UOL Notícias Internacional
 

18/07/2009

Movido a lanchas, o tráfico ilícito de sexo prospera na Albânia

The New York Times
Dan Bilefsky
Em Vlore (Albânia)
Foi apenas quando seu traficante fechou a boca dela com fita adesiva, a drogou e ameaçou matar a família dela, que a mulher de 27 anos disse ter percebido que o homem com o qual ela planejava se casar a tinha seduzido com uma mentira terrível.

A jornada dela aos 18 anos, de uma aldeia na Albânia para um bordel em Londres, onde ela disse ter passado cinco anos trabalhando como prostituta, começou com um anel de ouro de noivado, a promessa de uma vida melhor no exterior e -como muitas antes dela- uma viagem de lancha para a Itália, protegida pela escuridão da noite.

Tantos homens, mulheres e crianças foram traficados para o exterior para trabalhar como trabalhadores forçados, prostitutas e pedintes que o governo albanês, há três anos, proibiu todos os cidadãos albaneses de usarem lanchas, o transporte favorito usado pelos traficantes para tirar pessoas do país.

Esta medida drástica, somada a controles mais rígidos na fronteira e assassinatos de traficantes por vingança pelas famílias das vítimas, teve um efeito significativo, reduzindo o tráfico em mais da metade e praticamente acabando com o papel da Albânia como maior ponto de trânsito para pessoas traficadas do leste e sul do continente para a Europa Ocidental, disseram especialistas que estudam o tráfico.

Mas a proibição provocou fortes protestos de pescadores e pessoas do setor de turismo, e em maio ela foi cancelada. As autoridades e representantes de direitos humanos estão preocupados que como resultado, o tráfico de seres humanos poderá explodir de novo -especialmente em um momento difícil.

A crise financeira, disseram muitos especialistas, pode vir a aumentar o tráfico humano ao redor do mundo. Um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos, em junho, alertou para o risco potencial, dizendo que a crise está causando "um encolhimento da demanda por trabalhadores e a um aumento do número de trabalhadores dispostos a correr riscos maiores para oportunidades econômicas".

No caso da Albânia, um país pobre no sul dos Bálcãs que passou a fazer parte da Otan em abril e busca ingressar na União Europeia, a capacidade do governo de combater o tráfico é vista como um teste crítico.

Para as vítimas, como a mulher do pequeno vilarejo, enredada pelas falsas promessas de seu traficante, essa luta é uma questão de sobrevivência.

"Eu estava apaixonada por ele, eu sonhava em viver minha vida com ele, mas era tudo uma grande mentira", ela disse em uma recente entrevista em um abrigo para vítimas dos traficantes. "Eu queria fugir, mas aos olhos da lei, eu era uma prostituta com documentos falsos. Para onde eu iria?"

Ela disse que o homem que a abduziu conquistou sua confiança ao longo de meses, então a trancou em um quarto e tomou seu passaporte e celular. Ela disse que ele batia nela e a cortava com um canivete, um alerta do que faria se ela tentasse fugir. Ela disse que foi forçada a ser prostituta em Londres e em Antuérpia, Bélgica. Para cobrir seus rastros, a família do homem telefonou para os pais dela e disse que o casal tinha se mudado para a vizinha Kosovo.

A mulher não disse seu nome por temer represália do traficante, o que impossibilita confirmar sua história com a queixa na polícia que ela disse ter feito contra o homem. Mas a coordenadora e diretora do abrigo onde ela está revisou os detalhes do caso e garante sua credibilidade.

No auge do tráfico, estimam os especialistas, milhares de mulheres, homens e crianças foram levados para as vizinhas Grécia e Itália e outros lugares, para exploração sexual ou trabalhos forçados.

A ONU estima que 12,3 milhões de pessoas em todo o mundo estão empregadas em servidão sexual ou trabalhos forçados. Muitas são atraídas por falsos noivados, casamentos reais ou falsas ofertas de emprego. Em alguns casos, as vítimas foram vendidas por suas famílias. Outras vão voluntariamente.

Mesmo com a proibição às lanchas no ano passado, o Departamento de Estado disse em seu relatório de junho que, em 2008, a Albânia não atendeu aos "padrões mínimos para eliminação do tráfico", apesar de ter feito "esforços significativos para atendê-los". O relatório disse que a corrupção permanece predominante.

Em junho de 2007, o Ministério do Interior prendeu 12 policiais acusados de tráfico de seres humanos em três casos, incluindo seis policiais com responsabilidade direta no combate ao tráfico.

As autoridades albanesas disseram que a ajuda de outros países, para obtenção de evidências para condenação dos traficantes, frequentemente inexiste. Iva Zajmi, a coordenadora de combate ao tráfico no Ministério do Interior, ressaltou que como resultado da prostituição legal ou tolerada em países como Bélgica, Alemanha e Holanda, muitas mulheres traficadas não são identificadas como vítimas nesses países.

"A legalização da prostituição criou um muro atrás do qual os traficantes podem se esconder e reprimir as vítimas", ela disse.

O tráfico se enraizou na Albânia em 1991, após a queda do comunismo, e por quase 10 anos os traficantes trabalharam impunemente, devido à ausência de leis contra o tráfico. O problema chegou ao pico em 1997, quando um esquema de pirâmide financeira abalou a Albânia e deixou o país à beira de uma guerra civil.

"Os albaneses estavam vendendo suas irmãs por dinheiro", disse Ilir Yzeiri, um escritor albanês que fez um documentário sobre o tráfico humano.

Em 2004, o governo criou tribunais para julgar casos de tráfico e aprovou duras leis contra o tráfico, incluindo penas de prisão de até 15 anos para os traficantes.

Mas especialistas em direitos humanos dizem que os processos são muito raros, em parte porque muitas vítimas têm medo de testemunhar. Em 2008, ocorreram 22 processos de tráfico, segundo o relatório do Departamento de Estado, menos da metade do número de processos em 2007.

Brikena Puka, a diretora executiva do Vatra, um grupo que ajuda as vítimas do tráfico, disse que os processos são escassos em parte porque muitas vítimas estão sendo processadas por prostituição. Em alguns casos, as mulheres são presas após serem deportadas de outros países.

"As mulheres traficadas são duas vezes vítimas", ela disse. "Primeiro pelos traficantes, depois pelo sistema judiciário albanês."

Mesmo quando querem prestar queixa, as mulheres traficadas que foram entrevistadas disseram ser extremamente difícil escapar de seus captores, que fazem parte de uma rede internacional organizada.

A vítima do tráfico que contou sua história lembrou que seu traficante tinha contatos em cada cidade que visitaram. Ela disse que o traficante também empregava um falsário, que fornecia os documentos falsos.

Ela achou que finalmente seria libertada quando seu traficante foi preso em Londres, em 2006, e deportado para a Albânia. Mas, ela disse, os irmãos dele e suas esposas, que estavam em Londres, a colocaram de volta no comércio de sexo. Ela disse que às vezes ganhava mais de 1.000 euros por dia, mas que ela nunca ficava com o dinheiro.

Semanas depois, ela disse, ela avisou a polícia britânica, que logo depois a deportou para a Albânia, onde ela prestou queixa na polícia albanesa, acusando o traficante de abuso.

Ela disse que quando finalmente contou para sua família, ela foi rejeitada. Semanas depois, ela disse, ela foi novamente abduzida pelo seu traficante, que foi solto. Segundo ela, ele ameaçou matá-la se não retirasse sua queixa na polícia, então ela disse à polícia que tinha "mentido por causa de ciúmes".

A coordenadora do abrigo onde ela está disse que a declaração original da mulher de sua história era tão detalhada -e ela exibia tantos sinais de abuso físico e psicológico- que a polícia rejeitou sua retirada da queixa.

Ela foi encaminhada ao abrigo, que a encorajou a apresentar uma acusação formal contra o traficante. Ela o fez e o homem foi preso por um mês, período após o qual foi solto pela segunda vez, segundo a coordenadora, que pediu anonimato por motivos de segurança.

A ex-prostituta não enfrenta mais o terror diário de seu traficante, mas é forçada a viver sob constante vigilância policial em um abrigo de segurança máxima, do qual ela não sai há três anos. Ela passa seu tempo assistindo televisão e aprendendo a ser cabeleireira, no salão improvisado do abrigo.

"Você espera que seu país proteja seus cidadãos", ela disse. "Você espera que as leis não transformem vítima em criminoso. Fora da Albânia, eu estava por minha própria conta, mas aqui estou eu, no meu próprio país, e ainda estou sofrendo abusos."





Tradução: George El Khouri Andolfato

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