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28/06/2009

A família Ford se reúne para manter a empresa viva na crise

The New York Times
Bill Vlasic
Em Dearborn, Michigan (EUA)
Eles reuniram-se no final de janeiro em um centro de conferência comum próximo à sede da Ford Motor Company, assim como fazem a cada três meses nos últimos 20 anos.

Mas essa reunião estava longe de ser rotineira para as dezenas de descendentes de Henry Ford, que controlam as ações da segunda maior companhia automobilística dos Estados Unidos.

William C. Ford Jr.

  • Reuters

    Bisneto do fundador e atual presidente da Ford

A indústria automobilística norte-americana estava à beira do colapso. O governo federal canalizava verbas de ajuda para a General Motors e a Chrysler para impedir que as duas empresas falissem - possivelmente arrastando a Ford junto com elas.

O valor das 70,9 milhões de ações especiais, com direito a voto, acusou uma queda recorde naquele mês, encolhendo de US$ 2,2 bilhões registrados uma década atrás para os cerca de US$ 140 milhões atuais, e a companhia estava queimando as suas reservas monetárias.

Durante a reunião, membros da família fizeram várias perguntas sobre a situação financeira precária da Ford ao diretor-executivo da companha, Alan R. Mulally.

Para a família Ford, aquele foi um momento decisivo - do tipo que levou a cisões em outros famosos negócios de família, como o dos Brancroft, que eram donos do Dow Jones até venderem esta firma à News Corporation, de Rupert Murdoch.

Os Ford passaram por períodos de tensão. O mais recente foi em 2007, quando alguns membros da família tentaram - sem sucesso - contratar uma firma de Wall Street para aconselhar o clã a respeito de possíveis estratégias para tirar a companhia da crise.

Mas conforme fazem há décadas, após a reunião de janeiro último, os Ford uniram-se em torno do líder escolhido da família: William C. Ford Jr., um bisneto do fundador e presidente desde 1999.

Ele é também a face da companhia em Detroit e em grande parte do mundo, devido ao papel proeminente que desempenhou em propagandas durante o período em que foi diretor-executivo.

"Se tem algo que não queremos neste instante é que a família mostre-se difícil", disse Ford em uma entrevista. "E, em vez de nos separarmos, temos que nos manter juntos".

Sem nenhum drama aparente capaz de distraí-la do foco sobre a companhia, a família decidiu em vez disso tomar uma das medidas mais arriscadas da história recente da Ford. Pela primeira vez ela procurou um diretor-executivo de fora da indústria automobilística, e contratou Mulally, da Boeing. A seguir a família apoiou um plano no sentido de hipotecar todos os ativos da Ford a fim de obter um empréstimo de US$ 23 bilhões.

"As pessoas olham para Alan e para Bill", diz David Hempstead, um advogado que assessora a família há mais de 30 anos. "Quando Alan disse que tinha um plano que funcionaria e que a família reverteria essa situação, essas pessoas acreditaram nele".

Até o momento as decisões valeram a pena. O dinheiro que a Ford pegou emprestado manteve a empresa solvente e independente, enquanto a General Motors e a Chrysler tiveram que recorrer à proteção contra falência. A Ford enxugou as suas operações globais e estabeleceu uma nova rota no sentido de fazer veículos menores e que consomem menos combustível.

Os administradores da General Motors têm agora que responder a um novo acionista majoritário, o governo federal, que por sua vez pretende vender a sua participação acionária a outros investidores. Já os executivos da Chrysler estão aprendendo a trabalhar com a fabricante italiana de automóveis Fiat, que adquiriu a maior parte dos ativos da companhia norte-americana.

Os executivos da Ford dizem que não têm tais preocupações quanto aos seus acionistas majoritários.

"Essas pessoas são muito leais", afirma Mulally. "Elas acreditam muito nesta companhia."

Os membros da família Ford são donos de uma classe especial de ação que dá a eles 40% do controle com direito a votos.

"Creio que esta é uma das maiores vantagens da Ford, e algo que a General Motors nunca teve", afirma David L. Lewis, um historiador da Universidade de Michigan que é especializado em história dos negócios. "No decorrer dos anos a família tem sido um oásis de estabilidade".

As reuniões regulares trimestrais tiveram início após a morte de Henry Ford II, em 1987. A atual geração - com 13 primos, incluindo Bill Ford - inseriu os seus filhos no grupo acionário familiar. Agora as reuniões incluem até 35 membros da família.

Depois que o meu pai morreu, os integrantes da família tiveram que começar a falar", diz Edsel Ford II, diretor antigo da Ford e filho único de Henry Ford II. "As reuniões transformaram-se em uma espécie de convocação para a luta".

Ao todo, cinco membros da família trabalham de alguma forma para a empresa ou integram a diretoria da Ford. Além de Bill e Edsel Ford, três membros da quinta geração da família recebem salários da empresa.
Elena, a sobrinha de Edsel, é uma executiva em ascensão que atualmente é diretora de marketing global da companhia. O primo dela, Alessandro Uzielli, filho de Anne Ford, trabalha no escritório da Ford em Los Angeles em projetos relativos à indústria de entretenimento. E o filho mais velho de Edsel Ford, Henry Ford III, é também funcionário em tempo integral da empresa, e tem o potencial para um dia integrar a diretoria da Ford.

Uzielli, 42, diz que ser um Ford é algo que vem acompanhado de uma "senso de honra e confiança". Os últimos meses têm sido um "período muito difícil", mas que não foi suficiente para abalar a confiança da família.
Em 2001, a família reafirmou o seu poder ao substituir o diretor-executivo, Jacques Nasser, por Bill Ford, que foi presidente por dois anos.

Em 2006, a companhia estava em dificuldades, e parecia estar em pior situação do que a General Motors. Bill Ford buscou o apoio da família para contratar Mulally. "Não houve perguntas. O período era de grande ansiedade para todos nós", diz Bill Ford. "Havia várias coisas acontecendo simultaneamente, todas elas bastante arriscadas".
A visão de Mulally para a Ford incluía o abandono de marcas e operações que foram construídas por Nasser, e o recurso a pesados empréstimos para reestruturar a empresa. A fim de ajudar a persuadir os bancos a emprestarem dinheiro à Ford, a companhia cancelou o seu dividendo, o que custou aos membros da família dezenas de milhões de dólares por ano.
"O nosso plano exige sacrifícios de todos, incluindo a família", diz Mulally. "Mas eles concordaram em fazer tudo o que fosse preciso para salvar a companhia".

Na primavera de 2007, menos de um ano após Mulally ter assumido o cargo, alguns membros da família, incluindo a irmã de Bill, Sheila Hamp, e o marido dela, fizeram pressões pela contratação da firma de Wall Street Perella Weinberg Partners para aconselhá-los sobre uma estratégia de longo prazo - incluindo possíveis fusões ou até mesmo uma venda.
Mas Bill e Edsel Ford, bem como Elena Ford, a sobrinha de Edsel, opuseram-se à medida. A família votou, e concordou com eles. Elena Ford afirma que a força da família fundamenta-se em comunicações transparentes - "todo mundo pode pedir o que quiser", diz ela - e no apoio sólido depois que as decisões são tomadas.

"Estamos passando por um território desconhecido e vamos seguir o nosso plano", acrescenta ela.

A Ford ainda está perdendo dinheiro - somente no primeiro trimestre deste ano o prejuízo foi de US$ 1,4 bilhão - e as suas reservas monetárias estão encolhendo, em um momento no qual todas as companhias do setor amargam uma redução das vendas de automóveis. Mesmo assim, os membros da família Ford dizem que não vislumbram nenhuma situação que pudesse fazer com que eles vendessem a companhia.

"Se isto fosse somente um investimento financeiro, a família provavelmente já teria pulado fora anos atrás", disse Bill Ford. "Trata-se muito mais de um compromisso emocional".

Tradução: UOL

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