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29/06/2009

Febre do violino toma pequena cidade chinesa

The New York Times
Por Andrew Jacobs
Em Donggaocun (China)
Talvez a única coisa que desafie mais a audição do que uma sala cheia de violinistas iniciantes tentando tocar "Mary Had a Little Lamb" é uma sala cheia de violinistas iniciantes com instrumentos desafinados.

"Parem", gritou Chen Yiming para seus alunos, um grupo entusiasmado entre 8 e 47 anos. "Podemos, por favor, prestar atenção aos nossos instrumentos e nos certificarmos de que eles estão afinados corretamente?"

Depois de uma pequena pausa nos ajustes, a cacofonia retornou.

A febre do violino atingiu esse pacata cidade na zona rural com centenas de moradores, jovens e velhos, que seguram o arco enquanto Donggaocun tenta posicionar a si mesma como a capital de instrumentos de corda da China.

Antes conhecida principalmente por sua abundante colheita de pêssego, a cidade, a cerca de uma hora do centro de Beijing, tornou-se uma das maiores fabricantes de violoncelos, violas, violinos e baixos baratos. No ano passado, as nove fábricas e 150 pequenas oficinas produziram 250 mil instrumentos, a maioria dos quais foi parar nas mãos de estudantes nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.

Os patronos da cidade começaram a alardear que Donggaocun produz 30% dos instrumentos de corda do mundo, apesar de que outra cidade no sudeste da China, Xiqiao, diz o mesmo, talvez com mais crédito.

Feng Yuankai, da Associação de Instrumentos Musicais da China disse que Xiqiao, na província de Jiangsu, ainda é a maior produtora, mas que Donggaocun - que abriu sua primeira fábrica em 1988 - está chegando perto. "Mesmo com a desaceleração econômica a produção deles está crescendo muito rapidamente", disse ele, acrescentando que Donggaocun é responsável por menos de 20% do mercado de violinos da China.

Nem a competição acirrada nem a recente queda nos pedidos afetam as ambições de Donggaocun de se tornar a meca do violino na China. No mês passado, autoridades começaram a promover a criação de uma tração turística que eles chamam de primeiro "centro de experiência com instrumentos de corda" da China. Quando abrir, nesse verão, a Cidade Instrumento incluirá um museu de violinos "mundialmente famosos", uma sala de concertos de 500 lugares, uma fonte musical e o que o vice-prefeito descreve como uma "vila folclórica".

O festival da florada dos pessegueiros, nessa primavera, contou com um concerto de violino com mais de mil músicos no palco. Mesmo que tenham pedido para que cerca de metade dos músicos - aqueles muito inexperientes para o consumo do público - não tocassem, assistir ao concerto foi uma façanha auditiva.

Desde 2006, o departamento de educação local treinou 40 professores para se tornarem violinistas para que todas as escolas em Donggaocun e das comunidades vizinhas pudessem oferecer instrução musical. Os violinos se tornaram não apenas um motor do desenvolvimento econômico, mas elevaram a autoestima da cidade, disse Wang Junying, chefe de propaganda do departamento. "Eles nos ajudaram a transformar a cidade num lugar mais cultural e elegante", disse ela.

Os funcionários da Beijing Hongsheng Yun Violin Instruments Co. concordam em grande parte com essa afirmação. A maioria dos funcionários da fábrica costumavam trabalhar no mesmo lugar, uma fábrica de papel expelia uma fumaça nociva. Mas no esforço de limpar o ar de Beijing para os Jogos Olímpicos de verão em agosto passado, as autoridades fecharam a fábrica e investiram dinheiro do governo na produção de violino. Apesar de 200 trabalhadores terem perdido seus empregos quando a fábrica de papel fechou, as duas dúzias de pessoas que foram recontratadas pelas oficinas de violinos ganham quase duas vezes mais do que ganhavam antes.

Entre os benefícios da fábrica estão instrumentos gratuitos para os filhos dos empregados. "Os violinos nos deixaram mais ricos e aumentaram nossa consciência artística", disse Zhao Gangcai, que monta violinos seis dias por semana e cuja filha de 13 anos começou a tocar recentemente. "Os colegas de classe dela acham que é legal, e agora também querem aprender."

Alguns dos músicos mais promissores de Donggaocun acabam nas aulas ministradas por Chen, uma mulher de 28 anos com uma paciência além do normal que começou a tocar violino logo que começou a falar. Ela rejeita os relutantes e aqueles com dedos curtos, mas aceita alguns alunos adultos cuja determinação compensa por sua falta de talento puro. "Não quero alunos cujos pais os estejam forçando a tocar", diz ela.

Poucos alunos têm a mesma avidez de Song Wei, 47, uma professora de jardim de infância aposentada que trocou o acordeon pelo violino depois que seu marido e tio começaram a fazer instrumentos de corda.
Ela pratica uma hora ou duas por dia e vários amigos, também aposentados, também foram mordidos pelo bicho do violino, apesar de não ousarem tocar juntos. "O barulho seria insuportável", disse ela rindo. "Meu único objetivo é tocar uma bela música quando eu a ouço e me dar alegria."

Chen tem objetivos mais elevados. Ela espera transformar Donggaocun numa fábrica de talentos, apesar de ter alertado que os prodígios normalmente vêm de famílias com inclinação para a música - que, segundo ela, estão em falta na cidade da zona rural com 33 mil habitantes. "Quero que esse lugar produza músicas de classe internacional", disse.

Enquanto isso, ela está trabalhando com sua filha de um ano de idade. Há algumas semanas, ela colocou cuidadosamente um violino nas mãos da menina e os resultados foram encorajadores. "Ela sabe como segurá-lo agora", disse Chen. "Tomei isso como um bom sinal."

Tradução: Eloise De Vylder

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