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30/06/2009

Aguardando por Madoff, uma multidão enfurecida fica desapontada

The New York Times
Zachery Kouwe
Em Nova York
"Quanto você perdeu?"

"Quão longa será a pena dele?"

'Será que ele vai ser algemado?"

Uma multidão de repórteres, câmeras, vítimas e curiosos começou a se formar do lado de fora de um tribunal federal em Manhattan, ao amanhecer de segunda-feira, para um último vislumbre do homem que parecia definir uma era de ganância e fraude sem precedentes em Wall Street.

  • James Estrin/The New York Times

    Além dos protestos contra Madoff, manifestantes em frente ao tribunal levantaram cartazes contra a SIPC, organismo que segura os investidores em caso de falência das corretoras

Na verdade, elas estavam esperando por esse momento desde março, quando Bernard L. Madoff reconheceu que tinha promovido um vasto esquema de Ponzi (pirâmide financeira) que roubou de milhares de pessoas o que economizaram durante toda sua vida.

"Nós esperamos por uma grande sentença apenas como dissuasor", disse Cynthia Friedman, uma vítima da fraude de Madoff, a um grande número de repórteres antes da sentença ser anunciada. Friedman e seu marido, Richard, que perderam todas as suas economias com Madoff, passaram mais de uma hora dando entrevistas para os repórteres.

Mas se isso era um circo da mídia, uma versão de Wall Street do caso O.J. Simpson, seu astro principal estava longe dos olhares. Madoff estava em uma sala do tribunal no interior, após ter sido conduzido ao banco dos réus por uma passagem subterrânea. No final, a multidão ficou sem seu vislumbre de Madoff, cujo destino foi selado às 11h32 da manhã com uma sentença de 150 anos de prisão.

E apesar de ficarem desapontados pelo vilão não ter aparecido diante de todos, quando a decisão foi anunciada, o frenesi do lado de fora do Tribunal Distrital Federal na Worth Street cresceu de novo enquanto o veredicto era divulgado por todo o mundo -em chinês, francês, alemão, italiano, russo, espanhol e outras línguas.

A notícia se espalhou de forma igualmente rápida entre os que estavam em frente do tribunal. Algumas digitavam mensagens de texto e telefonavam para seus amigos. Fotógrafos e equipes de televisão se aglutinaram. Produtores de televisão disputavam as cerca de duas dúzias de vítimas que conseguiram ficar na presença de Madoff dentro do tribunal na segunda-feira, assim que começaram a deixar o prédio.

"Eu fiquei bastante surpreso", disse Dominic Ambrosino aos repórteres dentro do tribunal. "A sensação foi boa."

"Eu disse ao juiz que quando Bernard Madoff deixar a prisão, o que significa após sua morte, ele irá direto para as profundezas do inferno, onde se juntará às demais pessoas que estão nas bocas de Satã", disse Burt Ross, o ex-prefeito de Fort Lee, Nova Jersey, que perdeu US$ 5 milhões com Madoff, para a imprensa do lado de fora do tribunal.

Madoff "me descartou como um animal atropelado na estrada", disse Miriam Siegman, de Stamford, Connecticut, que falou na audiência.

Outra mulher que perdeu dinheiro no golpe, que estava apoiada em um andador com rodas, quase desmaiou enquanto estava cercada por repórteres que a bombardeavam de perguntas.

Em meio à agitação, turistas tiravam fotos com celulares. A polícia tentou conter as pessoas que se espalhavam pela rua. Um homem com uma estátua de um urso enjaulado e uma etiqueta que dizia "Bernard Madoff" pendurada no pescoço estava sentado em um carrinho do lado de fora do tribunal. Vários artistas vendiam pinturas e desenhos de Madoff no tribunal, com suas mãos em posição de oração enquanto estava sentado diante do juiz Denny Chin.

Mas não havia sinal dos investidores muito ricos, que perderam bilhões de dólares no golpe. A única celebridade vista foi Michael Imperioli, do seriado "Família Soprano", que apareceu entre a multidão de curiosos do lado de fora do tribunal.

Imperioli disse não ter sido vítima de Madoff, mas que estava pesquisando para um futuro projeto.

"Era surpreendente quão poucas vítimas estavam do lado de fora do tribunal. Quase todos eram da imprensa", disse Jennifer Rhodes, que mora nas proximidades e conhece várias vítimas do esquema de Madoff. "Há muita vergonha sentida quando se é vítima de um crime."

Apesar da satisfação com o veredicto, a maioria das vítimas que apareceram no local voltou sua atenção para quanto poderia ser recuperado a partir do que restou dos bens de Madoff.

Várias partiram para dar início à sua própria manifestação, a poucas quadras de distância, no tribunal na Foley Square, tendo como fundo uma escultura de 18 metros de altura chamada "Triunfo do Espírito Humano", de Lorenzo Price. Reunidas diante de cerca de 100 repórteres que os seguiam, a raiva delas passou das ações de Madoff para a Comissão de Valores Mobiliários (SEC), que criticavam por ignorar os sinais de alerta de fraude.

Elas também acusaram Irving H. Picard, o encarregado pelo tribunal de reunir o que restou dos bens de Madoff, de não cumprir a lei ao não atender suas reivindicações junto à SIPC (Securities Investor Protection Corporation), o organismo que segura os investidores em caso de falência das corretoras.

"A SEC falhou conosco", estava estampado na camiseta de um participante. Outros seguravam cartazes que diziam "SIPC = Fraude".

"A SEC não fez nada para fazer valer a Securities Investor Protection Corporation", disse Helen Davis Chaitman, uma aposentada que falou na manifestação. Chaitman está liderando um grupo de vítimas de Madoff que processaram Picard para mudar a forma como está calculando as indenizações.

"A SIPC é uma fraude", disse Stanley Hirschhorn, uma vítima de Madoff que veio de Manalapan, Nova Jersey, com sua esposa e filha para o sentenciamento. "A Goldman Sachs paga US$ 150 por ano em taxas para a SIPC e, se algum dia for descoberto que ela opera um esquema de Ponzi de US$ 2 bilhões, não haverá dinheiro suficiente para reembolsar a todos."

"Ninguém pode confiar na honestidade do setor de valores mobiliários", acrescentou Chaitman posteriormente. "Nós aprendemos isso com Madoff, Stanford e com o colapso econômico global causado pela ganância persistente de Wall Street", ela disse, se referindo a R. Allen Stanford, o bilionário do Texas que está envolvido em sua própria batalha legal, em meio a acusações pela SEC de que operou um grande esquema de Ponzi.

"Do nosso ponto de vista, a SEC é um desperdício de dólares dos contribuintes", acrescentou seu marido.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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