UOL Notícias Internacional
 

19/07/2009

Ex-presidente iraniano desafia líder aiatolá

The New York Times
Elaine Sciolino
Em Washington
Durante suas décadas na política iraniana, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani já foi elogiado como pragmático, criticado com covarde, acusado de corrupção e desdenhado como ultrapassado.

Agora, ao atacar o modo como o governo lidou com a eleição presidencial contestada do mês passado, Rafsanjani, um clérigo de 75 anos e ex-presidente do país, se coloca sob nova luz: como um agente com autoridade para interpretar os ideais dos 30 anos de república islâmica no Irã.

Usando sua posição como líder das orações de sexta-feira para fazer o discurso de uma vida, Rafsanjani abandonou sua cautela habitual para exigir que o governo liberte as pessoas que foram presas nas últimas semanas, alivie as restrições sobre a mídia e elimine a "dúvida" que o povo iraniano tem a respeito do resultado eleitoral. E desafiou implicitamente a autoridade do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, ao acusá-lo de tomar decisões sem buscar consenso.

Por trás das palavras estava a afirmação clara de que para a sobrevivência da república islâmica, é preciso restaurar sua legitimidade, reafirmar suas instituições republicanas e encontrar uma fórmula para governar. E para estabelecer sua própria legitimidade, Rafsanjani evocou sua longa história pessoal e política.

"O que vocês estão ouvindo agora vem de uma pessoa que fez parte da revolução por todos os segundos desde o início da luta", ele disse, acrescentando: "Nós estamos falando dos últimos 60 anos até hoje".

Ele lembrou que seu mentor, o aiatolá Ruhollah Khomeini, o pai da revolução de 1979, disse que a chave para o sucesso era cumprir a "vontade do povo" e, neste caso, a confiança do povo foi quebrada.

Rafsanjani apoiou o candidato de oposição, Mir Hossein Mousavi, durante a campanha e ao se manifestar na sexta-feira, parecia se aproximar ainda mais de Mousavi como símbolo público da oposição. Mas Rafsanjani também tomou cuidado para não refutar diretamente a declaração do governo de que o presidente Ahmadinejad venceu a eleição.

Em seu sermão na sexta-feira, o clérigo desafiou uma campanha do governo para silenciá-lo, na qual altos funcionários alternavam ataques pessoais e ameaças veladas. Essa campanha prosseguiu no sábado, quando figuras conservadoras criticaram seu discurso.

Ele também usurpou o papel institucional de Khamenei.

"Foi um discurso que Khamenei devia ter dado", disse Farideh Farhi, um cientista político da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos. "Esse é o seu papel designado como guia espiritual e político, de curar as divisões, de estar acima das disputas. Mas Khamenei provavelmente é inseguro demais e tem muito a perder. Ele tomou partido. Rafsanjani se ergueu diante da situação e ofereceu um caminho para a reconciliação nacional."

Ainda assim, seria errado dizer que Rafsanjani repentinamente se tornou defensor da justiça, direitos humanos e da liberdade.

Afinal, em meados de 1999, quando o governo reprimiu brutalmente as manifestações estudantis na Universidade de Teerã, ele fez um duro sermão no mesmo local em que fez o de sexta-feira. Naquela ocasião, ele atribuiu a inquietação aos "inimigos da revolução" e a "fontes de fora do país". E elogiou o uso da força pelo Estado.

Durante grande parte de seus oito anos na presidência, de 1989 a 1997, muitos iranianos foram executados, principalmente dissidentes políticos, mas também pessoas envolvidas com drogas, comunistas, curdos, bahaístas e até mesmo clérigos.

Politicamente, Rafsanjani foi humilhado duas vezes: primeiro em 2000, quando concorreu ao Parlamento e ficou em 30º e último lugar em Teerã (em meio a acusações de fraude eleitoral a seu favor), e novamente em 2005, quando teve péssimo desempenho em sua candidatura à presidência.

Mas diferente de muitas figuras políticas no Irã, e certamente diferente da maioria dos clérigos, Rafsanjani é um político consumado. Ele se recusa a deixar o campo de batalha da política em um país no qual a norma é a retirada e o silêncio diante de críticas e derrota.

Rafsanjani também sabe como mudar o discurso. A foto para sua propaganda na campanha de 2000 o mostrava sentado sob uma árvore sem seu turbante. Ele deve ter imaginado que um traje religioso tinha se tornado um empecilho.

Sua posição pública ousada traz riscos. Os membros de sua família foram brevemente detidos durante este período de turbulência, e o governo pode usar seu próprio histórico, e as atividades financeiras de sua família, para desacreditá-lo.

Khamenei também fez seu sermão notável há quatro semanas, no qual abraçou a vitória de Ahmadinejad, chamou a eleição de prova da confiança da população no sistema da república islâmica e ameaçou reprimir violentamente as manifestações caso continuassem.

Rafsanjani lutou para atrair o centro; o aiatolá manteve sua base de apoio na direita.

Rafsanjani falou sobre o estilo de governo do profeta Maomé em Medina, com sua insistência em escutar as pessoas, tratando-as com respeito e com a bondade islâmica. Ele empregou um argumento pragmático ao pedir pela soltura daqueles que foram presos. "Não vamos permitir que nossos inimigos nos reprimam, riam de nós e elaborem planos contra nós porque certas pessoas estão na prisão", disse.

Khamenei, por sua vez, atacou em seu sermão os inimigos do Profeta e os atuais inimigos estrangeiros tanto dentro quanto fora do Irã. "Os violadores", como ele os chamou, "não são o público ou aqueles que apoiam os candidatos. São aqueles que nos desejam mal, os mercenários, os agentes dos serviços de inteligência ocidentais e os sionistas".

Ironicamente, seu discurso soou muito como o que Rafsanjani fez após os distúrbios há uma década.

Desde os primórdios da revolução, Rafsanjani defendeu o pragmatismo acima do absolutismo religioso.

Durante a tomada da embaixada americana em Teerã, em 1979, os líderes do Irã exigiam o retorno do xá exilado Mohammed Reza Pahlevi como condição para a libertação dos 52 reféns americanos. Rafsanjani tinha uma ideia melhor: "Se o xá morrer, isso ajudaria", ele disse a esta repórter em uma entrevista em 1980. (Pouco depois, o xá morreu por complicações causadas pelo câncer.)

Em 1986, após a revelação da venda secreta de armas americanas pelo governo Reagan ao Irã durante sua guerra com o Iraque, Rafsanjani, na época presidente do Parlamento, usou o sermão de sexta-feira para explicar o motivo. Ele disse que o Irã precisava adquirir armas para lutar contra o Iraque, mesmo se isso significasse negociar com um país inimigo como os Estados Unidos. Posteriormente, ele recebeu crédito por ajudar a persuadir Khomeini a colocar um fim à guerra que durou oito anos.

Um construtor de Estado, Rafsanjani até mesmo deixou a religião de lado para reabilitar a imagem de Persépolis, o local do império persa de 2.500 anos, dizendo: "Nosso povo precisa saber que não é um sem história".

Desta vez, o ex-presidente não apresentou suas metas. Ele não disse se espera que os recentes resultados eleitorais "roubados" sejam anulados ou se quer apenas convencer o país a fazer as pazes com esses resultados.

"Ele não tratou do problema básico para a oposição: que foi tratada com brutalidade nas ruas e que esta foi uma eleição manipulada", disse Shaul Bakhash, professor de história do Oriente Médio na Universidade George Mason, na Virgínia, EUA.

Em seu livro de 1963 sobre milagres, Rafsanjani se gabou de ter escapado da bala de um assassino graças à sua "velocidade revolucionária" e sua disposição de "bater naqueles que dizem tolices".

Dada a natureza fluida da política iraniana, seria tolice fazer previsões sobre seu poder de fazer ou não milagres.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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