UOL Notícias Internacional
 

30/06/2009

Tropas norte-americanas deixam um distrito iraquiano onde a raiva persiste

The New York Times
Marc Santora
Em Bagdá
Quando os americanos montaram uma base no bairro de Ghazaliya, em Bagdá, há mais de dois anos, a primeira patrulha a pé deles durou 20 minutos. Avançando com dificuldade em meio ao esgoto, atiradores dispararam contra eles três vezes. Eles só percorreram quatro quadras.

Eles batizaram a base de Álamo.

Agora, enquanto os soldados americanos se retiram de postos avançados como estes como parte de um acordo de segurança que entra em vigor nesta terça-feira, a resistência final se aproxima do fim. A base, rebatizada de Cassino, se tornará parte de uma guarnição da Polícia Nacional iraquiana, enquanto três outras bases no bairro foram desmontadas ou entregues para as forças de segurança iraquianas.

Com os ataques no bairro caindo a uma fração dos níveis anteriores, há pouco o que fazer para as centenas de soldados de uma das últimas unidades de combate em Bagdá. Quando o tenente Brandon Stevenson, 25 anos, se juntou aos seus pares do exército iraquiano em uma rara patrulha conjunta em meados de junho, a única surpresa durante a caminhada de três horas foi encontrar um soldado iraquiano carregando um lançador de granadas propelidas por foguete em seu ombro -"para exibição", disse seu oficial de comando.

Neste bairro no oeste de Bagdá, é possível ver de perto a história do "aumento" da força dos soldados americanos.

Em comparação há dois anos, antes do aumento de tropas, os ganhos são notáveis, com os ataques em Ghazaliya menores do que em qualquer momento desde que os americanos começaram a monitorar a violência na cidade - de seis ou sete por dia no final de outubro para uma média de 1,77 por dia no mês passado, disseram oficiais militares americanos.

As escolas estão abertas, incluindo uma em que uma professora foi pendurada pelos pés e teve seu rosto arrancado por extremistas. Pela primeira vez desde o início da guerra, as principais ruas estão iluminadas à noite. Ruas antes tomadas por esgoto atualmente estão apenas mal cuidadas e repletas de lixo.

Mas sob a calma, as tensões sectárias originais que explodiram na guerra civil permanecem. Poucas famílias deslocadas se mudaram de volta para suas casas, com os xiitas vivendo na metade norte e os sunitas na metade sul. A responsabilidade pela segurança também é igualmente dividida -a Polícia Nacional é responsável pela área xiita e o exército iraquiano pela sunita.

"No momento, nós estamos equilibrados no corte da faca", disse Hamid Majeed, um sunita que falava perto dos escombros de uma mesquita xiita que foi explodida em 2006. "Nós não gostamos dos americanos, mas também agradecemos a Deus quando os vemos ao lado do exército iraquiano, porque sabemos que podemos confiar mais neles do que nas forças do governo."

Os ressentimentos e temores persistentes, presentes nas entrevistas com oficiais de segurança, moradores e ex-combatentes de ambos os lados da divisão sectária, ajudam a explicar por que a paz tênue ainda depende de uma grande demonstração de força - com quase um oficial de segurança iraquiano para cada quatro moradores. "Há grupos armados apenas aguardando a retirada dos americanos", disse o sargento Nasar Jubeir Mutar, da Polícia Nacional, citando relatórios da inteligência.

Bagdá continua sendo uma cidade fortaleza, e em Ghazaliya o simples número de pessoas trabalhando para as forças de segurança é impressionante.

Cenas da Guerra do Iraque

  • Ramzi Haidar/AFP

    21 de março de 2003 - Fumaça cobre o palácio presidencial e prédios públicos durante ataque contra o Iraque em Bagdá

  • Goran Tomasevic/Reuters

    9 de abril de 2003 - Estátua de Saddam Hussein é derrubada por moradores com a ajuda de soldados americanos na praça central de Bagdá

  • The Washington Post/AP

    6 de maio de 2004 - Fotos mostram soldados dos Estados Unidos humilhando prisioneiros iraquiano na prisão de Abu Ghraib em Bagdá, no Iraque

Há mais de 500 soldados do exército, 700 oficiais da Polícia Nacional e 400 membros do Despertar sunita, que se aliaram aos americanos para ajudar a restaurar a ordem por todo o Iraque, assim como várias centenas de policiais iraquianos comuns, a polícia secreta e policiais de trânsito armados.

Não há levantamento confiável do número de pessoas que vivem aqui, mas estimativas conservadoras o calculam em cerca de 13 mil. Ao longo de várias semanas visitando o bairro, parecia que cerca de 20% das casas permaneciam abandonadas.

Dois jovens, Ahmed, um xiita ligado à milícia local, e Aham, envolvido com os insurgentes sunitas locais, lembraram como as linhas de batalha sectária foram traçadas em torno da construção de uma mesquita xiita no sul de Ghazaliya, em 2004.

"Quando estavam construindo a mesquita, os extremistas no bairro alertaram que ela seria explodida", disse Ahmed, que se recusou a dizer seu sobrenome por medo de retaliação.

Foi o que aconteceu em fevereiro de 2004, e os xiitas promoveram sua vingança 10 dias depois, executando duas pessoas que acreditavam ser as responsáveis.

Ambos os lados concordaram que essa foi a fagulha que levou a uma guerra total pelo controle do bairro. Ghazaliya era estrategicamente importante para os combatentes sunitas, porque conta com a principal estrada para Bagdá que vem do oeste -onde os insurgentes sunitas mantinham muitas fortalezas.

"Originalmente, os xiitas foram forçados a deixar suas casas para que os sunitas pudessem controlar o acesso à estrada principal que levava a Ghazaliya", ele disse.

No início, a vantagem era dos sunitas, que assumiram o controle de quase todo o bairro. Mas em 2006, uma reverenciada mesquita xiita em Samarra sofreu um atentado à bomba e dias depois o templo xiita reconstruído em Ghazaliya foi destruído pela segunda vez.

"A paciência tinha acabado", disse Ahmed. As milícias xiitas intensificaram o recrutamento, usando líderes de quadra para convocar quase todos os jovens em idade de combate.

Eles começaram a retomada do bairro, expulsando as famílias sunitas. Em janeiro de 2007, estava claro que o lado sunita estava perdendo.

Aproveitando o desespero dos insurgentes sunitas, combatentes estrangeiros conseguiram se entrincheirar no bairro. Esses combatentes, que Ahmed disse estarem alinhados com a Al Qaeda na Mesopotâmia, um grupo insurgente sunita local que a inteligência americana diz ter liderança estrangeira, eram não apenas brutais no combate aos xiitas, mas também no controle dos moradores sunitas.

Quando os americanos estabeleceram sua base, de cara eles se depararam com a professora na escola sunita, que foi estuprada, assassinada, mutilada e pendurada pelos pés para que todos vissem.

"Ela era uma professora inglesa e a Al Qaeda achou que isso significava que ela era uma espiã dos americanos, então quis que ela servisse de exemplo", disse o outro jovem, Aham.

Apesar dos moradores sunitas locais estarem cada vez mais incomodados com as táticas brutais, eles não ousavam pedir a proteção das forças de segurança iraquianas, porque eram vistas como uma extensão das milícias xiitas.

Assim, após os americanos estabelecerem seu posto avançado em janeiro de 2007, eles conseguiram convencer a maioria dos sunitas locais a trabalhar com eles, como parte do Despertar sunita.

O coronel Ra'ad Ali, um ex-oficial das Forças Especiais de Saddam Hussein, disse que um grupo de ex-oficiais abordou cautelosamente os americanos. "Se alguém fosse à base e se sentasse com um americano para conversar, eles diriam que ele era um espião e o matariam", ele disse. "Então, todo dia quando vamos, nós pegamos seis ou sete pessoas do bairro para que sirvam de testemunha."

Ao longo dos últimos dois anos, os americanos cultivaram esses contatos iniciais e forjaram laços profundos com muitos no bairro, tanto sunitas quanto xiitas.

Confiar essas fontes de inteligência às forças iraquianas é um dos grandes desafios ainda diante do capitão Matthew Todd.

Os americanos estão repassando todos seus contatos, mas como não revelam as identidades de suas fontes, eles devem ajudar a promover um elo entre elas e as forças de segurança iraquianas -um desafio contínuo, já que o governo xiita acredita que muitas milícias sunitas são pouco mais do que um disfarce para os insurgentes.

"Eu não quero a presença de nenhum deles na minha força", disse o capitão Ishan Falah Hassan, da Polícia Nacional. "Na minha opinião, e esta não é a opinião do governo, muitos deles deviam estar presos."

Ele disse que a estratégia americana de pagar para eles fazerem pouco mais do que deixarem de atacá-los foi inteligente, mas é hora desse sistema chegar ao fim.

Ainda assim, ele teme a existência de redes de extremistas aguardando para atacar. Na semana passada, as forças iraquianas realizaram uma batida no bairro e prenderam um homem que alguns altos oficiais iraquianos disseram estar envolvido no assassinato de um importante político sunita no Iraque, Harith al-Obaidi, em um possível sinal de luta interna pelo controle do bloco sunita.

"As células terroristas estavam dormentes e estão prontas para atacar", disse Hassan. "Muitos dos bandidos foram eliminados, mas há muito mais aguardando."



Duraid Adnan contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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