UOL Notícias Internacional
 

17/07/2009

Cisjordânia vive vislumbres de calma e prosperidade

The New York Times
Ethan Bronner
Em Nablus (Cisjordânia)
O primeiro cinema a funcionar nesta cidade palestina em duas décadas abriu suas portas no final de junho. Policiais palestinos parados sob os novos semáforos checam os carros para multar o não uso do cinto de segurança. Os parquímetros instalados há um mês estão cheios de moedas dos consumidores. As lojas de música tocam em alto volume canções de amor na rua e nenhum rabugento nacionalista ou islamista as força a parar.

"Você não aprecia o valor da lei e da ordem até perdê-las", disse Rashid al-Sakhel, o proprietário de uma loja de tapetes, enquanto estava parado na sua porta observando a pequena maravilha das ruas movimentadas em uma manhã ensolarada. "Nos últimos oito anos, um menino de 10 anos podia ordenar um ataque e todos nós fecharíamos. Agora ninguém pode nos ameaçar."
Pela primeira vez desde o estouro do segundo levante palestino no final de 2000, que levou a atentados a bomba terroristas e fortes contramedidas israelenses, um senso de segurança pessoal e potencial econômico está se espalhando pela Cisjordânia, à medida que as forças de segurança da autoridade Palestina entram em seu segundo ano de consolidação da ordem.

O Fundo Monetário Internacional está prestes a emitir seu primeiro relatório otimista em anos para a Cisjordânia, prevendo uma taxa de crescimento de 7% para 2009. As vendas de carros em 2008 foram o dobro das de 2007. A construção da primeira nova cidade palestina em décadas, para 40 mil habitantes, terá início no começo do próximo ano ao norte de Ramallah. Em Jenin, uma loja de sete andares chamada Herbawi Home Furnishings foi aberta, contendo as mais recentes máquinas de café espresso. Duas semanas atrás, as forças armadas israelenses desativaram sua incômoda barreira de nove anos na entrada desta cidade, parte de uma série de reduções nas medidas de segurança.

Ainda não se sabe se tudo isso durará e levará a uma consolidação do poder político para a Autoridade Palestina dominada pelo Fatah, baseada em Ramallah, como espera o governo Obama. Mas uma recente pesquisa de opinião na Cisjordânia e em Gaza, feita pelo Centro de Mídia e Comunicações de Jerusalém, uma agência de notícias palestina, apontou que o Fatah é visto como mais confiável do que o Hamas -35% contra 19%- uma mudança significativa em comparação à pesquisa da organização em janeiro, quando o Hamas parecia ser pelo menos tão confiável.

"Há dois anos eu não pude nem mesmo ir para Nablus", disse Tony Blair, o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, que serve como emissário internacional para os palestinos, após uma visita tranquila nesta semana. "A segurança melhorou muito e a economia está se saindo muito melhor. Agora precisamos passar para o próximo estágio: a política."

A meta da política americana e europeia é restaurar a política palestina, fortalecendo a Autoridade Palestina, sob a presidência de Mahmoud Abbas, que apoia uma solução de dois Estados com Israel, e enfraquecendo os radicais islâmicos do Hamas, que governam Gaza. O Fatah diz que realizará seu primeiro congresso geral em 20 anos no início de agosto, para continuar crescendo com base em seus sucessos, apesar de ainda não estar claro onde ocorrerá a reunião.

O governo israelense do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diz compartilhar a meta de ajudar Abbas, o motivo para estar buscando melhorar as condições econômicas na Cisjordânia como plataforma para passar para uma discussão política. Os palestinos temem que a discussão política nunca chegará e dizem que os israelenses estão fazendo muito pouco para reduzir a ocupação. Ainda assim, eles apontam com orgulho para as muitas mudanças na Cisjordânia.

Enquanto isso, o sítio econômico liderado pelos israelenses contra Gaza continua, permitindo a entrada apenas de bens humanitários. Isso estabelece o forte contraste desejado entre os territórios, mas causa enorme sofrimento e raiva.

Ao ser perguntado sobre o motivo da sorte da Cisjordânia estar mudando, um alto general israelense iniciou sua narrativa com um gráfico mostrando 410 israelenses mortos por palestinos em 2002 e quatro em 2008.

"Nós destruímos os grupos terroristas com três coisas -inteligência, a barreira e a liberdade de ação de nossos homens", ele disse, falando sob a condição de anonimato, seguindo as regras militares. "Nós enviamos nossas tropas para todos os mercados e todas as casas, permanecendo extremamente concentrados em pegar os bandidos."

Mas ele acrescentou que a vitória eleitoral legislativa do Hamas em 2006, seguida por sua tomada violenta de Gaza em 2007, levou Abbas a combater o Hamas. Tropas palestinas estão treinando na Jordânia com apoio dos Estados Unidos.

Atualmente há vários milhares de homens treinados dessa forma, e sua capacidade, juntamente com a da força policial daqui treinada por europeus, fez uma enorme diferença.

Um elemento importante para tornar a força palestina eficaz, dizem autoridades israelenses e americanas, foi retirar os jovens palestinos das garras ancestrais de suas aldeias e clãs tribais e treiná-los no exterior, os transformando em soldados leais às unidades e comandantes.

O general israelense disse que no último ano e meio, as forças israelenses e palestinas entraram em confronto apenas duas vezes, e em ambos os casos ocorreu uma reunião para restaurar a confiança.

Falando a respeito da seriedade dos palestinos, ele acrescentou: "Nós ficamos impressionados duas vezes nos últimos meses". A primeira vez foi durante a invasão militar de Israel a Gaza, quando os policiais palestinos mantiveram a calma na Cisjordânia durante os protestos. A segunda foi em junho, quando as forças de segurança entraram duas vezes em choque com homens do Hamas na cidade de Qalqilya, lutando até a morte.

Os israelenses recuaram suas forças para os arredores de quatro cidades, reduziram bastante o número de barreiras permanentes e prometeram ajudar no desenvolvimento da indústria. Eles disseram que os palestinos agora precisam de tribunais, presídios e juízes treinados.

Blair concordou, mas disse que há muito mais que Israel precisa fazer, como colocar um fim à expansão dos assentamentos e remover outras barreiras. Além disso, ele disse, Israel deve permitir um maior desenvolvimento palestino nos 60% da Cisjordânia que controla plenamente.

Os líderes empresariais palestinos estão irritados com as limitações israelenses. A Paltel, que opera a única empresa palestina de celulares, diz que Israel não permite que ela coloque suas torres nas terras que ele controla. Isso força os usuários palestinos a pagarem tarifas de roaming para muitas chamadas e permite que as empresas israelenses de telefonia celular ofereçam tarifas mais baixas.

Há de um ano Israel promete liberar uma segunda frequência para que uma concorrente da Paltel possa fornecer serviço de telefonia celular, mas ele ainda não o fez. Isso deixa os palestinos céticos.

"Eu não vejo nenhuma indicação de que Israel deseja ajudar a economia palestina", disse Abdel-Malik al-Jaber, vice-presidente da Paltel.

Ainda assim, sua empresa investiu milhões no ano passado em call centers e serviços ao cliente devido à maior segurança e renda.

Como colocou Nader Elawy, gerente do Cinema City, o novo cinema daqui: "Nós agora temos lei e ordem. É realmente possível sentir a mudança".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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