UOL Notícias Internacional
 

13/07/2009

Imigrantes somalis nos EUA são seduzidos por grupos radicais islâmicos

The New York Times
Andrea Elliott
Minneapolis (EUA)
Para um grupo de estudantes que se reúne com frequência na Escola de Administração Carlson no campus da Universidade de Minnesota, o lema "Lugar nenhum, exceto aqui" parecia servir como uma luva.

Eles haviam fugido da Somália ainda meninos, escapando de uma guerra civil catastrófica. Chegaram à maioridade na condição de refugiados em Minneapolis, tornando-se cidadãos norte-americanos naturalizados e adotando o basquete, a formatura, o hip-hop e o shopping center Mall of America. Quando chegaram à faculdade, seus sonhos pareciam estar ao alcance das mãos: um planejava se tornar médico, outro, um empresário.

Mas no ano passado, numa sala de estudos do primeiro andar de Carlson, os homens voltaram suas energias para uma empreitada diferente.

"Por que estamos sentados aqui nos Estados Unidos, sem fazer nada pelo nosso povo?", perguntou um deles, Mohamoud Hassan, um estudante de economia magro de 23 anos, pressionando seus amigos.

Em novembro, Hassan e dois outros alunos abandonaram a faculdade e foram para a Somália, a terra natal que eles mal conheciam. Logo se espalhou o boato de que eles haviam se juntado à Shabaab, um grupo militante islamita alinhado com a Al Qaeda que luta para derrubar o frágil governo somali.

Os estudantes estão entre os mais de 20 jovens norte-americanos que são alvo do que talvez seja a mais significativa investigação sobre terrorismo nacional desde o 11 de setembro.

Um deles, Shirwa Ahmed, suicidou-se numa explosão na Somália em outubro, tornando-se o primeiro homem-bomba norte-americano conhecido.

O diretor do FBI (polícia federal dos EUA), Robert M. Mueller, disse que Ahmed "se tornou um radical em sua cidade natal em Minnesota".

Uma investigação feita pelo New York Times, baseada em entrevistas com amigos íntimos e parentes dos envolvidos, policiais e advogados, assim como no acesso a ligações telefônicas e mensagens do Facebook trocadas entre os homens e seus amigos nos Estados Unidos, revela como o extenso movimento jihadista encontrou uma base de apoio no coração dos Estados Unidos.

Os homens parecem ter sido motivados por uma mistura complexa de política e fé, e suas comunicações mostram como alguns estão tentando recrutar outros jovens norte-americanos para sua causa.

O caso representa o maior grupo de cidadãos dos EUA suspeitos de se juntarem a um movimento extremista afiliado à Al Qaeda. Apesar de os amigos dizerem que os homens nunca pensaram em promover ataques nos Estados Unidos, oficiais do FBI temem que, com seu treinamento, ideologia e passaportes norte-americanos, haja um risco real de que eles possam fazer isso.

"Esse caso é diferente de tudo o que já vimos", disse Ralph S.
Boelter, agente especial encarregado da divisão do FBI em Minneapolis, que está liderando a investigação.

A maioria dos homens são ex-refugiados somalis que deixaram as cidades gêmeas de Minneapolis e Saint Paul em duas levas, a partir do final de 2007. Apesar de a devoção religiosa poder ter gerado uma predisposição para que eles simpatizassem com a causa islamita na Somália, foi necessário um grande evento geopolítico - a invasão da Etiópia pela Somália em 2006 - para incentivá-los a se juntarem ao que eles viam como um movimento legítimo de resistência, disseram seus amigos.

Para muitos desses homens, o caminho para a Somália oferecia também algo pessoal - uma sensação de aventura, propósito e até mesmo renovação.

Na primeira leva de somalis que deixou o país estavam homens cujas vidas nos EUA lembravam as dos imigrantes europeus que se juntaram à jihad. Eles enfrentavam barreiras de raça e classe, religião e língua.
Ahmed, o homem-bomba de 26 anos, sofreu nas faculdades comunitárias antes de abandonar os estudos. Seu amigo Zakaria Maruf, 30, entrou para uma violenta gangue de rua e mais tarde trabalhou como repositor de prateleiras no Wal-Mart.

Se por um lado este primeiro grupo de homens foi marcado pelo fracasso, por outro, os jovens de Minnesota que os seguiram para a Somália estavam se saindo bem nos EUA. Hassan, estudante de engenharia, era uma estrela em ascensão em sua faculdade comunitária. Um outro era um estudante que se preparava para cursar medicina e que já havia depositado suas esperanças num treinamento na Clínica Mayo.
Eles não saíram dos EUA por falta de oportunidades, disseram seus amigos; o único motivo possível é que pareciam movidos por uma ambição insatisfeita.

"Agora eles se sentem importantes", disse um amigo, que continua em contato com os homens e, como outros, falou sob condição de anonimato por causa da investigação.

O caso obrigou os agentes federais e analistas de terrorismo a repensarem algumas de suas crenças mais básicas sobre a vulnerabilidade dos imigrantes muçulmanos nos Estados Unidos à sedução do Islã militante. Durante anos, parecia que o terrorismo "feito em casa" era um problema sobretudo de países europeus como a Inglaterra e a França, onde os imigrantes muçulmanos fracassaram em prosperar economicamente ou integrar-se culturalmente. Ao contrário, os especialistas acreditavam que a assimilação bem sucedida de muçulmanos nascidos no exterior nos Estados Unidos havia em grande parte os imunizado em relação ao apelo das ideologias radicais.

A história dos homens das cidades gêmeas não permite classificações simples. Elas representam uma minúscula porcentagem da comunidade somali-americana e não está claro se sua transformação reflete uma tendência mais ampla. Tampouco são representativos da população imigrante muçulmana como um todo, que tem desfrutado de uma existência estável e de classe média.

Mesmo entre os jihadistas do mundo, os jovens de Minneapolis são uma espécie de exceção: em suas mensagens de texto e ligações telefônicas, eles parecem presos entre o interior dos EUA e as paisagens áridas da África, desejando Starbucks um dia, glorificando as virtudes do leite de camelo e do fundamentalismo islâmico no outro.

"Alá nunca mudará a situação das pessoas a menos que elas mudem por si mesmas", escreveu Hassan, o ex-estudante de engenharia, numa mensagem no Facebook postada em 15 de abril. "Tome um segundo para pensar profundamente sobre sua situação. Que mudanças você precisa fazer?"

Geração de refugiados
Na Roosevelt High School, Shirwa Ahmed era um aluno de aprendizado rápido. Ele memorizava as letras de Ice Cube. Treinava durante horas nas quadras de basquete da vizinhança. Ele prestava atenção nas roupas e na linguagem de seus colegas afro-americanos, imitando o que podia.

Suas calças eram largas, mas nunca demais. Ele dizia "homeboys"
[colega de gangue] e outras gírias, mas seguia com respeito as regras da escola. Quando a bolsa de uma colega foi roubada, foi Ahmed que diligentemente entregou o ladrão.

Por mais que ele tentasse, não conseguia se encaixar.

Você não é negro, zombavam seus colegas. Volte para a África.

Estudantes somalis e afro-americanos brigavam com frequência na escola. "Como eles podem se irritar comigo por me parecer com eles?", disse Ahmed certa vez, segundo sua amiga Nicole Hartford. "Nós viemos do mesmo lugar."

E enquanto Ahmed era rejeitado na escola, também enfrentava a reprovação de sua família, que reclamava que ele estava se misturando com "pessoas do gueto", lembra-se Hartford. É um problema clássico para os jovens somalis: como ser uma coisa na escola e outra em casa.

As notícias da Somália, seguidas obsessivamente pelos adultos, não atraíam muito interesse entre os adolescentes. Mesmo assim, jovens como Ahmed continuavam amarrados à Somália pelas remessas de dinheiro que eram pressionados a fazer. Depois da escola, todos os dias, ele se juntava a um grupo de jovens que ia para o aeroporto trabalhar empurrando passageiros em cadeiras de rodas. Ele mandava metade de seu salário para a Somália, para "parentes que nem mesmo conhecemos", disse seu amigo Nimco Ahmed.

A guerra havia dilacerado as famílias, e não há muitos pais de família. Os garotos somalis sofrem mais visivelmente. A dificuldade financeira de famílias como a de Ahmed, que era liderada por uma irmã mais velha, provou-se excessiva.

Depois de se formar no colegial em 2000, as coisas ficaram mais difíceis para Ahmed, que frequentava aulas na faculdade comunitária enquanto trabalhava em empregos estranhos, disseram seus amigos. Mas ele se saiu melhor do que muitos colegas, que se voltaram para o crime e as gangues.

Na raiz do problema estava uma "crise de pertencimento", disse Mohamud Galony, tutor de ciências que era amigo de Ahmed e é tio de outro rapaz que deixou o país. Os jovens somalis foram criados para honrar as tribos de suas famílias, mas se sentem desconectados delas. "Eles querem pertencer, mas a quem eles pertencem?", disse Galony, de 23 anos.

O recrutamento dos homens das cidades gêmeas pode ser atribuído a um grupo de imigrantes somalis do norte da Europa e de outros países que, em 2005, viajaram para a Somália para lutar com o movimento islamita, disse um policial sênior. Um punhado desses homens mais tarde foi para Minneapolis, disse o oficial, e ajudou a convencer o primeiro grande grupo das cidades gêmeas a viajar para a Somália no final de 2007.

Esta primeira leva consistia de homens entre 20 e 30 e poucos anos que haviam sido assíduos no Centro Islâmico Abubakar As-Saddique, a maior mesquita somali em Minneapolis. "Toda essa conversa sobre o movimento deve parar", o imã Sheikh Abdirahman Sheikh Omar Ahmed, lembra-se de ter dito à multidão.

"Concentre-se em sua vida aqui. Se você se tornar um médico ou engenheiro, poderá ajudar seu país. Lá você será mais um morto na rua."

Na plateia havia vários jovens que também desapareceriam em breve.

A investigação se intensifica
"Eu nunca imaginei que pisaria nisso aqui, no meio-oeste", disse Ralph S. Boelter, um nativo de Wisconsin de queixo quadrado que assumiu o escritório do FBI em Minneapolis no começo de 2007. Ele se viu incumbido de um dos mais complexos casos de terrorismo desde o 11 de Setembro.

Apesar de os investigadores federais terem rastreado os movimentos dos recrutas americanos da Shabaab desde pelo menos o começo de 2008, o caso do FBI permaneceu devagar até o ataque suicida de Shirwa Ahmed naquele outono.

Os investigadores em Minneapolis abordaram somalis nas ruas, em suas casas, na mesquita Abubakar e no campus da Universidade de Minnesota.
Conforme a investigação prosseguia, dizem os líderes da comunidade, mais de 50 pessoas foram convocadas a comparecer diante de um grande júri federal em Minneapolis e outro júri foi convocado em San Diego.
Em abril, agentes do FBI fizeram uma batida na empresa de envio de dinheiro de três somalis em Minneapolis. Na época, a investigação havia se expandido para comunidades somalis menores em Boston, Seattle, Portland (Maine) e Columbus (Ohio).

Boelter apareceu na televisão e no rádio dirigido ao público somali, encorajando as pessoas a cooperarem com os investigadores. Mesmo assim ele revelou pouco sobre o caso. A abrangência e a intensidade da investigação, disse ele, corresponde ao perigo representado pelos homens.

"Se os cidadãos norte-americanos estão se juntando à Shabaab, o potencial de ameaça doméstica é sério", disse Boelter. "Acho que eles poderiam receber ordens de voltar. Ou poderiam fazer isso por conta própria porque são filosoficamente alinhados com a Shabaab ou a Al Qaeda."

Líderes sênior da Al Qaeda promoveram agressivamente a Somália, como o destino mais recente para os guerrilheiros estrangeiros, disse Evan Kohlmann, consultor de terrorismo que frequentemente trabalha para o governo. Nos meses recentes, um pequeno número de militantes da Al Qaeda buscaram refúgio lá.

Os analistas acham a aliança problemática porque a Al Qaeda vem há tempos buscando recrutas com passaportes norte-americanos e europeus, que podem cruzar as fronteiras com mais liberdade, disse Bruce Hoffman, professor da Universidade Georgetown que estuda o terrorismo.

Há indicações de que três homens das cidades gêmeas voltaram ao país, possivelmente depois de desertar da Shabaab. Um amigo deles que continua na Somália disse que eles não pensavam em atacar os Estados Unidos. "Por que eu faria isso?", disse por telefone na primavera passada Adbisalan Ali, estudante que se preparava para o curso de medicina, segundo seu amigo. "Minha mãe poderia estar andando pela rua."

A questão central que move a investigação do FBI é se os cidadãos norte-americanos forneceram material de apoio para a Shabaab, seja na forma de novos membros ou de dinheiro.

Também não está clara qual a real dimensão desse esforço de recrutamento. Um amigo íntimo de vários dos homens descreveu o processo como "uma rede de amizade" na qual um grupo encoraja o próximo.

"Eles querem atrair as pessoas próximas porque precisam dessa familiaridade", disse o amigo. "Eles criaram sua pequena América na Somália".

Enquanto isso, alguns pais somalis nas cidades gêmeas começaram a esconder os passaportes de seus filhos. Em algumas ocasiões, a tensão se voltou para dentro da própria comunidade, com alguns culpando a mesquita de Minneapolis por fazer "lavagem cerebral" com os jovens e possivelmente levantar dinheiro para grupos islamitas na Somália.

Os líderes da mesquita negam, e por sua vez acusam as famílias de evitar a responsabilidade por seus filhos. "É obrigação delas saber para onde seus filhos estão indo", disse Farhan Hurre, diretor-executivo da mesquita.

Para muitos somalis mais velhos em Minnesota, o maior mistério é por que tantos jovens refugiados arriscariam suas vidas e futuros para voltar para um país do qual seus pais lutaram tanto para sair.

Tradução: Eloise De Vylder

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