UOL Notícias Internacional
 

04/07/2009

Nos dias chuvosos, há menos homicídios em Nova York

The New York Times
Andrew W. Lehren e Christine Hauser
Em Nova York (EUA)
Em 26 de agosto de 2006, algo de incomum aconteceu na cidade de Nova York.

Era um sábado em pleno verão, aquele tipo de dia no qual há em média mais de dois homicídios na cidade. Mas a polícia não registrou nenhum assassinato.

Uma outra coisa aconteceu naquele dia: choveu.

De fato, uma análise feita pelo New York Times sobre a chuva e os homicídios nos últimos seis anos demonstra que, quando chove substancialmente no verão, há menos assassinatos.

Quando não há precipitação, a média de homicídios é de 17 a cada dez dias. Mas quando há uma polegada (2,54 centímetros) ou mais de chuva, essa média cai para 14 assassinatos a cada dez dias.

Isso não surpreende Vernon J. Geberth, um ex-comandante de uma equipe de investigação de homicídios no bairro do Bronx. Ele afirma que, quando chovia forte, os policiais às vezes faziam a seguinte piada: "O melhor policial do mundo está trabalhando hoje à noite".

A diferença é ainda maior quando se analisa somente os sábados de verão. São estas as ocasiões em que se registra o maior número de homicídios durante o ano. Quando não há chuva, a quantidade média de homicídios para cada sequência de dez sábados no verão aumenta para 24. Mas para cada sequência de dez sábados com pelo menos uma polegada de chuva, o número médio de assassinatos cai para 18.

Esses números poderão ser uma boa notícia para a cidade, já que este verão de Nova York começou com o segundo maior índice de pluviosidade já registrado em um mês de junho, segundo meteorologistas da Universidade do Estado da Pensilvânia.

Com pouco mais de 200 homicídios ocorridos até agora neste ano, a cidade está prestes a registrar o número anual de assassinatos mais baixo desde o início da década de sessenta. Os primeiros dias de julho prometem o mesmo tempo úmido, com possibilidade de chuvas todos os dias.

A diferença no número de homicídios em dias chuvosos é mais pronunciada no verão do que em outras estações. E, quando há menos chuva, há mais assassinatos. Por exemplo, quando o patamar de pluviosidade cai para meia polegada (1,27 centímetros) ou mais, a quantidade média de homicídios a cada dez dias sobe para 15. E quando, há menos de meia polegada de chuva, o índice é igual àquele registrado quando não há chuva alguma.

A análise feita pelo New York Times baseia-se na comparação da pluviosidade diária na cidade com dados referentes a homicídios obtidos junto ao Departamento de Polícia de Nova York, cobrindo o período de 2003 a 2008.

Alguns criminologistas advertem que é preciso ter cuidado para não enxergar coisas demais nessas diferenças. Ellen G. Cohn, professora da Universidade Internacional da Flórida, que examinou a relação entre condições climáticas e crime durante mais de duas décadas, diz que o impacto da chuva sobre o crime "não é grande". Embora não tenha analisado os dados referentes a homicídios em Nova York, ela afirma que a chuva não tende a ser um forte elemento para a previsão de assassinatos nos Estados Unidos.

Alguns estudos revelaram que outros crimes, como agressão qualificada, caíram quando chovia. Cohn diz que um dos motivos para isso pode ser o fato de as agressões geralmente envolverem pessoas que não se conhecem, e a chuva reduzir a probabilidade de que tais pessoas se encontrem.

Segundo Geberth, que trabalhou durante a epidemia de crack na cidade na década de oitenta, essa teoria é parte da realidade nas ruas da cidade de Nova York. "Com tempo bom, há mais gente na rua", diz ele. "Uma pessoa estranha a outra, e logo alguém é insultado".

Mas ele acredita que essa lógica também se aplica aos homicídios. "Não é muito difícil ser morto em certos bairros. Tudo o que é preciso é olhar da forma errada para a pessoa errada, e pronto, algo é desencadeado e o resultado é uma loucura".

Ele acrescenta: "Nos dias de mau tempo, as pessoas têm menor probabilidade de esbarrarem com outras com as quais estão chateadas devido a um desentendimento ocorrido no dia anterior".

Cohn diz que, em nível nacional, é menos provável que os assassinatos envolvam pessoas que não se conhecem. E a chuva não impede os homicídios domésticos, que geralmente ocorrem dentro de casa. Também é improvável que a precipitação pluviométrica impeça a ocorrência daqueles assassinatos vinculados a desentendimentos de indivíduos envolvidos com o tráfico de drogas.

Steven Messner, professor de criminologia da Universidade do Estado de Nova York em Albany, que estuda os homicídios ocorridos na cidade de Nova York, concorda que é é improvável que a chuva detenha muitos assassinos. "As pessoas ajustam-se ao clima", diz ele. "Elas pegam guarda-chuvas e saem. Os seres humanos são adaptáveis".

Outros fatores podem ter também uma influência. A chuva geralmente gera temperaturas mais frias, e nos dias mais frios existe uma tendência de menos homicídios, o que, segundo Messner, poderia explicar a queda do número de assassinatos.

Além do mais, a chuva pode dificultar o desvendamento dos casos de homicídio por parte dos detetives. As evidências são apagadas pela água.

"Lembro-me de um dia em que estava no meio de uma tempestade, com um corpo no meio da rua, e tentava descobrir o que havia acontecido", diz Geberth. "Dependendo da intensidade da chuva, nós perdemos material. Há uma perda de fluidos corporais e de cápsulas de munições. Materiais como o DNA passado para o corpo através do toque e fibras de cabelos são dissipados pelos elementos".

Além disso, pode ser difícil encontrar testemunhas em dias de mau tempo. Um número menor de pessoas sai de casa. E aquelas que estão nas ruas geralmente estão distraídas ou procurando abrigo.

Edward C. McDonald, 42, que trabalhou no departamento de homicídios no Bronx, diz que só consegue se lembrar de ter trabalhado uma vez com homicídio em dia de chuva. O assassinato foi cometido perto do Estádio Yankee, em 2005, quando um indivíduo com uma arma saiu de um veículo e atirou em um homem que estava em um carro estacionado em fila dupla no Grand Concourse.

Ainda que a área fosse movimentada, com vários estabelecimentos comerciais por perto, e o assassinato tivesse ocorrido pouco depois de um jogo, a polícia teve dificuldade em encontrar testemunhas.

"Eu estava de pé, vigiando a cena do crime e ficando ensopado", conta McDonald. "As pessoas entravam em táxis. Não havia testemunhas, não porque as pessoas tivessem visto o que ocorreu e não desejassem falar, mas porque todos estavam tão concentrados na chuva e em sair de lá que ninguém viu nada".

"Até mesmo para as pessoas nas lojas do outro lado da rua teria sido difícil ver o que ocorreu em meio à chuva torrencial", diz ele.

"O outro lado da moeda é que, se você sair em um belo dia de verão, poderá ver pessoas fazendo piqueniques nos parques, e ficará claro que algo irá acontecer", diz McDonald. "Todos estão se divertindo, as pessoas começam a beber, velhas rixas reemergem e a cerveja faz com que os indivíduos comecem a brigar".

E para aqueles que esperam que uma boa chuva pelo menos reduza o número de homicídios, é bom levar em conta o seguinte: em Nova York não há muitos dias de verão com pelo menos meia polegada de chuva. Isso é algo que só ocorre cerca de uma vez a cada 20 dias.

Tem-se apenas a impressão de que chove mais.

Tradução: UOL

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