UOL Notícias Internacional
 

12/07/2009

Equipe que monitora comércio de diamante censura Zimbábue por violência

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Johannesburgo
Uma equipe que avalia se o Zimbábue está cumprindo as normas internacionais para evitar que o comércio de diamantes alimente o conflito descobriu que os militares do país estão diretamente envolvidos com a mineração ilegal e que as autoridades perpetraram uma "violência horrível contra civis", de acordo com o memorando que a equipe entregou a autoridades do Zimbábue.

A equipe, enviada numa missão ao Zimbábue na semana passada como parte do processo Kimberly, iniciativa para impedir o comércio dos chamados "diamantes de sangue", disse que suas recomendações poderiam incluir a suspensão total do Zimbábue do processo, restringindo ainda mais a possibilidade de o país vender seus diamantes nos mercados internacionais. A Federação Mundial de Bolsas de Diamante já recomendou a seus membros em 20 países que não comprem diamantes dos depósitos Marange, no leste do Zimbábue, por causa dos relatos de violência.

Em seu memorando confidencial, o líder da equipe, A. Kpandel Fayia, disse às autoridades do Zimbábue que ficou tão perturbado com os testemunhos das vítimas com quem a equipe se encontrou, que teve de sair enquanto elas falavam.

"Nossa equipe conseguiu entrevistar e documentar as histórias de dezenas de vítimas, e observar seus ferimentos, cicatrizes de mordidas de cachorro e de cassetetes, suas lágrimas e seu trauma psicológico contínuo", disse o relatório de Fayia, vice-ministro de mineração na Libéria. "Sou da Libéria, senhores; estive na Libéria durante os 15 anos de guerra civil e presenciei muita violência sem sentido na minha vida, principalmente ligada aos diamantes". Ele disse às autoridades: "Isso precisa ser reconhecido e precisa parar."

O relatório foi fornecido ao The New York Times por uma pessoa com conhecimento do memorando, e confirmado por duas outras, inclusive uma que participou da reunião da equipe com as autoridades.

As autoridades do governo, que têm negado veementemente qualquer violência por parte do Estado nos campos de diamantes, disseram ao jornal estatal que tentarão cumprir com o processo Kimberly antes que a equipe divulgue seu relatório final. O ministro da mineração do Zimbábue, Murisi Zwizwai, foi citado por ter afirmado depois da apresentação de Fayia que o Zimbábue havia concordado em retirar os soldados dos campos "em fases, enquanto um contexto apropriado de segurança é estabelecido."

A equipe Kimberly, que inclui oficiais da Libéria, dos EUA e da Namíbia, assim como representantes da indústria de diamantes e grupos civis, disse às autoridades do Zimbábue que elas deveriam suspender a mineração nos campos Marange, desmilitarizar a operação e investigar o papel dos militares e da polícia.

  • AFP

    Foto tirada em junho de 2008 mostra o presidente Robert Mugabe em sua posse

É difícil prever o que o governo fará. O presidente Robert Mugabe, 85, é profundamente hostil às nações ocidentais e às organizações não-governamentais internacionais que o pressionam para restaurar o Estado de Direito.

Depois de se encontrar com o mais experiente diplomata norte-americano na África, Johnnie Carson, no domingo durante a cúpula da União Africana na Líbia, Mugabe se irritou e chamou Carson, ex-embaixador do Zimbábue, de "idiota".

"Tem tipos como Carson, veja bem, querendo dizer: 'faça isso, faça aquilo'", disse Mugabe segundo o The Herald, jornal diário estatal, na segunda-feira. "Quem é ele? Espero que ele não estivesse falando por Obama. Eu disse a ele que ele era uma vergonha, uma grande vergonha, sendo um afro-americano."

Mugabe tentou usar seu controle sobre o único jornal diário do país para moldar a opinião pública.

A matéria sobre ele na sexta-feira trazia como manchete: "Equipe Kimberly abandona relatórios negativos", e fornecia citações de Fayia que sugeriam que o Zimbábue estava controlando melhor a mineração ilegal. O texto não incluía nenhuma pista de que a equipe havia encontrado sérias violações aos direitos humanos.

Poucos dias antes de a missão deixar o Zimbábue, a Human Rights Watch divulgou um relatório acusando os militares de tomarem violentamente o controle dos campos de diamantes de Marange no ano passado, organizando associações de mineiros e contrabandeando diamantes para fora do país.

Algumas das pessoas que se encontraram com a equipe Kimberly contaram em entrevistas o que disseram a seus integrantes - e o que nunca tiveram chance de relatar. Um homem que implorou para não ser citado por medo de ser assassinado, disse que testemunhou o enterro de 85 pessoas numa vala comum, que haviam sido executadas nos campos de diamante de Marange. Ele se ofereceu para levar a equipe ao local do túmulo, disse, mas foi informado de que a equipe estava sem tempo.

Brian James, prefeito de Mutare, trouxe dois mineiros de uma área remota que segundo ele foram alvos de tiros durante a operação militar nos campos de Marange. Mas quando chegou a vez deles de testemunhar, disse James, "a equipe sentiu que já estava bastante traumatizada por tudo que havia visto e ouvido. Ver mais pessoas não faria nenhuma diferença."

Tradução: Eloise De Vylder

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