UOL Notícias Internacional
 

29/06/2009

No conflito entre as Coreias, pescadores sentem a primeira fisgada

The New York Times
Por Martin Fackler
Na Ilha Yeonpyeong (Coreia do Sul)
Sentado em frente a sua casa, remendando uma rede de pesca com as mãos calejadas por anos de sobrevivência no mar, Kim Sang-jin lembra-se da última vez que a Coreia do Norte e do Sul se confrontaram militarmente no Mar Amarelo, próximo dali.

Foi há sete anos, e a artilharia dos navios de guerra na batalha que durou duas horas estava próximo o suficiente para estremecer suas janelas, fazendo com que ele e sua mulher fossem buscar refúgio.
Agora, com as tensões crescente desde o teste nuclear da Coreia do Norte no mês passado e as subsequentes sanções da ONU, ele disse que ele e outros moradores temem que uma nova batalha aconteça a qualquer momento perto dessa pequena ilha controlada pela Coreia do Sul, localizada perigosamente no litoral da hostil Coreia do Norte.

  • EFE/Jeon Heon-Kyun

    Barco militar sul-coreano Chamsuri patrulha a costa no Mar Amarelo, próximo da ilha de Yeonpyeong, Incheon, 200 quilômetros a noroeste Seul, em imagem feita no início deste mês

"Estamos sempre com medo, todos os dias", disse Kim, 66, que mora há duas casas do abrigo antibombas da vizinhança. "Mas você se acostuma a viver com medo."

À medida que um cargueiro norte-coreano suspeito de carregar armas proibidas se dirige para Myanmar com um destroyer da marinha norte-americana em seu encalço, as chances de confronto com o Norte - que disse que poderia considerar a interceptação um ato de guerra - estão aumentando. E os especialistas militares da Coreia do Sul dizem que essa ilha solitária, que também é reivindicada pela Coreia do Norte, é o lugar mais provável para um conflito, com o Norte possivelmente provocando um batalha limitada como parte de sua diplomacia arriscada com os Estados Unidos e outros países.

A ilha Yeonpyeong fica há apenas 3,2 quilômetros da chamada linha de limite do norte, uma extensão de água da zona desmilitarizada que divide as duas Coreias. Ela foi o cenário de duas batalhas mortíferas no mar na década passada.

Desde então, a Coreia do Sul enviou o primeiro de sua nova classe de navios com mísseis guiados "patrol killer", projetados especialmente para as pequenas batalhas navais a curta distância que aconteceram nessas águas. O navio, o Yoon Young-ha, foi batizado com o nome de um dos seis marinheiros sul coreanos mortos na segunda batalha, em 2002, vencida pelo Norte.

Com isso e com a tropa de cerca de mil soldados em estado de alerta, o Sul parece quase desejar uma guerra. Numa cerimônia recente para celebrar o 10º aniversário da primeira das duas batalhas navais aqui, quando o Sul disse que superou o Norte afundando dez de seus navios, o tenente comandante Kwon Young-il prometeu que, se o Norte atacasse novamente, "nós iremos afundá-los".

Muitos dos 1.600 moradores civis da ilha, a maior parte deles velhos pescadores, disseram que se sentem presos no meio da disputa. Mas eles também dizem que estão acostumados com o periódico aumento nas pressões, que eles descrevem como apenas mais uma parte da vida na ilha disputada.

A maioria diz que está determinada a continuar com seu trabalho cotidiano de operar seus barcos de pesca de caranguejo ou estender armadilhas de peixe ao longo da costa pedregosa da ilha.

"Não é a primeira vez que a Coreia do Norte testou mísseis e bombas", disse Kim Seung-ju, que lidera a filial local da cooperativa nacional de agricultura. "Isso não nos alarma."

De fato, com seus bunkers de concreto, armadilhas para tanques e linhas de trincheira, a ilha parece uma cápsula do tempo da Guerra Fria. Os moradores fazem simulações de ataques aéreos mensalmente e guardam máscaras contra gás em suas casas. Posteres nos restaurantes locais alertam os residentes para ficarem vigiando por navios espiões e submarinos da Coreia do Norte.

Desde o teste nuclear, a ilha renovou os estoques de seus 19 abrigos antibomba com água fresca e macarrão instantâneo.

Os visitantes da ilha são inspecionados na plataforma da balsa por policiais militares que buscam agentes norte-coreanos. Apesar de a ilha ficar a apenas 13 quilômetros da costa da Coreia do Norte, sua única conexão regular com o resto do Sul é uma viagem de balsa de 106 quilômetros e duas horas e meia.

Isso torna a ilha uma anomalia mesmo na Coreia do Sul, que ainda enfrenta o Norte ao longo da zona desmilitarizada altamente armada, mas onde algumas comunidades começaram a desmontar seus abrigos antibomba e armadilhas para tanques.

Muitos sul coreanos parecem ansiosos para esquecer seu vizinho beligerante ao norte numa corrida para padrões de vida cada vez mais altos, mesmo apesar de as duas Coreias continuaram tecnicamente em guerra há mais de meio século.

Enquanto os negócios acontecem tranquilamente na maior parte da Coreia do Sul durante o impasse nuclear, a tensão é perceptível em Yenongpyeong. Num sinal de agouro, os moradores dizem que muitos barcos de caranguejo chineses que anualmente pescam nessas águas foram embora, apesar de que não está claro se eles foram alertados pela Coreia do Norte ou simplesmente foram para casa porque a temporada de caranguejo acabou.

Ainda assim, alguns moradores e militares dizem que as tensões não estão tão grandes quanto nos anos 70, quando o Norte tentou reivindicar a ilha e enviou seus jatos para sobrevoá-la. Hoje, o sul parece muito mais confiante em sua superioridade material sobre o Norte empobrecido.

"Nós temos a tecnologia", disse o tenente general aposentado Kim In-sik, ex-comandante das Forças Navais sul coreanas, que visitou a ilha recentemente para apoiar o moral das tropas. "Mas ainda é possível que o Norte ataque essa área e aumente a pressão" como parte de sua estratégia de barganha mais ampla contra Seul e Washington.

Kim, o líder da cooperativa agrícola, disse que os moradores da ilha são anticomunistas ardorosos porque muitos delas, incluindo sua mãe, fugiram do Norte durante e depois da Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953. Ao mesmo tempo, esses laços com o Norte fazem com que ele e outros moradores sintam que nenhuma das Coreias quer outra guerra total.

De fato, eles dizem que os perigos aqui são frequentemente superestimados. Muitos moradores reclamaram que o aumento nas tensões espantou turistas e fez com que parentes preocupados ligassem para eles perguntando se eles insistem em viver num lugar tão arriscado.

Alguns moradores até reclamaram que os únicos invasores que viram foram as hordas de repórteres sul coreanos e equipes de televisão, que vão até eles à cada impasse com o Norte.

"Quando vemos as equipes de TV, sabemos que algo está acontecendo", disse Park Choon-geung, 49, capitão de um barco de caranguejo. "Do contrário, achamos que á vida é normal aqui."

Tradução: Eloise De Vylder

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