de dólares em potenciais verbas governamentais estão sendo subtraídos", acusa o relatório.

Em abril último, a Federação Mundial de Bolsas de Diamantes, um grupo de 28 bolsas em 20 países, solicitou aos seus membros que não comercializem diamantes oriundos dos depósitos de Marange, no Zimbábue.

"Em algum momento, temos que que nos manifestar e agir", disse em uma entrevista, na sexta-feira, o diretor-executivo da federação, Michael H. Vaughan.

No domingo, representantes da Kimberly Process, uma aliança de autoridades empresariais, civis e governamentais criada para coibir o comércio dos chamados "diamantes sangrentos", viajará ao Zimbábue para determinar se o país está atendendo às suas exigências.

Uma coalizão de grupos sem fins lucrativos está fazendo lobby para que o Zimbábue seja expulso da Kimberly Process.

"Há contrabando generalizado de diamantes para fora do país", acusa Annie Dunnebacke, da organização Global Witness. "As forças armadas estão lucrando com esse comércio, e encontram-se diretamente envolvidas com a venda de diamantes".

"No momento em que o Zimbábue não consegue pagar aos funcionários civis e aos soldados um salário mensal de US$ 100, a renda extra obtida com a mineração de diamantes para os militares está servindo para acalmar um grupo de apoiadores cuja lealdade ao ZANU-PF, no contexto da atual luta política, é essencial", diz o relatório da Human Rights Watch.

Em dezembro do ano passado, soldados se rebelaram em Harare, a capital do Zimbábue, para protestarem contra um salário que praticamente perdeu qualquer valor quando a inflação saltou para níveis astronômicos. Analistas e diplomatas ocidentais afirmaram na época que Mugabe poderia perder o poder caso não fosse capaz de sustentar o sistema de apadrinhamento que ele instituiu há décadas.

Tradução: UOL

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