UOL Notícias Internacional
 

10/07/2009

Uma chance para EUA e Rússia

The New York Times
Mikhail Gorbachov*
Em Moscou
Os últimos anos foram um período bastante difícil nas relações entre os Estados Unidos e a Rússia. Durante esses anos magros, os problemas permaneceram não resolvidos e, o que é ainda pior, a confiança mútua sofreu um mergulho em parafuso. Como resultado, ambos os lados às vezes agiram sem pensar nas consequências, que foram sentidas não apenas nos Estados Unidos e na Rússia, mas também em outros lugares.

A recente visita do presidente Barack Obama à Rússia foi o primeiro passo na direção de uma saída do estado de impasse nas nossas relações.

Antes da visita, muitos especialistas americanos afirmavam que as relações com a Rússia estavam longe da lista de principais prioridades do governo americano. Aqui, alguns chegaram até a dizer que uma "guerra fria é boa para a Rússia". Tendo isso como fundo, o simples fato da visita ter ocorrido pode ser considerado um sucesso.

Seria uma ilusão, é claro, esperar grandes resultados tão cedo, após os longos anos de relações estagnadas. Mas seria um erro subestimar o que foi realizado tanto nas etapas preparatórias quanto durante a visita. Esses primeiros passos são significativos.

Eles incluem um acordo sobre a estrutura do futuro tratado para redução de armas estratégicas ofensivas. Neste contexto, a reafirmação da inter-relação entre essas armas e a defesa antimísseis foi um feito notável. Ao aceitá-la, o governo Obama enviou um sinal importante.

Um acordo foi acertado para retomada dos contatos entre militares russos e americanos, que pode vir a ser uma contribuição importante para reconstrução da confiança mútua.

Nessas questões, os Estados Unidos mostraram sinais de uma postura mais realista. Por sua vez, a Rússia deu um passo sério ao concordar com o trânsito por seu território de equipamento de combate americano a caminho do Afeganistão. Dada a quantidade de carga envolvida, este acordo exigiu o estabelecimento de um grande número de questões técnicas e legais difíceis. O fato de terem sido resolvidas mostra prontidão para combater o terrorismo com atos, não apenas com palavras.

Esses primeiros acordos são importantes, mas não menos consequentes foram as declarações feitas pelos líderes dos dois países durante a visita. O presidente Obama disse que os Estados Unidos não tentariam solucionar unilateralmente problemas prioritários, como o combate ao extremismo violento e a prevenção da disseminação de armas nucleares. Em seu discurso, ele disse que os Estados Unidos querem trabalhar ao lado da Rússia em outros países tanto quanto bilateralmente. Isso foi bastante notado aqui, pois ainda resta muita desconfiança dos dois lados quanto às intenções dos dois países, particularmente no que é chamado de "espaço pós-soviético". A mudança dessas posturas será difícil, mas é preciso começar em algum momento.

Como vejo, uma área onde os Estados Unidos e a Rússia poderiam iniciar um diálogo útil é nas relações com a Europa. Isso poderia ajudar a desenvolver a ideia, apresentada pelo presidente Dmitry Medvedev, de um novo tratado de segurança pan-europeu. De fato, a estrutura da segurança na Europa só pode ser desenhada se nossos dois países estiverem entre seus arquitetos. Um diálogo sério é, portanto, necessário.

Como parte de sua visita a Moscou, o presidente Obama fez um esforço especial para engajar um amplo espectro da sociedade russa. Ele demonstrou uma capacidade de escutar e buscou persuadir seus ouvintes de que nossos dois países têm interesses comuns e valores compartilhados. Eu espero que os contatos do presidente com o público russo contribuam para um melhor entendimento do ambiente em que nosso país está em sua transição para a democracia.

Resumindo: há claramente uma atmosfera mais favorável entre os Estados Unidos e a Rússia, assim como alguns resultados iniciais deste primeiro encontro. Como dizem: um bom começo é meio caminho. Mas eu sei por experiência o quão difícil o meio caminho restante pode ser.

Então agora vem a parte difícil: a consolidação de uma nova atmosfera por meio de uma atuação em todas as áreas de relações mútuas. O sucesso deve exigir trabalho de ambos os lados. É encorajador saber que os dois presidentes chefiarão uma comissão conjunta para guiar e supervisionar este trabalho.

O novo curso das relações russo-americanas enfrentará resistência de vários setores. Também há o risco de que o novo relacionamento possa ficar atolado na inércia e na rotina. Os dois presidentes devem exercer vontade política para impedir que as negociações de assuntos importantes degenerem em um cabo-de-guerra interminável.

Os resultados que podem obter se realmente investirem no novo relacionamento fazem o esforço valer a pena. Em um mundo onde riscos temíveis e imprevisíveis estão se acumulando diariamente, a Rússia, com seus recursos intelectuais e naturais, e os Estados Unidos, com seu poder e influência, devem cooperar. Os benefícios se acumularão para eles, assim como para o restante do mundo.

As oportunidades perdidas e erros dos últimos anos são um legado difícil de superar. Mas, à medida que a Rússia e os Estados Unidos estabelecem um novo curso, a promessa merece uma chance.

*Mikhail Gorbachov é ex-presidente da antiga União Soviética

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,28
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,29
    64.676,55
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host