UOL Notícias Internacional
 

05/07/2009

"Plantação" de antenas parabólicas alimenta as conexões globais dos sul-coreanos rurais

The New York Times
Choe Sang Hun
Em Yeongju (Coreia do Sul)
Lee Si-kap, um fazendeiro tímido que mora nessa cidade do centro da Coreia do Sul, é dono de um recorde: ele tem mais antenas parabólicas do que qualquer outro sul-coreano - 85 delas, recebendo mais de 1.500 canais de televisão via satélite de mais de 100 países, alguns de lugares tão distantes quanto a África do Sul e Canadá.

Para os passantes, a casa de Lee se destaca como um ponto de exclamação no cenário comum do interior, salpicado de pomares de maçãs e campos de ginseng. Antenas parabólicas cobrem seu telhado como cogumelos de aço gigantes. Elas se espalham por seu jardim da frente e florescem na área atrás de sua casa, algumas com até 5 metros de diâmetro.

  • New York Times
Antes considerado como o excêntrico do vilarejo, Lee surgiu recentemente como um herói de fama modesta, mostrado na televisão nacional como o "homem-antena". Desde o ano passado, ele e milhares de colegas entusiasmados com os satélites - incluindo maridos com esposas estrangeiras e algumas almas dedicadas a buscar sinais de formas de vida extraterrestres - começaram uma campanha para instalar antenas parabólicas gratuitas para as esposas pobres que vivem na Coreia do Sul rural, para elas receberem transmissões de seus países de origem.

"Graças a Lee, eu não sinto mais tanta falta do meu país, da minha mãe e meu pai como antes", disse Bui Thi Huang, uma esposa de 22 anos de Haiphong, Vietnã, que vive em Yeongju, a cerca de 160 quilômetros ao sudeste de Seul.

Nos últimos anos, o interior da Coreia do Sul presenciou um aumento de esposas vindas de países mais pobres como o Vietnã, China e Filipinas.
Como Bui, elas se casam com fazendeiros sul-coreanos que têm dificuldade de encontrar esposas porque muitas mulheres sul-coreanas rejeitaram a vida rural e migraram para as cidades.

Em cidades como Yeongju, essas jovens esposas se tornaram o alicerce da economia local. Elas trabalham junto com os maridos nos campos e trouxeram de volta um som que estava rapidamente se tornando uma memória distante entre a população rural em envelhecimento daqui: o choro dos bebês.

Na Coreia do Sul, que antes se orgulhava de ser uma sociedade homogênea, quatro entre dez mulheres que se casaram em comunidades rurais no ano passado são nascidas no estrangeiro. Só em Yeongju, o número de mulheres estrangeiras aumentou 28% no último ano e meio, para 250, metade delas vindas do Vietnã.

"Essas mulheres têm dificuldade em se adaptar. Os governos locais, e os maridos, normalmente se concentram apenas em torná-las 'coreanas', ensinando-as a língua e como usar o computador", disse Lee, 39, que nunca se casou. "Eles não entendem muito como essas mulheres se sentem isoladas."

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Quando Lee, que vive com sua mãe de 80 anos de idade e com seu avô de 97, não está brincando com seu equipamento de satélite, ele cuida de seus campos de pimenta e gergelim ou passeia por vilarejos próximos para ver se alguma esposa estrangeira está tendo problemas com sua recepção de TV.

Lee e seus amigos ainda encontram objeções dos maridos que estão determinados a protegerem suas esposas estrangeiras de qualquer lembrança de suas terras natais, por medo de que isso apenas aumente suas saudades de casa. Mas eles são encorajados por muitas famílias que dizem que assistir as transmissões via satélite de seus países na verdade ajuda as mulheres a superarem a solidão e se ajustarem melhor à vida aqui.

Lee diz que sua simpatia pelas esposas estrangeiras vem em parte de sua própria experiência de se sentir isolado da sociedade.

Ele se sentiu profundamente magoado quando seu pai abandonou ele e sua mãe quando ele era pequeno, e, sem autoconfiança, ele teve dificuldade em fazer amigos no bairro e na escola. Ele raramente saía do vilarejo, e disse que ainda tem medo de fazer telefonemas.

O que o salvou, disse ele, foi a "música - e a televisão via satélite".

"A música era minha única amiga", disse Lee, cujo sonho é conhecer seu ídolo, o cantor de heavy metal norte-americano Ronnie James Dio. "E como era difícil ver rock na televisão coreana, eu fui buscar a televisão via satélite."

A televisão via satélite o introduziu a um mundo mais amplo - ao beisebol japonês, à vida nas ilhas do Pacífico, à música folclórica russa e às religiões da Índia e do Nepal.

Ele instalou sua primeira parabólica em 1992, quando tinha 23 anos e já havia voltado à atividade rural depois de se formar em eletrônica.
Colecionado parabólicas de segunda mão se tornou desde então um hobby que chega perto da obsessão. Quando a maioria dos fazendeiros daqui olha para o céu, eles leem as nuvens para prever o tempo. Quando Lee o faz, diz que imagina os satélites em órbita da terra. Para ele, o ar está cheio de sinais de transmissão, "como sementes voadoras".

Os fazendeiros daqui primeiro não sabiam o que pensar de seu vizinho solteiro, que ouvia música heavy metal, cantando em voz alta as letras em inglês e às vezes em japonês. Eles o viam no telhado sob o sol forte do verão ou sob o céu estrelado de inverno, durante horas mexendo em seu equipamento.

Apesar de não compreender a maioria das línguas das transmissões que recebe, Lee diz: "Isso vira um vício. Quanto mais parabólicas você tem, mais canais você consegue receber."

"Nada se compara à alegria de captar um novo canal de um país distante", diz ele. "É como pescar um peixe grande. É a excitação de descobrir algo além das fronteiras de seu mundo habitual."

Tradução: Eloise De Vylder

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