UOL Notícias Internacional
 

02/07/2009

Guerra no Paquistão tem uma nova frente: ajuda aos refugiados

The New York Times
Jane Perlez e Pir Zubair Shah
Em Qasim Pula (Paquistão)
As caridades islâmicas e os Estados Unidos estão competindo pela lealdade dos 2 milhões de deslocados pela luta contra o Taleban em Swat e outras partes do Paquistão -e, até o momento, os islâmicos estão vencendo.

Apesar dos Estados Unidos serem os maiores contribuintes para o esforço de ajuda humanitária da ONU, as autoridades paquistanesas se recusaram a permitir que aviões ou funcionários americanos entregassem a ajuda nos campos para os deslocados. Os paquistaneses não querem se ver associados ao seu aliado impopular.

Enquanto isso, na ausência de uma ajuda eficaz por parte do governo, as caridades islâmicas radicais estão usando a crise dos refugiados para promover sua agenda anti-Ocidente e voltar a opinião pública contra a guerra e os Estados Unidos.

Na semana passada, uma multidão de homens, os chefes das famílias expulsas de Swat, se reuniu aqui nesta aldeia no noroeste do Paquistão para receber a ajuda para suas famílias desesperadas. Mas antes que pudesse receber uma lata de óleo de cozinha, o diretor de ajuda de uma caridade islâmica anti-Ocidente tirou proveito de dispor de uma platéia cativa, exortando os homens a aderirem à jihad.

"As organizações ocidentais gastam milhões e bilhões em planejamento familiar para destruir o sistema familiar muçulmano", disse o diretor de ajuda, Mehmood ul-Hassan, que representava a Al Khidmat, uma poderosa caridade do partido político fortemente antiamericano Jamaat-e-Islami.

O esforço ocidental fracassou, ele disse, mas os paquistaneses devem demonstrar sua força aderindo à luta contra os infiéis.

A insistência das autoridades para que os americanos permaneçam praticamente invisíveis revela as tensões que persistem no relacionamento entre os Estados Unidos e Paquistão, mesmo enquanto a cooperação melhora na luta contra o Taleban e cresce o apoio público à guerra no Paquistão.

Mas os grupos radicais islâmicos e jihadistas trabalham abertamente no campos.

"Devido à falta de agências internacionais, há um vácuo preenchido por agentes que são radicais islâmicos e, mais que isso, jihadistas", disse Kristele Younes, uma importante defensora da Refugiados Internacional, um grupo de Washington especializado em questões de refugiados.

Um dos grupos de caridade jihadistas mais proeminente , o Jamaat-ud-Dawa, foi impedido de entrar nos campos, segundo o general Nadeem Ahmad, o chefe do grupo de gestão de desastres do exército paquistanês. O grupo jihadista foi denominado organização terrorista pelo Conselho de Segurança da ONU em dezembro.

Todavia, ele estabeleceu operações em Mardan sob um novo nome, Falah-e-Insaniyat, segundo Himayatullah Mayar, o prefeito de Mardan. Após a ordem para deixar a área, o Falah-e-Insaniyat passou a atuar clandestinamente, disse Mayar.

Os sinais de força organizacional e cofres robustos das caridades islâmicas são fáceis de ver nos campos, frequentemente contrastando com a falta de serviços oferecidos pelo governo.

Por exemplo, o Al Khidmat, o grupo de Hassan, conseguiu trazer cirurgiões oftalmológicos do Punjab para trabalhar em uma clínica de olhos gratuita para os deslocados, oferecendo operações de catarata e óculos.

"Hospitais públicos são inexistentes aqui, de forma que podemos tratar não apenas os deslocados, mas toda a comunidade", disse um dos cirurgiões, o dr. Khalid Jamal.

Enquanto isso, Hassan estava ocupado checando as novas escolas temporárias, as clínicas de saúde e quatro ambulâncias atuando 24 horas implantadas pela Al Khidmat.

Todo dia, ele disse, ele supervisiona pessoalmente a distribuição de alimentos em três locais diferentes -às vezes em uma casa, às vezes em um campo. Até o momento, ele disse, ele já cobriu 400 das 450 aldeias próximas da cidade de Swabi.

Ele disse que antes da comida ser distribuída, ele sempre faz sua exortação à jihad.

Em comparação, apesar de uma quantidade substancial de ajuda americana chegar a quem precisa, ela não é rotulada como sendo americana, e as autoridades paquistanesas insistem que ela seja entregue de modo "sutil", disse Ahmad.

O general disse ter dito às autoridades americanas que haveria uma reação "extremamente negativa" caso os americanos fossem vistos distribuindo ajuda, particularmente se fosse entregue por aeronaves militares americanas.

"Eu disse que não poderiam voar em Chinooks, nem pensar", disse Ahmad, se referindo aos helicópteros militares americanos. Os Estados Unidos, ele disse, são vistos como "parte do problema".

Uma posição não notada no assento traseiro não é o que as autoridades americanas desejavam. Inicialmente, o grande êxodo de pessoas de Swat, muitas das quais vítimas da brutalidade do Taleban, parecia representar uma oportunidade para Washington melhorar sua imagem no Paquistão.

"Há uma oportunidade para realmente fornecer serviços, como fizemos durante a ajuda humanitária após o terremoto, que teve um impacto profundo na percepção da América", disse o senador John Kerry, democrata de Massachusetts e presidente do Comitê de Relações Exteriores, durante uma audiência da qual participou o emissário especial do governo Obama, Richard C. Holbrooke, no início do êxodo.

Em um esforço para acentuar a preocupação americana com os refugiados, Holbrooke visitou os campos em junho, sentando-se no chão de uma tenda e conversando com as pessoas sobre suas dificuldades. "O presidente Obama nos enviou para ver como podemos ajudar vocês", ele disse.

Um resultado da viagem foi um esforço para envio de médicas paquistanesas-americanas para prestar assistência às mulheres nos campos, que segundo suas tradições culturais devem ser tratadas por mulheres.

Segundo o Departamento de Estado, os Estados Unidos prometeram US$ 110 milhões em ajuda logística e alimentar. No final de maio, à medida que a crise se desdobrava, o Departamento de Defesa enviou vários voos para o aeroporto de Islamabad carregados com refeições prontas, tendas com controle ambiental e caminhões de água.

Mas a idéia de recuperar a popularidade com um grande show de assistência americana, na escala da ajuda humanitária após o terremoto na Caxemira em 2005, foi rejeitada, e não apenas pelos paquistaneses.

Organizações não-governamentais americanas no Paquistão desencorajaram entregas ostentosas de ajuda por parte do governo americano, porque o sentimento antiamericano era muito grande e o risco à segurança dos americanos nos campos era alto demais, disse o chefe de um dos grupos, que falou sob a condição de anonimato por causa da sensibilidade da questão. Havia muitos talebans nos campos de deslocados, e eles acreditam que os militares paquistaneses os estão combatendo em Swat por ordens de Washington, disse o chefe.

As restrições à assistência americana são claras nos campos e em aldeias como esta, no interior próximo de Mardan e Swabi, onde famílias paquistanesas abriram suas casas para um grande número de deslocados.

As autoridades americanas e seus consultores mal conseguiam se deslocar para além dos campos de refugiados mais visíveis, montados ao longo da estrada principal entre Islamabad e Peshawar, disse Mahboob Mahmood, um empresário paquistanês-americano que visitou a área para ajudar a encontrar formas de trazer ajuda substancial adicional.

"Eles foram quase que completamente neutralizados", ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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