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05/07/2009

Rússia luta para manter sua influência, mas vizinhos resistem às iniciativas do Kremlim

The New York Times
Por Ellen Barry
Em Moscou (Rússia)
Em tese, essa deveria ser a vez da Rússia na luta pelo seu quintal. Durante todo o ano, apesar de seus próprios espasmos econômicos, Moscou destinou grandes quantidades de dinheiro a seus empobrecidos vizinhos pós-soviéticos, em busca de assegurar a lealdade deles a longo prazo e restringir a influência do Ocidente na região.

A Rússia e seus vizinhos

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Mas os vizinhos parecem ter outras ideias. Belarus - para quem a Rússia prometeu US$ 2 bilhões de ajuda - está em rebelião declarada contra o Kremlin, alardeando sua preferência pela Europa, enquanto também recebe dinheiro do Fundo Monetário Internacional. O Uzbequistão juntou-se a Belarus recusando-se a assinar o acordo das Forças Coletivas de Reação Rápida, uma ideia que Moscou vê como um eventual contrapeso à Otan.

Há outros exemplos, como o Turcomenistão, que assinou em maio um acordo de exploração de gás com uma companhia alemã, e a Armênia, que concedeu uma grande honra nacional para o presidente Mikhail Saakashvili da Geórgia, inimigo de Moscou. Mas o maior exemplo aconteceu na semana passada, quando o Quirguistão - que deveria receber US$ 2,15 bilhões de ajuda russa - voltou atrás numa decisão que era vista como um golpe por Moscou, permitindo o uso militar da base aérea Manas, no país, por forças dos EUA.

"Um jogo de apostas se desenvolveu no espaço pós-soviético: quem consegue enganar melhor o Kremlin?" escreveu o analista militar Aleksandr Golts, quando a notícia da decisão de Manas veio à tona. "Que resultado brilhante para os quatro anos de esforços diplomáticos da Rússia!"

Há poucos projetos que importam mais para a Rússia do que restaurar sua influência sobre as antigas repúblicas soviéticas, cuja perda, para muitos em Moscou, ainda é tão dolorosa quanto a sensação de um membro amputado. A competição pela Geórgia e Ucrânia levaram as relações entre Moscou e Washington para uma baixa pós-Guerra Fria, e o assunto deve ser central nas conversas que começarão na segunda-feira entre o presidente russo Dmitri Medvedev e o presidente Barack Obama.

A capacidade da Rússia de atrair seus vizinhos para seu lado e mantê-los lá é inexpressiva. Os métodos do Kremlim têm sido reativos e com frequência agressivos, combinando incentivos como concessão de dinheiro ou energia barata com ameaças de sanções comerciais e cortes no fornecimento de gás natural.

A guerra na Geórgia parece ter prejudicado Moscou. Em vez de estarem fadadas a obedecer, como a maioria dos observadores ocidentais temiam, as ex-repúblicas soviéticas parecem ter se tornado ainda mais protetoras de sua soberania. Além disso, os próprios líderes se fortaleceram por jogar a Rússia e o Ocidente - e em alguns casos, a China - um contra o outro, apesar de isso não ter trazido estabilidade ou prosperidade para seus países.

Na chamada zona de interesses privilegiados de Moscou, em outras palavras, a Rússia é apenas mais um competidor.

"Não existe lealdade", disse Oksana Antonenko, integrante sênior do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, sediado em Londres.
"A rivalidade é a dinâmica que persiste. Eles têm de jogar esse jogo, para competir."

A mudança de posição do Quirguistão em relação a Manas é um caso típico de negociação astuta. As autoridades russas, incluindo Medvedev, disseram que aprovaram a decisão, e isso pode ser verdade, mas o presidente do Quirguistão Kurmanbek S. Bakiyev foi quem saiu com o que queria.

Moscou queria que a base, um local de trânsito essencial para a guerra liderada pelos EUA no Afeganistão, fosse fechada; o Quirguistão queria mais dinheiro. Em fevereiro, Moscou parecia ter conseguido um golpe de
mestre: numa coletiva de imprensa para anunciar a promessa de ajuda russa de US$ 2,15 bilhões, Bakiyev disse que os Estados Unidos teriam que deixar Manas em seis meses.

Os primeiros pagamentos russos - uma transferência emergencial de US$ 150 milhões e um empréstimo de US$ 300 milhões a juros baixos - chegaram em abril, permitindo que Bakiyev pagasse salários e pensões à medida que começava sua campanha pela reeleição. Então, o Quirguistão chocou a região ao anunciar um novo acordo com os Estados Unidos.

Washington pagará mais do que o triplo do aluguel pela base - agora chamada de "centro de trânsito" - aumentando seu pagamento anual de US$ 17,4 milhões para US$ 60 milhões, enquanto contribui com mais US$ 50 milhões em depósitos para o governo. Ninguém sabe se o Kremlim cumprirá com o resto de sua promessa.

Bakiyev "jogou com os russos, depois jogou conosco", disse Alexander A. Cooley, professor associado de ciência política no Barnard College que falou sobre a disputa de Manas em seu livro de 2008 "Base Politics". "Tudo se resume a conseguir o máximo que eles puderem."

Isso deveria ser mais fácil para a Rússia, que é muito superior a seus vizinhos da Eurásia tanto em tamanho quanto em riqueza. A Rússia retém sua presença militar em mais de metade das antigas repúblicas soviéticas, e uma enorme parte de suas populações dependem da mídia russa para obter notícias. A Rússia pode oferecer uma assistência forte nas eleições, como na Moldova, que acabou de receber um auxílio russo de US$ 500 milhões, semanas antes de os eleitores irem às urnas para eleger o novo parlamento.

Mas a estratégia russa para consolidar o apoio nas capitais vizinhas mal pode ser chamada de estratégia. O presidente de Belarus, Alesandr Lukashenko, que está avidamente buscando parceiros ocidentais, tem sido recompensado e castigado por Moscou - que primeiro prometeu US$ 2 bilhões de ajuda, depois o censurou duramente por sua política econômica e o puniu com um boicote agressivo sobre as importações de produtos derivados do leite, depois recompensou-o com a retirada do boicote. A Rússia vê a truculência de Lukashenko como um blefe.

"Ele está fingindo uma disputa com a Rússia até que o Ocidente demande mudanças sérias em seu regime, momento em que ele, é claro, desistirá", disse Konstantin F. Zatulin, membro da câmara baixa do parlamento russo e defensor das ambições da Rússia no antigo espaço soviético. "É apenas sua linha ambiciosa de comportamento", disse ele.

Mas os exemplos vão muito mais longe. Todos os países pós-soviético capazes de administrar a situação estão buscando uma "política multivetorial", disse Zatulin. Ele disse não estar aborrecido com o afastamento dessas nações em relação à Rússia, mas há um limite para sua resposta.

"O que eu ganho me decepcionando?", disse Zatulin. "O orgulho vêm antes da queda. Esses países são fracos, dependentes e pobres, e querem atrair atenção para si mesmos - não apenas atenção, mas ajuda. Não posso criticá-los por isso. Mas há alguns limites que não deveriam ser ultrapassados."

Aí está o problema: o apelo da Rússia para eles simplesmente não parece muito sedutor. Idealmente, ela apresentaria um modelo atrativo para seus vizinhos, política e economicamente. As gerações jovens aprenderiam russo por vontade própria, e as alianças pós-soviéticas seriam clubes para os quais seus vizinhos fariam fila para participar.

De qualquer forma, Moscou terá de usar outras ferramentas além de transferências de crédito se deseja emergir da crise financeira como um bloco político sólido. Conforme disse Alexei Mukhin, diretor do Centro para Informação Polícia, sem fins lucrativos, "o amor comprado com dinheiro não dura muito tempo."

"Isso é amor comprado", disse ele. "Não é muito confiável."

(Tradução: Eloise De Vylder

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