UOL Notícias Internacional
 

08/07/2009

Após rebeliões, Pequim aplica lições aprendidas com o controle da mídia

The New York Times
Michael Wines
Em Pequim (China)
Após as manifestações sangrentas do domingo na região ocidental de Xinjiang, o governo central da China tomou várias medidas inusuais para que a versão oficial dos acontecimentos fosse tida como revelação incontestável: ele degradou o funcionamento do serviço de Internet, bloqueou micro-blogs do Twitter, retirou dos sites de busca as referências à violência não aprovadas pelas autoridades e saturou a mídia chinesa com notícias sancionadas pelo Estado.

O governo tomou também a mais incomum das medidas: horas após as tropas terem esmagado as manifestações, nas quais 156 pessoas teriam sido mortas, o Estado convidou jornalistas estrangeiros para uma visita oficial a Urumqi, capital de Xinjiang e o local em que ocorreu a rebelião - a fim de manter os repórteres que chegavam informados sobre os acontecimentos.

É uma reação bem diferente daquela exibida por Pequim 11 anos atrás diante da violência étnica em Xinjiang, quando as autoridades isolaram uma cidade inteira e recusaram-se a informar o que aconteceu ou quantas pessoas morreram. E isso reflete lições aprendidas com a repressão militar no Tibete, 17 meses atrás. Embora jornalistas estrangeiros tenham sido proibidos de visitar o Tibete, tanto àquela época quanto agora, as autoridades chinesas obtiveram apoio interno ao culparem agitadores estrangeiros pela rebelião, mas foram bastante condenadas no exterior.

À medida que a Internet e outros veículos contestam a versão chinesa, a China está utilizando novos métodos, não só para suprimir as notícias negativas na fonte, mas também para distorcer quaisquer versões que não lhes interessem e que escapem do seu controle.

"Eles estão ficando mais sofisticados. Eles aprenderam com erros passados", afirma Xiao Qiang, professor adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que monitora atentamente as tentativas do governo de controlar o fluxo de informações.

Os especialistas chineses sem dúvida estudaram as chamadas revoluções coloridas - na Geórgia e na Ucrânia, bem como os protestos do mês passado no Irã - para entender as maneiras como a Internet e os aparelhos de comunicação móvel ajudaram os manifestantes a organizarem-se e comunicarem-se com o mundo externo, e descobrir o que os governos fizeram para neutralizar esses meios de comunicação.

No Tibete, os chineses apoiaram a versão governamental de que a violência na região consistia de uma tentativa do exilado Dalai Lama de fragmentar a nação. Mas a imagem internacional da China ficou prejudicada depois que os dissidentes tibetanos transmitiram imagens da violência para o mundo externo obtidas com as suas câmeras de celular, e as autoridades proibiram praticamente todos os estrangeiros de entrarem na região supostamente pacífica.

Vídeos feitos com telefones celulares e publicados na Internet durante a convulsão social no Tibete levaram o governo a bloquear o YouTube na época, uma tática que foi repetida em antecipação ao aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, no mês passado. O YouTube continuou bloqueado nesta semana. As autoridades estão destruindo sistematicamente antenas parabólicas por toda a região, eliminando desta forma a recepção de estações de televisão e rádio estrangeiras não censuradas.

Nesta semana, em Urumqi, a resposta oficial a uma das rebeliões mais violentas em décadas seguiu duas rotas divergentes. Internamente, os censores controlaram rigidamente a cobertura jornalística dos protestos e tentaram desativar as redes sociais que os seus oponentes poderiam utilizar para organizar mais manifestações. Ligações de telefones celulares para Urumqi e áreas vizinhas foram em sua maioria bloqueadas. O Twitter foi bloqueado em todo o país no início da tarde da segunda-feira. Um sistema chinês equivalente, o Fanfou, estava funcionando, mas as buscas relativas a Urumqi foram bloqueadas.

Os dispositivos chineses de busca não respondiam mais a pesquisas relacionadas à violência. Resultados de uma busca no Google na segunda-feira para o termo "rebelião em Xinjiang" consistiam de vários links que já haviam sido retirados do ar em fóruns chineses de alto tráfego na Internet como o Mop e o Tianya.

A televisão estatal tem se concentrado principalmente, mas não totalmente, em cenas da violência dirigida contra a maioria étnica chinesa Han. Os sites chineses de notícias publicam relatos oficiais da rebelião, mas os leitores geralmente são impedidos de publicar comentários.

Como no Tibete, a responsabilidade pela violência tem sido atribuída a agitadores externos que desejam dividir a China - neste caso, o Congresso Mundial Uighur, um grupo exilado cuja presidente, Rebiya Kadeer, é uma empresária uighur que atualmente mora nos Estados Unidos.

Matérias da agência estatal de notícias afirmam que as autoridades chinesas interceptaram conversas telefônicas vinculando Kadeer aos manifestantes. O grupo exilado condenou a violência e nega ter exercido qualquer papel no sentido de estimular as manifestações.

Pelo menos aparentemente, a abordagem do governo em relação ao mundo externo tem sido bastante diferente. Na manhã da segunda-feira, o Departamento de Informação do Conselho de Estado, a mais importante agência governamental de relações públicas, convidou jornalistas estrangeiros a visitarem Urumqi para cobrir os protestos em primeira mão.

Os jornalistas que chegavam eram levados de ônibus até o hotel no centro da cidade, onde o salão da mídia oferecia aos fotógrafos discos compactos contendo fotografias, vídeos e trechos de imagens televisivas obtidos pelas organizações estatais de notícias. Os repórteres foram orientados a participar de uma coletiva à imprensa na manhã da terça-feira para receberem informações atualizadas sobre a situação.

Esses serviços fazem parte da lista de táticas que as organizações ocidentais, da Casa Branca aos grandes grupos empresariais, utilizam para tentar transmitir a sua mensagem aos jornalistas visitantes. Mas pelo menos parte das similaridades acaba aí: em Urumqi, os jornalistas foram informados de que não poderiam fazer entrevistas por contra própria, longe dos funcionários governamentais. Outros detalhes além das notícias aprovadas pelas autoridades eram raros.

Até mesmo essa pequena abertura representa um distanciamento da tradição do governo de reagir com silêncio a notícias desagradáveis. Mas, assim como no Ocidente - argumenta Xia, da Universidade de Berkeley -, o objetivo continua sendo controlar tudo aquilo que é divulgado.

"O governo revelou aquilo que aprendeu quando lidou com a situação do Tibete", diz ele. "No caso do Twitter ou da internet, ao se depararem com demasiados fatores que são incapazes de controlar inteiramente, eles retiram ou bloqueiam tais sistemas. Mas, em se tratando de jornalistas estrangeiros, eles sentem que enquanto puderem manter essas pessoas sob controle, os objetivos do governo poderão ser mais bem atendidos".

Tradução: UOL

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