UOL Notícias Internacional
 

12/07/2009

Assassinatos revelam o crescimento de outra insurgência no Paquistão

The New York Times
Por Carlotta Gall
Em Turbat (Paquistão)
Três líderes políticos locais foram sequestrados em um pequeno escritório legal aqui em abril, algemados, vendados e jogados numa camionete que os esperava, na frente de seu advogado e de comerciantes locais. Seus corpos, cheios de balas e em estado avançado de decomposição por causa do calor abrasador, foram encontrados num bosque de tamareiras cinco dias depois.

Os moradores locais estão convencidos de que os assassinados foram obra das agências de inteligência paquistanesas, e as mortes ofereceram um novo motivo de revolta por todo o Baluquistão, uma grande e agitada província no sudoeste do Paquistão, onde o governo enfrenta mais uma insurgência.

Apesar de não ter a mesma escala da insurgência Taleban no noroeste, o conflito no Baluquistão está pouco a pouco ganhando terreno. Políticos e analistas alertam que ele apresenta uma segunda frente que distrai as autoridades, atraindo os recursos, como helicópteros, que os Estados Unidos forneceu ao Paquistão para lutar contra o Taleban e a Al Qaeda.

Nacionalistas do Baluquistão e alguns políticos paquistaneses dizem que o conflito na região tem potencial para dividir o país - o Baluquistão tem um terço do território do Paquistão - a menos que o governo responda urgentemente aos anos de ressentimento reprimido e detenha a ação dos militares e os serviços de segurança.

Centenas, talvez milhares, de baluquistaneses foram capturados por um regime severo de detenções secretas e tortura sob o governo do presidente Pervez Musharraf, que deixou o poder no ano passado. Grupos de direitos humanos e ativistas baluquistaneses dizem que essa violência continuou sob o governo do presidente Asif Ali Zardari, apesar das promessas de sanar as tensões.

"É muito volátil", disse Nawab Zulfiqar Ali Magsi, governador do Baluquistão. "Quando você tenta pacificar as pessoas à força, elas reagem."

A descoberta dos corpos dos homens em 8 de abril desencadeou dias de violência, e semanas de greves, protestos e resistência civil. Nas escolas e faculdades, os estudantes rasgaram a bandeira paquistanesa e colocaram em seu lugar a bandeira nacionalista do Baluquistão, azul clara, vermelha e verde.

As crianças ainda se recusam a cantar o hino nacional nas reuniões, e em vez disso cantam uma música nacionalista baluquistanesa que defende a luta armada pela independência, disseram pais e professores.

Pela primeira vez, as mulheres, tradicionalmente segregadas na história do Baluquistão, juntaram-se aos protestos nas ruas contra a continuação das detenções de personalidades nacionalistas. Pichações nos muros em torno da cidade pedem a independência e luta armada, que persiste em boa parte da província.

A oposição nacionalista surgiu em resposta ao que ela vê como a anexação à força do Baluquistão pelo Paquistão há 62 anos quando o país foi criado. Mas a maior parte do ressentimento popular se origina de anos de marginalização econômica e política, coisa que Zardari prometeu remediar, mas fez pouco para de fato resolver.

Nas entrevistas, as pessoas dentro e em torno de Turbat dizem que os militares e as agências de inteligência do Paquistão ainda estão perseguindo obstinadamente os simpatizantes nacionalistas.

Um caso em evidência, segundo elas, é o das três personalidades políticas que foram mortas: Gul Muhammad, Lala Munir e Sher Muhammad, todos eles importantes dentro do movimento nacionalista.

Funcionários do governo disseram que os homens estavam sendo processados por atividades contra o Estado, mas negam qualquer envolvimento com suas mortes. As pessoas não estão convencidas, e dizem que apesar de os homens apoiarem a independência, eles não estavam envolvidos no conflito armado.

Mir Kachkol Ali, advogado dos três, que testemunhou seu sequestro, disse que as mortes representam um aprofundamento na campanha dos militares paquistaneses para esmagar o movimento nacionalista baluquistanês. "Suas táticas não são apenas a tortura e a detenção, mas também a eliminação", disse.

Os insurgentes, que dizem ser liderados pelo Exército de Libertação Baluquistanês, também reforçaram suas táticas. Um exemplo eminente foi o sequestro, em fevereiro, de um cidadão norte-americano, John Solecki, chefe da organização de refugiados da ONU na capital provincial, Quetta.

O sequestro foi realizado por um grupo revolucionário de jovens radicais que queriam atrair a atenção internacional para sua causa e trocar seu cativo por baluquistaneses presos pelos serviços de segurança.

Solecki foi solto em abril depois da intervenção de líderes baluquistaneses, incluindo Gul Muhammad. Os líderes baluquistaneses especulam que as agências de inteligência possam ter assassinado Muhammad e seus colegas para provocar os sequestradores para que eles matassem o norte-americano, o que teria rendido o rótulo de terroristas aos nacionalistas baluquistaneses.

Em vez disso, "o assassinato desses três centralizou o movimento nacional do Baluquistão", disse Ali, o advogado.

Ele e outros disseram que não tinham dúvidas de que os serviços de inteligência foram responsáveis.

Os três homens estavam em seu escritório em 3 de abril quando meia dúzia de homens armados os sequestraram, disse ele.

"Eram pessoas das agências", disse Ali. "Eles estavam com roupas comuns, mas os conhecemos a partir de seus cortes de cabelo e seu linguajar". Ali registrou um caso na polícia contra as agências de inteligência por sequestro e assassinato dos três homens.

Nisar Ahmed, comerciante e amigo dos líderes políticos, disse que viu eles sendo empurrados para dentro de uma camionete. Ele também disse que os homens armados pareciam ser agentes da inteligência e que estava escoltados por um segundo veículo com mais dez homens armados, também com roupas comuns, que pareciam ser da força paramilitar Frontier Corps.

Apesar de a insurgência continuar forte em outras partes do Baluquistão, os militares conseguiram esmagar boa parte da resistência em torno de Turbat desde março de 2007, mesmo assim, homens armados nas montanhas continuam sendo perseguidos, dizem os moradores.

Yousuf Muhammad, irmão de Gul Muhammad, um dos líderes políticos assassinados, disse que em fevereiro ele foi pendurado no teto pelas mãos durante 48 horas num campo militar paquistanês.

"Eles vieram prender Gul Muhammad, mas encontraram a mim", disse.
Outro irmão, Obeidullah, disse que Gul Muhammad havia recebido ameaças de pessoas nas agências de inteligência, alertando-o para parar com seu trabalho. A última veio dez dias antes de sua morte, disse.

Um grupo de estudantes da cidade próxima de Tump disse que eles foram presos e mantidos em vários campos militares sem acusações por sete meses em 2007. Alguns disseram que foram suspensos pelos pés ou pelas mãos até desmaiarem, foram espancados e mantidos em solitárias. Cada um deles mostrou uma marca escurecida onde uma unha do pé havia sido arrancada.

As prisões e desaparecimentos endureceram o comportamento, disseram os moradores, principalmente entre os jovens.

Até o governador, que é representante do presidente na província, expressou exasperação em relação à falta de atitude do governo de Zardari para lidar com as necessidades da população. Muitos baluquistaneses estão cada vez mais cínicos quanto à capacidade do governo de mudar as coisas.

Sayed Hassan Shah, ministro da indústria e comércio no Baluquistão, disse que seu partido está agora pedindo autonomia provincial.

"Está é nossa última opção", disse ele. "Se falharmos, então talvez tenhamos que pensar na libertação ou na separação."

Tradução: Eloise De Vylder

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