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29/06/2009

Velho estadista israelense, Peres tem agora verdadeira influência

The New York Times
Isabel Kershner
Jerusalém - Depois de 60 anos de altos e baixos na política israelense, incluindo dois períodos como primeiro-ministro, Shimon Peres provavelmente não esperava que sua carreira tivesse mais viradas surpreendentes.

Quando se tornou presidente do país há dois anos, um cargo normalmente considerado cerimonial por aqui, muitos israelenses assumiram que o homem conhecido por ser um articulador e sonhador perene iria se aposentar de forma elegante.

Em vez disso, Peres, 85, o último dos fundadores de Israel na ativa, parece ter renascido. Apesar de ter sido frequentemente zombado aqui no passado por perder eleições consecutivamente, e de ter conseguido menos respeito por suas visões políticas pacifistas no país do que no exterior, Peres está gozando de mais poder e aceitação pública do que nunca.

Com uma aparência jovial e vestido elegantemente, ele diz que agora tem uma "popularidade sem precedentes, que é quase embaraçosa para mim - não estou acostumado com isso".

Ele acrescentou que descobriu uma nova força, a "tremenda boa vontade do povo", que ele diz que pode ser "mais poderosa do que o governo".

Sua importância cresceu com a chegada de um governo predominantemente conservador em Israel e de uma crença inata entre os israelenses de que esses governantes, apesar de eleitos democraticamente, são prejudiciais à imagem do país - um sentimento que foi reforçado pela nomeação de Avigdor Lieberman, um nacionalista rude e franco, como ministro das relações exteriores.

Agora Peres, valendo-se de sua considerável influência de estadista experiente e de sua energia aparentemente ilimitada, está transformando a novidade da aceitação pública em uma vantagem prática.

"Em quase dois anos como presidente", disse ele numa entrevista em sua residência oficial no começo desse mês, "não ouvi a palavra 'não'".

Um sinal de seus incansáveis esforços veio nesse mês quando o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, do partido conservador Likud, finalmente concordou, apesar de algumas reservas, com a ideia de um Estado Palestino, um passo que foi bem recebido pela Casa Branca e que ajudou a atenuar a imagem de intransigência de Netanyahu no exterior.

Numa cerimônia de posse na residência presidencial em 1º de abril, primeiro dia de Netanyahu no poder, Peres incentivou o novo primeiro ministro a avançar com o processo de paz e lembrou-o de que a visão de dois Estados para dois povos foi "iniciada pelo governo americano e aceita pela maioria dos países do mundo."

Nas poucas semanas desde então, sob intensa pressão para se alinhar com Washington, Netanyahu passou muitas horas em discussões privadas com Peres, que foi eleito pelo parlamento para um termo de sete anos como presidente em junho de 2007.

"Não estou impondo nada a Netanyahu", disse Peres. "Acho que ele procura meus conselhos por vontade própria", acrescentou, descrevendo a si mesmo como um amigo.

Eles formam uma dupla um tanto estranha. Apesar de Peres ter no currículo a criação do programa de armas nucleares de Israel, os israelitas tradicionalmente o veem como um idealista da paz, enquanto Netanyahu é visto amplamente como um defensor agressivo da segurança.

Mas Peres, que dividiu um prêmio Nobel da Paz com os já falecidos Yitzhak Rabin e o líder palestino Yasser Arafat pelos acordos de paz de Oslo, é considerado mais versado nas coisas do mundo.

Num desvio impressionante das normas diplomáticas, Peres encontrou com o presidente Barack Obama em Washington antes de Netanyahu, para tentar facilitar o caminho. "Eu estava relutante", disse Peres, "não queria roubar a cena". Mas o primeiro-ministro insistiu, de acordo com Peres. Ele contou que disse a Obama que não estava falando em defesa do primeiro-ministro, mas sim com seu consentimento e sua bênção.

Quando Shakespeare foi traduzido para o hebraico pela primeira vez, lembra-se Peres, o "modesto tradutor" escreveu na introdução da obra que ela havia sido "traduzida e melhorada". Ao explicar a posição do governo israelense para Obama, Peres deu a entender que pode ter feito a mesma coisa.

Apesar de o presidente de Israel ser legalmente o chefe de Estado e o cargo não ter limitações, normalmente têm sido restrito a formalidades como nomear líderes eleitos para formar novos governos, enviar diplomatas, receber dignatários estrangeiros e perdoar ofensores.
Peres diz que o papel informal é o que conta na verdade.

Alguns podiam imaginar que esse ativismo de Peres irritasse o público israelense e fosse visto como interferência. Afinal, como líder do Partido Trabalhista, ele perdeu eleição atrás de eleição - incluindo uma votação parlamentar para a presidência em 2000 para um político do Likud bem menos importante, Moshe Katsav. Ele também já foi descrito como um "maquinador incansável" por seu parceiro político e rival, Rabin.

Ainda assim, a única crítica a suas ações veio de poucos ultranacionalistas, e mesmo assim foi relativamente branda.

"Todos entendem que ele é útil para o país", disse Clinton Bailey, acadêmico e comentarista israelense, citando "uma certa sensação de orgulho e satisfação que ele dá a todas as pessoas."

O colunista Ofer Shelah escreveu recentemente no popular jornal Maariv que as atitudes de Peres poderiam "causar revolta se fossem tomadas por outra pessoa".

Mas dada a propensão de Lieberman para "atear fogo verbalmente", observou Shelah, "o trabalho de relações públicas e de forjar relações com países estrangeiros será feito por Peres".

Peres também é visto como o restaurador da honra na presidência. Seu antecessor, Katsay, em breve deve ir a julgamento por acusações de estupro, atos indecentes e assédio sexual, enquanto o predecessor de Katsay, o finado Ezer Weizman, aposentou-se cedo em meio a acusações de fraudes financeiras.

Durante a entrevista, Peres continuou se referindo a David Ben-Gurion, o fundador do Estado de Israel e seu primeiro primeiro-ministro, que tomou o jovem Peres, nascido na Polônia, sob sua proteção quando este tinha 24 anos e depois o transformou em seu ministro de defesa.

"Eu admirava sua honestidade, sua profundidade, sua visão.
Pessoalmente ele me ajudou bastante", lembra-se Peres, acrescentando que Ben-Gurion deu a ele um tremendo apoio por razões que eram difíceis para ele compreender na época, apesar de hoje ele dizer que entende melhor.

Como protegido de Ben-Gurion, e talvez com a aspiração de ser lembrado como seu herdeiro, Peres sente-se vingado por ter tomado posições antes consideradas divisórias.

A aceitação de Netanyahu do princípio de dois Estados, diz ele, trouxe a esquerda israelense e a direita de volta ao ponto de partida, 70 anos depois que Ben-Gurion concluiu que não havia escolha a não ser aceitar um Estado judeu em parte do território, sancionando a divisão.

"O que finalmente venceu foi a realidade", disse.

Peres combina a experiência com curiosidade e um grande prazer pela inovação. Ele defendeu a nanotecnologia e o carro elétrico, e fala apaixonadamente sobre indústrias emergentes nas quais ele acredita que Israel poderia atingir a excelência, como a pesquisa de células tronco para produzir o que ele chama de "partes humanas substitutas", ou energias alternativas para contra-atacar o poder do petróleo.

O sol, diz ele, é "mais democrático, mais permanente e não é um membro da Liga Árabe ou de qualquer outra liga."

Ele diz que às vezes tem saudades do "período de luta" quando ele estava no centro do atrito político. Mais do que isso, entretanto, ele encontrou uma nova liberdade ficando de fora do rancor da política israelense.

"Na minha idade e na minha posição, não preciso de um bronzeado. Posso ficar na sombra, tranquilo. Não preciso competir."

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