UOL Notícias Internacional
 

13/07/2009

Após Michael Jackson, internet vive onda de falsa morte de celebridades

The New York Times
Monica Corcoran
Os vírus podem se espalhar rapidamente na internet, mas os boatos também podem ser muito contagiosos. Na mesma semana em que morreram Ed McMahon, Farrah Fawcett e Michael Jackson, a internet se transformou num ninho de notícias falsas sobre a morte de várias celebridades.

Jeff Goldblum foi o primeiro a ir embora. Uma manchete do Google News
dizia: "Jeff Goldblum morre no set de filmagem"! Os detalhes eram nebulosos, mas específicos o suficiente para soarem plausíveis. A história continuava dizendo que Goldblum, 56, havia caído do alto de um penhasco de 18 metros em Kauri Cliffs, na Nova Zelândia, enquanto participava de filmagens.

O que começou como uma travessura logo ganhou vida própria. Os usuários do Twitter divulgaram a notícia, e a comunidade se transformou numa câmara de eco. Os membros do Facebook se juntaram ao boato.

Até o fim da semana, o número de celebridades mortas havia se transformado numa fila de conga. Harrison Ford havia afundado num iate em St-Tropez; o avião particular de George Clooney havia caído em algum lugar no Colorado. Miley Cyrus? Acidente de carro. Natalie Portman? Aquele mesmo penhasco perigoso na Nova Zelândia. Ellen DeGeneres, Britney Spears e o comediante Louie Anderson também estavam supostamente descansando em paz.

"Recebemos um telefonema de um amigo que leu a notícia no Facebook, foi assim que descobrimos", disse o relações públicas de Clooney, Stan Rosenfield, que também recebeu telefonemas de veículos de notícias em busca de confirmação. Em vez de divulgar uma nota para a imprensa, Rosenfield contatou o TMZ, um site de notícias e fofocas de celebridades, que publicou uma matéria que dissipava o rumor e criticava os boateiros.

Quanto ao próprio Clooney, "George citou Mark Twain e disse que sua morte havia sido 'deveras exagerada'", disse Rosenfield.

O Twitter pode ter sido o mensageiro, mas a maioria dos rumores não se originou nele. O boato tríplice de Goldblum, Ford e Clooney começou num site de trote chamado Fakeawish.com [algo como "simule um desejo"], que oferece aos visitantes um modelo de páginas para gerar histórias inventadas sobre atores e atrizes de sua escolha. Imagine isso como uma versão macabra do Mad Libs [jogo em que se preenche espaços em branco para contar uma história] da época do crowdsourcing [fontes coletivas de informação].

Funciona assim: um usuário entra com o nome de uma celebridade e recebe uma lista de notícias falsas para escolher - a celebridade pode morrer num avião, iate ou penhasco, ou ser hospitalizada depois de uma briga de trânsito. O usuário precisa escolher se a vítima é homem ou mulher.

A partir daí, o boateiro é direcionado para um site chamado Global Associated News, onde uma história vagamente plausível aparece, pronta para ser enviada por e-mail, linkada ou enviada por SMS. Há uma nota no fim da página que revela que o conteúdo é "100% inventado".

O Borat desse site específico é Rich Hoover, um morador de 37 anos de Atalanta que usou seus conhecimentos em tecnologia da informação para construir um modesto império de 20 sites, incluindo o Global Associated News e um site de pornografia ao estilo do YouTube. Ele tem orgulho de dizer que ganha dinheiro com seus sites (através da propaganda) e que ele mesmo gera todas as histórias falsas de morte.

"Eu estaria mentindo se dissesse que não existe uma sensação distorcida de satisfação ou de conquista", disse Hoover, que criou o site em 1998 para divertir seus colegas de trabalho e o refinou em 2002 para se concentrar em celebridades. A popularidade recente é resultado de todo o tráfego gerado para o seu site a partir de mensagens do Twitter. "De certa forma, tenho que me beliscar e pensar: 'Nossa! Eu causei tudo isso'", disse.

Hoover também estava por trás do boato de 2006 que dizia que Tom Hanks havia lançado seu carro do penhasco em Kauri Cliffs. O mesmo para Tom Cruise, que Hoover fez lançar-se à morte em 2008.

Por que a Nova Zelândia? "Sou um entusiasta do golfe, e vi um trecho sobre a Nova Zelândia quando estava assistindo ao PGA Tour - e era muito bonito", disse Hoover, acrescentando que ele usa principalmente locações internacionais porque levam mais tempo para serem contestadas. Ele disse que a única carta que ele recebeu pedindo para que ele interrompesse os serviços desde 2002 foi enviada pelo advogado do astro de futebol Michael Vick (cujos problemas com brigas de cães podem ter levado a preocupação ao limite).

É claro que incentivar a criação de histórias falsas sobre pessoas famosas têm sido um passatempo popular e até mesmo lucrativo durante eras. (Revistas de fofoca nos supermercados, alguém quer?) Hoje, esses mesmos instintos humanos maldosos continuam existindo - você sabe, os mesmos que impeliram gerações de adolescentes a fazer trotes telefônicos - e a tecnologia levou isso mais adiante.

"Dentro da cultura da internet, é natural que as pessoas acrescentem a partir de alguma coisa que já está acontecendo", disse Tim Hwang, pesquisador associado do Berkman Center para Internet e Sociedade em Harvard.

O Twitter, por exemplo, já tem credibilidade como um site de notícias, graças à cobertura em tempo real de seus usuários em relação à violência recente no Irã, os tiroteios em Mumbai no ano passado e o avião a US Airways que pousou no rio Hudson. Esse tipo de jornalismo cidadão ajudou a legitimar o Twitter como um lugar em que as pessoas procuram pelas notícias mais frescas.

O site TMZ também é conhecido por sua agilidade. Depois de ter batido os veículos impressos, o rádio e a TV na cobertura da morte de Michael Jackson, uma onda de mensagens do Twitter veio em seguida. Harvey Levin, editor-chefe do TMZ, diz que recebe notícias de mortes de celebridades o tempo todo. "Mas nós checamos tudo", diz ele. "Temos um departamento legal e um de pesquisa. É rigoroso."

Este não é o caso do Twitter, que é tão útil para disseminar os boatos ruins quanto os bons. A blogueira Emily Miller do Politics Daily cunhou o termo TwitterDead para se referir às vítimas dos últimos boatos.

Biz Stone, fundadora do Twitter, disse por e-mail: "Normalmente nós não identificamos rumores como abuso, nem monitoramos ativamente o conteúdo dos usuários ou censuramos conteúdo dos usuários". Entre as mortes falsas do site estavam Rick Astley, cantor de "Never Gonna Give You Up", cujo nome é sinônimo de um trote chamado Rickrolling (que consiste em tocar bem alto um clipe da música num lugar e hora inapropriados). E entre as pessoas que caíram no boato da morte de Goldblum estava Demi Moore, que usou o Twitter para expressar seu pesar (talvez ela devesse ter sido mais cuidadosa com seu apelido no Twitter, Sra. Kutcher, e o antigo programa de TV de seu marido, "Punk'd").

No caso de Goldblum, o rumor se espalhou tão rapidamente e com tanto alcance no Twitter e no Facebook que seu assessor divulgou uma nota para assegurar às pessoas de que ele estava "bem, em Los Angeles". Quatro dias depois, Goldblum apareceu no "The Colbert Report" para afastar os rumores e brincou de prestar homenagem a si mesmo.

Numa entrevista por telefone, Goldblum disse que viu humor no boato: "Temos que nos render à nossa própria morte. É assim que fazem os monges."

Ele até se beneficiou com a história. Seu nome apareceu com mais frequência nas buscas do Google, e "pessoas com quem eu não tinha mais contato voltaram para a minha vida", disse. "Elas ligaram para dizer: 'Fiquei muito chateado e estou feliz que você está vivo', então foi uma espécie de reunião para mim."

Considere Ed McMahon, cujos rumores de que estava morto saíram na nternet bem antes de que ele morresse de verdade. "O Twitter pode ser uma maravilhosa ferramenta social, mas ao mesmo tempo pode ser confuso como um veículo de mídia", disse Howard Bragman, relações públicas que representava McMahon. "Uma vez que algo sai ali, não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que eu posso impedir."

Nicholas DiFonzo, professor do Rochester Institute of Technology que estuda a psicologia dos boatos, disse que a confusão coletiva em relação à morte súbita de Michael Jackson deixou as pessoas ansiosas por uma sensação de controle. "As pessoas espalham boatos quando estão tentando acalmar alguma incerteza ou ansiedade", disse.

A morte de Franklin D. Roosevelt em 12 de abril de 1945 causou uma reação mórbida similar, de acordo com Alex Boese, que escreveu um livro sobre boatos históricos e encontrou um Museu de Boatos online. Na época, espalharam-se rumores de que Frank Sinatra, Babe Ruth, Al Jolson, Errol Flynn e outros notáveis também haviam morrido subitamente. "Isso acontece há centenas de anos", disse Boese. "São as pessoas, não a internet. Não dá para culpar o Twitter."

Tradução: Eloise De Vylder

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