UOL Notícias Internacional
 

15/07/2009

Juíza da Suprema Corte dos EUA, Sonia Sotomayor manteve-se sob controle em audiências

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg
Em Washington (EUA)
Durante seu silêncio forçado, a juíza Sonia Sotomayor foi retratada como uma mulher passional. Seus discursos, interminavelmente dissecados nas semanas desde que o presidente Barack Obama a indicou para a Suprema Corte, revelaram um forte orgulho latino. Seus colegas dizem que ela comanda uma "corte quente". Mas não foi essa a mulher em exibição que esteve nesta terça-feira em Washington.

Por horas sem fim, enquanto Sotomayor teve sua primeira chance de rebater as críticas e o país teve sua primeira chance de ouvi-la de modo prolongado, a paixão era escassa. Em vez disso, enquanto ela buscava rechaçar as críticas dos republicanos - a de que era uma intimidadora temperamental que permitiria a seus sentimentos ditarem suas decisões - Sotomayor não mediu esforços para se mostrar o mais tediosa possível, com a possível exceção de seu tailleur vermelho flamejante.Em nenhum momento ela exibiu sinal de irritação.
Quando o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, perguntou se ela tinha "um problema de temperamento", ela respondeu do modo cadenciado de um piloto de companhia aérea, treinado para evitar demonstrar alarme durante uma crise. "Não, senhor", ela disse, passando para um relato sobre suas relações cordiais com seus colegas em seu tribunal.

Quando o senador Jon Kyl, republicano do Arizona, a pressionou sobre se poderia encontrar "uma base legal para cada decisão", ela ofereceu sua resposta padrão para o dia: "Nós aplicamos a lei aos fatos. Nós não aplicamos sentimentos aos fatos".

Houve um pouco de risadas e alguns poucos sorrisos, mas Sotomayor não tinha escolha a não ser parecer neutra. O ministro-chefe John G. Roberts Jr. chegou à sua audiência de confirmação há quatro anos com uma reputação de cerebral mas distante, sendo obrigado a demonstrar sua humanidade. Sotomayor chegou aos procedimentos de terça-feira com o problema oposto: uma reputação de sentir demais. Sua tarefa era demonstrar restrição.

"Paixão é uma desvantagem", disse Wade Henderson, diretor executivo do Conselho de Liderança dos Direitos Civis, um grupo de defesa que apoia a indicação. "Ela é uma mulher que obviamente tem sentimentos profundos e isso está refletido em muito do que ela escreve. A paixão em suas respostas seriam mal interpretadas e mal caracterizadas, e ela está muito ciente disso."

Os membros do Comitê de Justiça do Senado passaram o dia lidando com uma narrativa que poderia ser chamada de "Um Conto de Duas Sonias", com os republicanos expondo a candidata como uma advogada que faz discursos provocantes e os democratas a retratando como a juíza cujas decisões estão baseadas em precedentes. Sotomayor resistiu firmemente aos esforços republicanos para desestabilizá-la.

Sua constância ficou evidente durante as perguntas de Graham, que comentou na segunda-feira que ela seria confirmada a menos que sofresse "um colapso". Na terça-feira, Graham se esforçou ao máximo para provocar um, como quando leu em voz alta uma série de avaliações anônimas de advogados que se apresentaram diante dela: "terror na corte; se comporta de modo descontrolado; ela é má com os advogados; ela ataca os advogados que apresentam argumentos que ela não gosta; ela gosta de intimidar".

Se Sotomayor é alguma dessas coisas, ela não demonstrou. Quando Graham pediu para que ela respondesse, ela olhou para ele de forma inexpressiva e fez uma pausa por um longo momento. Então, falando com firmeza, ela finalmente reconheceu: "Eu faço perguntas duras na argumentação oral".

Na sua vez, os democratas buscaram exibir a outra Sonia. Assim que Graham concluiu, o senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, passou a discutir as decisões da juíza, declarando que seu histórico representava mais do que "trechos de declarações".

E já que a juíza não iria exibir nenhuma irritação, a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia, demonstrou um pouco por ela. "Eu tenho que dizer que se existe um teste de temperamento judicial, você passou com nota A++", disse Feinstein, acrescentando: "Eu queria responder, com minha adrenalina a toda, e você permaneceu sentada calmamente".

Se Sotomayor demonstrou qualquer sinal de emoção, ela foi traída por suas mãos, com unhas bem cuidadas e pintadas de rosa claro. Elas pareciam a única parte de seu corpo que se movia. Seus dedos rabiscavam anotações enquanto os senadores lhe faziam perguntas. As palmas de suas mãos às vezes se voltavam para cima, como se para chamar os legisladores para mais perto enquanto falava. Em outras ocasiões, as palmas da mão se voltavam para baixo, movendo-se lentamente pela mesa, como se tentasse resolver discretamente o debate.

"Ela é muito boa em sua linguagem corporal", disse o senador Tom Coburn, republicano de Oklahoma, maravilhado com a forma como Sotomayor em nenhuma vez se virou para olhar quando protestos interrompiam sua sabatina. "Eu acho que ela se controla muito bem; ela foi muito bem treinada."

Para seus amigos e parentes, deve ter sido estranho ver a mulher agitada que conhecem passar o dia todo tentando soar inalterada e sem envolvimento.

"A juíza Sotomayor é a pessoa mais calorosa, encantadora e extrovertida que você poderia conhecer", disse a juíza Miriam Goldman Cedarbaum, do Tribunal Distrital Federal, uma amiga íntima e ex-mentora da juíza, que estava presente na platéia na terça-feira. "Como sua ex-assistente, que encontrei hoje no avião, me disse: 'Ela é cheia de vida'".

Foi essa a mulher que Cedarbaum viu na terça-feira? "Eu não vou comentar o que vi hoje", ela disse, acrescentando, "eu acho que somos todos treinados para responder serenamente ao questionamento".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host