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29/06/2009

Astronauta que andou na Lua agora quer ser famoso como pintor

The New York Times
Por James C. McKinley
Em Houston (EUA)
Faz quase 40 anos que Alan L. Bean andou sobre a Lua como astronauta da Apollo, mas ele ainda lida com a experiência todos os dias, tentando recapturar, através da pintura, o que ele e os outros astronautas viram e sentiram.

  • Astronauta Allan Bean, da Apollo 12, envolto por uma aura azul produzida por vapor emitido por instrumento contido na vestimenta espacial, durante viagem espacial a Lua

Tornar-se um pintor foi um trabalho exaustivo para Bean, que descreve a si mesmo como alguém de aprendizado lento. Ele teve de abrir mão da forma super-racional de ver o mundo que aprendeu como piloto de testes da marinha e engenheiro. Ele treinou a si mesmo para ver as coisas não como elas são mas como ele as sente, a traduzir emoções em cores e resistir aos seus instintos científicos.

"Quando eu saí da Nasa, coloquei na cabeça que eu não seria um astronauta que pintava, mas um artista que costumava ser um astronauta", disse ele. "Leva um tempo para mudar o coração."

A crítica ignorou Bean, 77, apesar de ele ter ganhado, em grande parte através do boca a boca, admiradores entre colecionadores particulares que pagam até US$ 175 mil por um de seus trabalhos. Em julho, o Museu Smithsonian do Ar e Espaço em Washington montará uma exibição com 45 obras de Bean e lançará um livro de reproduções de suas pinturas. Ele tem grande esperança de que o 40º aniversário do pouso na Lua possa atrair os críticos para darem uma olhada no seu trabalho.

A maioria dos 12 astronautas que caminharam sobre a superfície da Lua tornaram-se executivos da indústria aeroespacial, oferecendo sua experiência na Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos EUA.

Mas Bean sempre se diferenciou dos outros pilotos de caça que se transformaram em espaçonautas de sua época. Os astronautas eram conhecidos por terem hobbies como a caça, carros esportigos, golfe e esqui. Bean estudava arte, pintando naturezas-mortas entre as missões.

Ele começou a pintar em 1962, quando era piloto de testes da Marinha.
Num capricho, ele começou a fazer um curso de aquarela no St. Mary's College em Maryland, próximo de sua base. "Eu não era muito bom", diz ele. "Mas eu gostava."

Só no final dos anos 70 - muito depois de ele ter visitado a Lua na Apollo 12 - Bean percebeu que ele não se emocionava muito com temas de flores e frutas.

"Meus amigos astronautas começaram a dizer para mim: 'Bean, por que você continua pintando a Terra?", diz ele. "Você é o único artista que foi para um lugar que não é a Terra, e continua pintando a Terra.'"

"Num fim de semana eu não tinha nenhuma flor para pintar, e eu disse acho que vou pintar essa foto de Pete Conrad da Lua", lembra-se ele. "Então comecei a pintar e depois de duas horas eu disse: sabe, eu gosto disso tudo. Adoro roupas espaciais. Gosto dos módulos lunares. E na verdade eu não gostava tanto de plantas."

Então ele começou a pintar imagens das missões para a Lua, retiradas de fotografias, videotapes, histórias de outros astronautas e de sua própria experiência em novembro de 1969, quando ele e Conrad passaram sete horas e 45 minutos sobre a superfície da Lua.

Então, em 1981, depois de 18 anos como astronauta, Bean abandonou a função para pintar em tempo integral.

A decisão pegou de surpresa alguns colegas da Nasa. Afinal, ele era uma celebridade na agência espacial, com um currículo que contava
1.671 horas no espaço e o comando da missão Skylab. Mas havia pilotos mais jovens que sabiam controlar a nova nave espacial, disse ele, e só ele podia fazer as pinturas que ele queria fazer.

Nos anos 80, ele percebeu que não queria pintar a Lua apenas da forma como ela aparecia - uma paisagem monocromática de cinza, preto e branco, com a Terra surgindo no horizonte como um mármore azul e branco. Ele permitiu que cores impensáveis na Lua entrassem lentamente em seu trabalho.

"As pessoas falam sobre a natureza ser bonita, e é, mas não é harmônica como uma pintura", disse ele. "Se Monet pintasse o que ele via, nós não o admiraríamos hoje. Ele pintou um pouco do que via, mas pintou principalmente os seus sentimentos sobre isso."

Mesmo assim os métodos de Bean ainda refletem seu lado científico. Ele constrói um modelo em escala de cada cena que pinta, e usa um holofote para simular o sol e acertar as sombras. Ele trabalha o ângulo da luz e as posições das pessoas com precisão matemática. Ele quer que os detalhes sejam historicamente corretos.

Cada pintura conta parte de uma história, diz ele, e é uma história que ele acredita que apenas ele e outros astronautas que andaram na Lua podem contar.

"Isso é o que os seres humanos fazem quando vão pela primeira vez para outro mundo", diz ele, apontando para uma parede com suas pinturas em seu estúdio. Lá estão Pete Conrad pulando para bater os calcanhares e Jack Schmitt tentando descer esquiando um monte no meio da poeira lunar.

Há um autorretrato, com os braços erguidos em comemoração, com o sol brilhando no visor dourado. Em outro autorretrato ele tem um postura de aventureiro. "Mostra uma atitude pretensiosa", explica. "Acho que você precisa ser muito pretensioso para acreditar que pode viajar 390 mil quilômetros nesses pequenos veículos frágeis e voltar com vida."

Bean trabalha devagar, concluindo não mais do que sete pinturas por ano. Contando todas, ele finalizou 168 e espera viver o suficiente para fazer 200. Ele trabalha em sua casa modesta, onde normalmente seria a sala de estar, usando um avental de brim com seu selo da Apollo 12 costurado. Ele mora com sua mulher, Leslie, e uma velha cachorra Lhasa apso, Puff Wuff. Ele tem dois filhos já adultos de um casamento anterior.

Ele é filosófico quando perguntam por que a exploração espacial parou.
Ele e outros astronautas da Apollo imaginavam que o próximo passo seria uma estação na Lua, e depois uma missão a Marte, e depois mais longe. Mas a história acontece em ímpetos, observa ele.

"Passaram-se 128 anos entre a descoberta da América por Colombo e a chegada dos peregrinos", disse. "É assim que as coisas acontecem. Não vamos voltar para a Lua tão cedo, na minha opinião."

Hoje em dia ele se preocupa menos com o futuro do programa espacial do que com seu legado como pintor. Ele sonha com uma exposição em Nova York ou outra capital das artes.

"Meu objetivo foi fazer essas pinturas, e imaginava que minha mulher, Leslie, e minha filha, Amy, um dia tentariam torná-las conhecidas no mundo da arte", disse ele. "Então percebi que a melhor chance de torná-las conhecidas é enquanto estou por aqui e as pessoas querem falar comigo sobre isso."

Tradução: Eloise De Vylder

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