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28/06/2009

O casamento se defende

The New York Times
Benedict Carey e Tara Parker Pope
Eles terminaram. Pronto. O governador precisa mandar examinar sua cabeça. Sua mulher precisa atirar as roupas dele pela janela do quarto. Está na hora de esses dois entrarem na fila atrás do casal Jon & Kate e seus oito filhos e resolver a charada.

  • Kata e Jon e seus oito filhos


A especulação sobre o futuro do casamento de Mark Sanford, o governador da Carolina do Sul, depois da recente revelação de seu caso extraconjugal, provavelmente acabará bem antes do sofrimento da família.

O mesmo acontecerá com os sermões não solicitados sobre a hipocrisia dele, as obrigações dela, o péssimo estado do casamento em geral.

A julgar pelas últimas pesquisas, porém, o casamento em si tem probabilidade de sobreviver a tudo isso, o desdém público e a dor privada, por muitos anos.

Apesar das fortes correntes sociais que agem contra ele - a liberalização das leis do divórcio, o fim do estigma do divórcio, as constantes tentações dos sites sociais na internet como MySpace ou Facebook -, o laço do casamento está muito mais forte nos EUA no século 21 do que muitos poderiam supor.

A infidelidade é um dos motivos mais comuns citados pelas pessoas que se divorciam. Mas pesquisas revelam que a maioria das pessoas que descobrem que um dos cônjuges está traindo continua casada com a outra durante vários anos.

Muitos outros milhões não dão importância ou trabalham para superar fortes suspeitas ou evidências de infidelidade. E tendências recentes no casamento sugerem que a própria instituição se tornou mais resistente nos últimos anos, e não menos.

"Todo casamento tem muito mais dimensões do que a mera fidelidade", disse Betsey Stevenson, professora assistente de economia e políticas públicas na Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia, que estuda tendências do casamento e do divórcio.

"Não vemos os outros sacrifícios ou outras traições de promessas. Eu me pergunto se a fidelidade realmente é um teste definitivo para os casamentos, ou se ganha tanta importância apenas na mídia, porque é a única traição de que ouvimos falar nos relacionamentos das celebridades."

Historicamente, a instituição do casamento não sucumbiu à infidelidade, mas coexistiu com ela, como um corpo faz com o vírus da gripe: às vezes enfraquece, mas desenvolve certa imunidade após longa exposição.

Antropólogos encontraram padrões de infidelidade em diversas comunidades ao redor do mundo, assim como historiadores e romancistas. Muitos homens e mulheres, e mais visivelmente os homens, há muito tempo são "publicamente monógamos e escondem seus casos", como disse a antropóloga e escritora Helen Fisher, da Universidade Rutgers.

A tentação espreita até os casamentos mais sólidos, como pesquisadores documentaram com facilidade. Em um estudo, psicólogos da Universidade de Vermont perguntaram a 349 homens e mulheres que tinham relacionamentos sérios sobre suas fantasias sexuais; 98% dos homens e 80% das mulheres relataram ter imaginado um encontro sexual com alguém que não fosse seu parceiro pelo menos uma vez nos dois meses anteriores.

Há quanto mais tempo os casais estivessem juntos, maior a probabilidade de ambos os parceiros relatarem essas fantasias.

Em outro estudo, psicólogos da Universidade de Washington e da Universidade da Carolina do Norte relataram que homens e mulheres casados que descrevem sua relação como "bastante feliz" tinham o dobro de probabilidade de trair do que os que disseram que seu relacionamento era "muito feliz".

Mas talvez um fator de risco mais forte para a infidelidade, segundo os pesquisadores descobriram, não esteja dentro do casamento, e sim fora: a oportunidade.

"As pessoas tendem a assumir que as pessoas más têm casos e as pessoas boas não, ou que os casos só acontecem nos casamentos ruins", disse Peggy Vaughan, uma pesquisadora de San Diego que dirige o website dearpeggy.com, e autora de livro a ser lançado sobre infidelidade e casamento "To Have and to Hold".

"Essas suposições simplesmente não se baseiam na realidade."

Em qualquer ano, cerca de 10% das pessoas casadas dizem que tiveram sexo fora do casamento. Esses números nada dizem sobre se os casos foram descobertos; mas os pesquisadores examinaram casais em que foram descobertos.

Em uma pesquisa, de 1.084 pessoas cujos cônjuges tiveram casos, Vaughan descobriu que 76% dos homens e das mulheres continuavam casados e viviam com o cônjuge anos depois. Pesquisas semelhantes descobriram índices de cerca de 65% ou mais.

Essas pesquisas dizem pouco sobre a dor privada e a luta que os casais enfrentam nos meses e anos depois de descobrir uma traição. Um bom número desses casais segue em frente mancando, esforçando-se para reparar a confiança abalada - e a dinâmica do casal muda para sempre, como milhões de pessoas podem confirmar.

Mas o investimento em um casamento que dura mais que alguns anos geralmente inclui mais que fidelidade. Os cônjuges compartilham histórias e objetivos, filhos e laços fortes com amigos e a comunidade.

E há alguns motivos para acreditar que nos últimos anos esses casamentos profundamente integrados se tornaram mais predominantes.

Por exemplo, uma das estatísticas mais comumente citadas sobre casamento é que a metade deles termina em divórcio. Mas esse número reflete o índice de divórcios esperado para as pessoas casadas nos anos 1970.

A história é diferente para casais que se uniram mais recentemente. Uma comparação de índices de divórcio em dez anos entre homens de formação superior casados nas décadas de 1970, 80 e 90 mostra que o divórcio está se tornando menos comum, disse Stevenson, a pesquisadora de Wharton.

Entre os homens que se casaram nos anos 70, por exemplo, cerca de 23% haviam se divorciado até o décimo ano de casamento. Entre os homens semelhantes casados nos anos 80, cerca de 20% tinham se divorciado até o décimo ano. Os homens casados nos anos 90 estão se saindo bem melhor, com um índice de divórcio de 16% em dez anos.

Os índices de divórcio entre aqueles que têm apenas educação secundária são mais altos, mas mesmo nesse grupo o divórcio está se tornando menos comum.

Entre os homens com educação secundária casados nas décadas de 70 e 80, cerca de 25% tinham se divorciado até o décimo ano. Mas entre os formados no colegial casados nos anos 90 o índice de divórcio em dez anos é de 19%.

As razões dessas mudanças, segundo alguns especialistas, é que muitos casais hoje estão adiando o casamento. E a idade importa. As pessoas que se casam depois dos 25 anos têm menos probabilidade de se divorciar do que as que se casam mais cedo, segundo estudos.

Homens e mulheres nascidos na década de 1930 que se casaram nos anos 50 têm o mais alto índice de casamento de qualquer geração - cerca de 96% se casaram.

Mas entre as gerações mais recentes o número caiu para cerca de 90%. Os dados sugerem que os relacionamentos mais fracos, que anos atrás poderiam ter resultado em um casamento seguido de divórcio, hoje terminam antes que o casal chegue ao altar.

Em suma, os casamentos parecem estar mais fortes desde o início. "Temos uma maior pressão da seleção para relacionamentos mais fortes", disse Stevenson.

"Isso faz parte da explicação para a queda do índice de divórcios. Alguns relacionamentos mais fracos estão terminando antes do casamento."

Algumas das mesmas mudanças sociais que abalaram os casamentos tradicionais nos anos 1950 aparentemente os reforçaram nas décadas de 1990 e 2000.

Hoje as mulheres contribuem mais financeiramente para o relacionamento do que nas gerações anteriores, e os homens contribuem mais para as tarefas domésticas.

Comparados com gerações anteriores, homens e mulheres hoje têm maior probabilidade de se casar com alguém parecido com eles mesmos, com uma história educacional semelhante, dizem especialistas. O relacionamento tem menos a ver com dividir os deveres econômicos e domésticos e mais com compartilhar interesses e a felicidade mútua.

"Pode ser que esses tipos de relações, pessoas que têm espíritos mais semelhantes, sejam mais capazes de enfrentar uma pequena tempestade", disse Stevenson. "Elas têm tanto em comum, investiram tanto juntas. Uma desavença é apenas uma coisa passageira, e torna-se mais fácil de superar."

A própria cultura está mais esclarecida sobre os custos do divórcio, apesar de e por causa de sua frequência. Hoje a maioria dos cientistas sociais, qualquer que seja sua convicção política, concorda que o divórcio, embora às vezes necessário, esgota financeiramente as famílias e muitas vezes é duro para as crianças.

Hoje muitos terapeutas aconselham os casais que enfrentam a infidelidade a não agir apressadamente, a trabalhar para a reconciliação durante pelo menos seis meses - o divórcio quase sempre é definitivo.

"Antigamente os terapeutas matrimoniais eram treinados para ser neutros sobre o casamento, para tentar descobrir o que fazia os indivíduos felizes", disse Diane Sollee, fundadora do smartmarriages.com, um banco de informações, e ex-diretora de educação profissional na Associação Americana para o Casamento e Terapia Familiar.

"Hoje mais terapeutas se consideram principalmente representantes do casamento."

E vale a pena notar que a maioria dos casais que foram humilhados publicamente - os Clinton, os Spitzer, os Edwards - até agora se mantiveram juntos.

Em uma declaração na semana passada, Jenny Sanford, mulher do governador Sanford, disse que recentemente pediu que seu marido saísse de casa, depois que descobriu que tinha um caso.

Mas também disse acreditar que o relacionamento ainda pode ser reparado. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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