UOL Notícias Internacional
 

16/07/2009

Briga em fábrica de brinquedos provocou onda de violência no oeste da China

The New York Times
Andrew Jacobs
Shaoguan (China)
O primeiro grupo de uigures, 40 homens e mulheres jovens da região de Xinjiang, no extremo oeste da China, chegaram à fábrica de brinquedos Early Light em maio, trazendo a sua música alegre e falando uma língua que era incompreensível para os seus colegas de trabalho chineses de etnia han.

"Nós trocamos cigarros e sorrisos, mas não fomos capazes de nos comunicar", recorda Gu Yunku, um operário han de 29 anos que trabalha na linha de montagem, e que veio do norte da China para esta cidade no sudeste do país. "Eles pareciam ser tímidos e gentis. Havia algo de romântico quanto a eles".

Mas esta boa-vontade mútua durou pouco.
  • AFP

    Troca de turno na fábrica de brinquedos onde houve confronto entre uigures e chineses han


Em junho, quando o número de uigures subiu para 800, todos eles recrutados em um condado rural pobre próximo à fronteira da China com o Tadjiquistão, boatos difamatórios começaram a circular. Motoristas de táxis falavam que os uigures lançavam olhares furiosos e tinham modos grosseiros. Os lojistas alegavam que as mulheres uigures costumavam praticar furtos. E, o pior, histórias sobre homens uigures sexualmente agressivos começaram a circular em meio aos 16 mil operários de etnia han.

Pouco antes da meia-noite de 25 de junho, alguns dias após uma mensagem anônima na internet ter alegado que um grupo de seis homens uigures havia estuprado duas mulheres hans, as suspeitas transformaram-se em um episódio de violência.

Durante uma briga de quatro horas em uma calçada entre dormitórios da fábrica, operários hans e uigures agrediram-se mutuamente com extintores de incêndio, pedras do pavimento e barras de ferros arrancadas das camas. Ao nascer do sol, quando a polícia finalmente interveio, dois uigures tinham sido mortos e outras 120 pessoas ficaram feridas, a maioria delas de etnia uigur.

Al-Qaeda promete vingar os uigures mortos na China

A Al-Qaeda ameaçou vingar a morte de muçulmanos uigures na semana passada na região autônoma chinesa de Xinjiang, atacando cidadãos e interesses chineses na Argélia e outras regiões da África, segundo um informe da empresa de análise de segurança e inteligência Stirling Assynt. A companhia britânica baseia suas informações em pessoas que afirmam ter visto as instruções dadas nesse sentido pela Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQIM, na sigla em inglês), ramo do grupo terrorista no norte da África, com sede na Argélia. Trata-se da primeira vez que a rede de Osama bin Laden volta sua atenção diretamente para a China



"Essas pessoas agiram de forma extremamente agressivas. Elas continuavam batendo em cadáveres", diz um homem que presenciou a briga, que, segundo ele, envolveu mais de mil trabalhadores.

Dez dias mais tarde, a 2.900 quilômetros dali, a luta em Shaoguan provocou uma onda de violência bem maior em Urumqi, a capital de Xinjiang. Em 5 de julho, uma manifestação de estudantes uigures que protestavam contra aquilo que segundo eles foi uma investigação tendenciosa da briga ocorrida na fábrica transformou-se em um frenesi assassino contra os moradores de etnia han da cidade, ao qual seguiu-se uma onda de assassinatos por parte dos hans.

No final, segundo o governo, 192 pessoas morreram e mais de mil ficaram feridas. Dentre os mortos, dois terços eram hans, de acordo com a versão das autoridades. Os uigures insistem que o número de corpos do lado deles foi bem maior.

As autoridades de Shaoguan, que afirmam que as alegações de estupro eram falsas, dizem que a violência na fábrica de brinquedos foi utilizada por "forasteiros" para estimular o ódio étnico e promover o separatismo de Xinjiang. "O problema entre os povos han e uigur é como um desentendimento entre marido e mulher", afirmou em uma entrevista Chen Qihua, vice-diretor do Departamento de Relações Externas de Shaoguan. "Nós temos as nossas discussões, mas, no fim das contas, somos como uma família".

Li Qiang, o diretor-executivo da China Labor Watch, um grupo de direitos humanos com sede em Nova York, que estudou o problema da fábrica de brinquedos de Shaoguan, vê as coisas de forma diferente. Ele afirma que o estresse provocado por salários baixos, longas jornadas de trabalho e tarefas terrivelmente repetitivas exacerbou uma desconfiança profunda entre os hans e os muçulmanos uigures, uma minoria de língua túrquica que há muito encontra-se insatisfeita com o domínio han. "O governo não entende de fato estes problemas étnicos, e não há dúvida de que eles não sabem como resolver tais problemas", afirma Li.

Segundo a versão governamental dos acontecimentos, o embate na fábrica foi simplesmente o produto de falsos boatos, colocados na internet por um ex-funcionário insatisfeito que acabou sendo preso. Poucos dias depois, as autoridades acrescentaram mais um detalhe a essa história, dizendo que a luta foi provocada por um "mal-entendido" depois que uma trabalhadora de 19 anos de idade entrou acidentalmente em um dormitório de homens uigures.

A mulher, Huang Cuilian, disse à mídia estatal que gritou e correu quando os homens bateram os pés no chão de forma ameaçadora. Quando Huang, acompanhada de seguranças da fábrica, retornou para confrontar os homens, a confusão descambou rapidamente para a violência.

Depois da confusão os trabalhadores uigures foram levados para um parque industrial próximo à fábrica de brinquedos. As autoridades recusaram-se a permitir que um jornalista tivesse acesso aos trabalhadores, e um grande contingente de policiais bloqueou os quartos do hospital onde 24 outros uigures recuperavam-se dos ferimentos sofridos.

"Eles desejam levar uma vida pacífica, sem serem importunados pela mídia", afirma Li, a autoridade de Shaoguan. Segundo ele, o governo da província de Guangdong, onde Shaoguan está localizada, e a fábrica fornecerão a eles emprego em uma outra unidade industrial.

Dirigentes da Early Light, uma companhia de Hong Kong que é a maior fábrica de brinquedos do mundo, não responderam às mensagens telefônicas solicitando que fizessem comentários sobre o incidente.

Na cidade de Kashgar, o antigo cerne da civilização uigur, os assassinatos de Shaoguan inflamaram o ódio antigo motivado pela maneira como a China administra a vida cotidiana em Xinjiang. Muitos uigures reclamam de políticas que encorajam a migração han para a região, e dizem que o governo suprime a língua e a religião locais. E, no que se refere ao trabalho, eles afirmam que os cobiçados empregos estatais são reservados para os hans. Um relatório feito em 2008 por uma comissão congressual dos Estados Unidos observou que os websites de empregos governamentais em Xinjiang reservam a maioria dos cargos de professor e funcionário público para indivíduos que não sejam uigures.

"Se não fôssemos tão pobres, os nossos filhos não teriam que procurar trabalho tão longe de casa", lamenta Akhdar, um homem de 67 anos que, assim como vários outros entrevistados, recusou-se a fornecer o seu nome completo por temer represálias por parte das autoridades.

Tensão com uigures pode trazer dificuldade diplomática para a China

  • UOL

    Os problemas em Xinjiang podem se tornar uma dor de cabeça internacional para a China muito maior do que foi o Tibete. Este atraiu muita atenção do Ocidente, graças em parte ao apelo do exilado Dalai Lama. Mas o Tibete não tem os elos estrangeiros que a identidade túrcica e islâmica de Xinjiang têm

Segundo estatísticas do governo, neste ano mais de 6.700 pessoas deixaram o condado de Shufu, o subúrbio no qual muitos dos trabalhadores de Shaoguan foram recrutados. Elas foram trabalhar em fábricas nas cidades mais próximas da região costeira da China. O recrutamento faz parte de um programa de empregos no setor de produtos para exportação, cujo objetivo é aliviar o elevado índice de desemprego entre os jovens e fornecer mão-de-obra barata às fábricas. Quase 1,5 milhão de moradores de Xinjiang já estão empregados fora da região em que nasceram. Segundo um artigo publicado no jornal estatal "Diário de Xinjiang", "70% dos trabalhadores assinaram voluntariamente contratos de trabalho". O artigo, publicado em maio, não explica que medidas foram usadas para o recrutamento dos outros 30%".

Mas moradores de Kashgar e cidades vizinhas dizem que as famílias daqueles que recusam-se a ir para Shaoguan são ameaçadas com multas que podem equivaler a até seis meses do salário de um morador local. "Caso sejam abordadas, a maioria das pessoas aceitará, porque ninguém é capaz de arcar com as penalidades", diz Abdul, cuja irmã de 18 anos está sendo recrutada para trabalhar em uma fábrica em Guangzhou, tendo resistido até o momento.

Algumas famílias estão particularmente revoltadas com o fato de os planos de recrutamento terem como alvo as mulheres jovens e solteiras. Segundo as famílias, o fato de essas mulheres morarem longe de casa prejudica as suas chances de conseguirem se casar. Taheer, um rapaz solteiro de 25 anos de idade que está procurando uma noiva, explica o seu ponto de vista sem rodeios. "Eu não me casaria com uma mulher dessas porque existe a possibilidade de ela voltar para cá sem a virgindade", afirma ele.

Mesmo assim, alguns uigures dizem que são gratos pelos empregos nas fábricas, onde os salários de até US$ 191 mensais são o dobro da renda média em Xinjiang. Um homem de 54 anos, que é plantador de algodão e tem duas filhas novas, diz que está pronto para mandá-las para lá se for este o desejo do Partido Comunista. "Ficaremos felizes em obedecer", diz ele com um sorriso, enquanto a sua mulher olha para o outro lado.

Assim que chegam a um dos grandes centros manufatureiros da China, os uigures encontram frequentemente uma vida alienante. Li, da China Labor Watch, diz que muitos trabalhadores estão despreparados para o trabalho pesado, a falta de espaço e aquilo que ele descreve como o abuso verbal por parte dos gerentes das fábricas.

Mas o maior desafio pode ser a hostilidade dos outros trabalhadores de etnia han, que, assim como a maioria dos chineses, não escondem a sua imagem negativa dos uigures. Muitos hans acreditam que os uigures recebem vantagens injustas do governo central, incluindo um sistema de pontos que dá aos estudantes uigures e de outras minorias étnicas um auxílio nos exames para ingresso na faculdade.

Zhang Qiang, 20, um morador de Shaoguan, descreve os uigures como bárbaros, e diz que qualquer coisa pode provocá-los a reagir com violência. "Todos os homens portam facas", diz Zhang, após deixar uma ficha de inscrição para um emprego na fábrica de brinquedos, que está ansiosa para contratar substitutos para as centenas de trabalhadores que desistiram do trabalho nas últimas semanas.

Porém, Zhang admite que o seu contato com os uigures é superficial: quando ele era estudante, havia na sua escola de segundo grau vocacional um programa para cem alunos de Xinjiang, embora estes ficassem em salas de aula e dormitórios separados.

Caso demonstrasse qualquer curiosidade pelos colegas de escola uigures, ele era advertido por um professor que recomendava aos alunos hans que mantivessem distância. "Isso não é preconceito", afirma Zhang. "É a simplesmente a natureza daquela gente".

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    1,02
    3,178
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,90
    67.976,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host