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06/07/2009

Torcer, torcer, torcer e comer enguia

The New York Times
Por Ingrid K. Williams
Hanami, ou assistir à florada das cerejeiras, é ironicamente chamado de esporte de espectador mais popular do Japão. Na verdade, esse título pertence ao beisebol. Mas "espectador" é um termo impróprio, porque assistir a um jogo de beisebol no Japão envolve uma participação ativa e entusiástica.

  • NYT
Numa tarde de domingo de abril, lá estava eu, apertada numa cadeira da arquibancada superior do Tóquio Dome para assistir à maior rivalidade do beisebol japonês - a versão japonesa da disputa entre os Yankees de Nova York e o Red Sox de Boston. Os Youmiuri Giants enfrentariam o visitante Hanshin Tigers, cujos torcedores devotados representavam quase metade da multidão de cerca de 44 mil pessoas no estádio lotado.

Logo que o jogo começou, também começou a torcida organizada. Liderados por capitães de torcida na arquibancada descoberta próxima ao campo, os torcedores gritavam, cantavam e brandiam tacos de plástico a cada lançamento ou rebatida. Seu ruído ensurdecedor e sincronizado dominava o estádio. Cada tacada desencadeava uma explosão de gritos ainda mais altos e acenos frenéticos com toalhas.

"É uma manifestação de perfeccionismo", disse Robert Whiting, autor de vários livros sobre a cultura japonesa e o beisebol. "Se você quer ser um torcedor, precisa ir até o fim."

Mesmo assim os torcedores do time no campo mantinham um silêncio respeitoso, interrompido apenas por uma exuberante onda de aplausos depois de cada out. Jogadas questionáveis nunca eram vaiadas. Nenhum sarcasmo era entoado quando os jogadores erravam. Esses torcedores irradiavam apenas amor por seus times.

  • NYT
Amor e uma reserva inesgotável de energia. Depois de 12 innings de jogo - e 4 horas e 36 minutos de torcida incessante - o placar ainda estava empatado, 6-6. Foi quando todos os torcedores guardaram sua parafernália e silenciosamente deixaram o estádio. Fim de jogo.

A falta de resultado foi irritante. Mas no Japão, os empates não são incomuns, porque os jogos terminam depois de 12 innings - com vitória, derrota ou empate. O jogo ao qual eu assisti era apenas o nono do Giants na temporada, mas já era seu segundo empate.

Do contrário, as regras do jogo para os doze times da liga Nippon Professional Baseball, equivalente japonesa da Major League Baseball, são em grande parte iguais às americanas. Assim como nos Estados Unidos, há duas ligas principais no Japão, a Pacific League, que permite a escolha do rebatedor, e a Central League, que não permite.

A temporada regular acontece do começo de abril a outubro, com cada time jogando 144 vezes, em comparação a 162 nos EUA. Ela é seguida por finais que culminam num campeonato em série, chamado de Nippon Series, no começo de novembro.

Os Giants foram os campeões da Central League no ano passado, mas perderam a série final para o Saitama Seibu Lions da liga Pacific, por
4 jogos a três.

Mesmo os visitantes que não se interessam muito pelo esporte propriamente dito perceberão que assistir a um jogo de beisebol no Japão oferece uma visão esclarecedora sobre a cultura japonesa e uma oportunidade para saborear algumas curiosidades culinárias. Barracas autorizadas ao redor do estádio oferecem uma variedade estonteante de opções de comida - muitas das quais são totalmente impossíveis de se identificar aos olhos destreinados dos estrangeiros.

Um item reconhecível, entretanto, é a onipresente caixa "bento".
Empilhadas de forma organizada ao lado de fotos de seus conteúdos, as caixas podem conter praticamente tudo - sushi, tofu, enguia grelhada, bolinhas de arroz com ovo, e pickles de vegetais são apenas algumas das possibilidades.

Bolas de purê frito são um substituto saboroso das batatas fritas, mas os mais ousados podem optar por takoyaki, pequenas bolas de massa recheadas de polvo. Cachorros quentes também estão à venda, mas é muito mais divertido luta para comer uma tigela de noodles com pauzinhos. E se o sorvete Baskin-Robbins soar muito familiar, alguns de seus sabores com nomes estranhos - como o refrescante Popping Shower [algo como chuva explosiva] (de menta) - não são.

Para completar a experiência degustativa, experimente beber um pouco de saquê ou uísque.

As longas filas que são comuns nos quiosques de comida dos estádios americanos não existem aqui. Talvez isso aconteça porque o Japão tenha as garotas da cerveja.

Subindo e descendo as arquibancadas com barris de cerveja presos às suas costas, as jovens sorridentes facilmente identificadas por seus uniformes coloridos e bonés combinando (para não mencionar os shorts tão curtos quanto possível). Com um menear de cabeça sutil para Daisuke Matsuzaka, um jogador favorito no Japão agora atuando nos Estados Unidos, uma garota vendendo cerveja Asahi - e praticamente brilhando em seu uniforme laranja, verde limão e azul royal fluorescente - trazia uma toalha dos Red Sox presa à camiseta e meias vermelhas na altura do joelho combinando.

Para o benefício das garotas da cerveja e dos torcedores, apitos estridentes anunciavam cada jogada válida, depois da qual os oficiais correm para o lugar do impacto para checar se há ferimentos. Os assentos perto do campo vêm até com capacetes protetores e luvas.

Esforçando-se ainda mais para acomodar a todos e não irritar ninguém, o estádio tem salas para fumantes, fechadas com vidro, com televisões mostrando o jogo. E para o entretenimento durante os intervalos entre os innings, as líderes de torcida do Giants, com luvas brancas e polainas cor de laranja faziam acrobacias e dançavam no campo.

Poucos dias depois do empate em Tóquio, assisti a um jogo do Tigers contra o Chunichi Dragons no estádio Hanshin Koshien, o mais antigo do país, inaugurado em 1924. Situado nos arredores de Osaka, o Koshien estava lotado com os torcedores locais, que transformaram a tradição do sétimo inning num evento espetacular. Depois de encher alegremente balões gigantes em forma de taco de beisebol - um alongamento para os pulmões e não para as pernas [faz parte da tradição do esporte os torcedores se alongarem durante o sétimo intervalo] - a multidão soltou os balões coloridos de uma só vez, produzindo um efeito impressionante.

O ex-lançador do Yomiuri Giants Hideki Okajima, que agora joga com Matsuzaka para o Red Sox, descreveu o estádio Koshien como um "lugar festivo" numa recente troca de e-mails (conduzida com a ajuda de um tradutor). Ele disse que enquanto jogava para o rival Giants, ele "quase que temia visitar Koshien por causa dos torcedores de lá. Quando os rebatedores do Tigers estão na base, os torcedores não param de cantar, tocar tambores e balançar as bandeiras."

E o jogo a que eu assisti não foi diferente. Confirmando sua reputação barulhenta, a torcida criou uma atmosfera inebriante, como um carnaval.

Dois innings depois, quando os Tigers venciam por 4-3, a multidão ofereceu uma outra exibição de balões, igualmente impressionante. Conforme os jogadores comemoravam no meio do campo marrom escuro, de terra, os torcedores gritavam e os balões subiam por toda a arquibancada como fogos de artifício. Nessa noite, havia muita alegria em Mudville.

Onde encontrar cerveja, garotas e balões

A versão inglesa do site oficial da Nippon Professional Baseball, www.npb.or.jp/eng, tem um calendário com todos os jogos de 2009 e informações sobre os 12 times.

Onde assistir

O Yomiuri Giants joga no Tóquio Dome (1-3 Koraku, Bunkyo-ku, Tóquio), e seu último jogo em casa na temporada regular deste ano será em 27 de setembro.

O Hanshin Tigers joga no estádio Hanshin Koshien, fora de Osaka (1-82 Koshien-cho, Nishinomiya), e seu último jogo em casa na temporada regular será em 20 de setembro. Os balões podem ser comprados no estádio.

O Tokyo Yakult Swallows joga do outro lado da cidade em relação aos Giants, no estádio Jingu (3-1 Kasumigaoka-machi, Shinjuku-ku, Tóquio). Seu último jogo em casa na temporada regular será em 30 de setembro.

Comprar ingressos

Apesar de ser possível comprar ingressos no dia do jogo, diretamente nos estádios, os jogos dos Giants e dos Tigers normalmente esgotam, então é recomendado que os visitantes comprem os ingressos antecipadamente.

Para os jogos dos Giants em casa, é possível comprar os ingressos pela internet e imprimi-los em casa, no site gticket.e-tix.jp/en/ticket_pc_en.php (em inglês). Os preços vão de 1.700 ienes para as arquibancadas descobertas, cerca de US$ 17,35 [com 98 ienes para um dólar], até 5.900 ienes (US$ 60) para as cadeiras atrás da base principal.

Em geral, os ingressos para os outros times custam um pouco menos. Eles podem ser adquiridos antecipadamente nos guichês dos estádios ou em lojas de conveniência (incluindo FamilyMart, 7-Eleven, Lawson e ampm), em várias máquinas, algumas difíceis de identificar e todas elas em japonês. Mas se você apresentar a informação relevante escrita em japonês (incluindo a data, o local, os times e assento de preferência), os funcionários normalmente ficam felizes em ajudar a usar qualquer quiosque de ingressos que esteja na loja.

Tradução: Eloise De Vylder

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